As advertências que Obama ignorou

Totalmente despreparado para enfrentar o levante no Egito, o governo de Barack Obama apresentou uma série de desculpas. Segundo os seus representantes, o tempo todo a administração foi tacitamente favorável às reformas. Por outro lado, a CIA jamais advertiu que o Egito poderia explodir. Os apelos pela instauração de reformas foram menosprezados. Qualquer pessoa que acompanhou os eventos do Egito nos últimos anos sabe o quanto o governo americano mimava o presidente Hosni Mubarak, cortando recursos para os programas de democratização do país e evitando críticas ao seu regime.

Jackson Diehl, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mas é preciso esclarecer também outros aspectos da questão. A Casa Branca foi alertada, por um grupo bipartidário, de que o Egito se aproximava de um momento crítico. O Grupo de Trabalho para o Egito foi constituído há um ano para soar o alarme a respeito do regime cambaleante de Mubarak. Infelizmente, o governo continua não ouvindo.

O grupo trabalha com uma competência consideravelmente maior a respeito da questão egípcia do que a que existe na Casa Branca. O grupo escreveu inicialmente à secretária de Estado, Hillary Clinton, em 7 de abril de 2010, dizendo que o Egito poderia "sofrer consideráveis modificações no plano da liderança no futuro próximo", e, "se não for aproveitada a oportunidade para empreender as reformas, dificilmente haverá alguma perspectiva de estabilidade e prosperidade no Egito".

Entretanto, a advertência não surtiu nenhum efeito. Quando, em maio, Mubarak voltou a decretar a lei de emergência no Egito, a Casa Branca e o Departamento de Estado reagiram de maneira muito branda. Então o grupo voltou a escrever a Hillary em 11 de maio. Não houve qualquer resposta.

Em junho, o grupo alertou em um artigo especial ao Post: "O governo Obama, que busca uma estabilidade ilusória, permanece mudo e passivo enquanto o previsível desastre se aproxima cada vez mais. Ele está repetindo o erro cometido pelos governos da era da Guerra Fria, que apoiavam as ditaduras de direita - até o momento em que elas foram derrubadas por forças extremistas".

O grupo não só divulgou suas declarações, como se reuniu com funcionários do Departamento de Estado e da Casa Branca. Em uma reunião, em novembro, seus membros pediram uma enérgica reação se, conforme se previa, Mubarak fraudasse as eleições parlamentares.

Quando as eleições se revelaram uma farsa, o governo reagiu com tênues declarações, reafirmando ao mesmo tempo seu apoio a Mubarak.

Desde a eclosão da atual crise, o grupo de trabalho insta o governo a declarar explicitamente que "Mubarak não terá lugar em um processo que leve a uma mudança política importante" e a "suspender toda a assistência econômica e militar ao Egito enquanto o governo não aceitar" autênticas reformas democráticas. Na semana passada, parecia que Obama atenderia aos conselhos do grupo, ao afirmar que a transição para a democracia precisava "começar agora", sugerindo que Mubarak abandonasse a presidência. Mas, no fim de semana, foi reafirmada a doutrina da estabilidade a todo custo do Departamento de Estado. E Hillary endossou "o processo de transição anunciado pelo governo egípcio".

Considerando todas as vezes em que o grupo de trabalho mostrou que estava certo e o governo estava errado, as cartas abertas divulgadas na segunda-feira merecem toda a atenção do público. Mas será que o governo ouvirá? Considerando o que aconteceu até agora, muito provavelmente não. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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