As apostas temerárias sobre o Irã

EUA acreditam que Teerã cederá à pressão internacional, às inspeções intrusivas e à perspectiva da volta das sanções

FAREED ZAKARIA /THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2015 | 02h01

Imaginemos que os adversários do acordo nuclear com o Irã se imponham. O Congresso dos Estados Unidos derruba o acordo. Qual seria a consequência mais provável? Dentro de um ano, o Irã teria mais de 25 mil centrífugas, seu prazo para obtenção de urânio suficiente para uma arma encolheria para meras semanas e as sanções contra ele desmoronariam.

Como isto poderia ser do interesse nacional dos EUA? Ou de Israel? Ou da Arábia Saudita? O cenário não é implausível e está fundamentado em fatos. Em 2005, três potências europeias rejeitaram um acordo nuclear com o Irã depois de dois anos de negociações. Hassan Rohani, o atual presidente iraniano, era na ocasião o principal negociador do Irã.

Quando as conversações empacaram, a República Islâmica acelerou a produção de centrífugas, passando de 200 instaladas às 20 mil atuais. Ele também produziu mais de 7 mil quilos de gás de urânio enriquecido e acelerou o trabalho no reator de água pesada em Arak, que proporciona o caminho para uma bomba de plutônio.

Não há dúvida de que o Irã tem capacidade de fazer centrífugas, mesmo submetido a duras sanções. Entre novembro de 2012 e novembro de 2013, quando todas as sanções internacionais contra o Irã estavam em vigor, ele instalou 6 mil novas centrífugas. O programa iraniano cresceu ao longo dos anos com ciência e tecnologia próprias, sem depender em larga escala de estrangeiros.

A ideia de que China, Rússia e a União Europeia manteriam sanções contra o Irã se Washington rejeitar o acordo que elas penosamente negociaram e integralmente abraçaram é forçada. A China está desesperada para comprar petróleo iraniano (com desconto). A Rússia já está negociando para vender sua tecnologia e equipamentos de energia nuclear. E o ministro de Relações Exteriores da França já está com uma visita programada para a próxima semana a Teerã, presumivelmente para fazer o que diplomatas desse país sempre fazem, promover os interesses corporativos franceses.

Vale lembrar que quando o governo de Barack Obama estava montando a última rodada de sanções da ONU contra o Irã, muitos republicanos rejeitaram o esforço. Num artigo de opinião, de agosto de 2009, no Wall Street Journal, intitulado Sanções não funcionarão contra o Irã, o embaixador do governo Bush na ONU, James Bolton, argumentou que as outras grandes potências jamais cumpririam tais sanções - e, se o fizessem, isso não mudaria o comportamento do Irã.

Agora, os republicanos dizem que essas mesmas sanções são maravilhosamente eficazes e quem dera o governo as mantivesse indefinidamente. A razão crucial para as ações terem sido tão eficazes - mais do que os críticos esperavam - é que elas são abrangentes. Sanções com furos, em especial quando os furos envolvem países importantes como China, Rússia e Índia, são inúteis, talvez até contraproducentes. Elas não infligem muito sofrimento ao regime e, na verdade, beneficiam os linhas-duras que controlam as poucas portas de entrada e saída da economia.

Há uma profunda diferença na percepção que o mundo e os EUA têm das sanções contra o Irã. Para muitos nos EUA, as sanções são um mecanismo para punir um regime perverso. Mas, para a maioria dos outros países envolvidos, as sanções foram decretadas especificamente para trazer o Irã até a mesa de negociações.

Esses países não permitiriam que elas fossem transformadas num mecanismo permanente para estrangular o Irã. Todos eles têm relações com o Irã, transacionaram livremente com ele até 2012 e pretendem retomar e ampliar esses vínculos.

Por último, alguns que argumentam contra o acordo acreditam que os EUA simplesmente deviam permanecer firmes e o Irã teria de ceder ou implodir. Quem quer que já tenha lidado com iranianos sabe que eles são um povo orgulhoso e nacionalista. A República Islâmica suportou três décadas de sanções americanas, uma guerra de nove anos contra o Iraque (na qual Saddam Hussein usou armas químicas contra iranianos) e outras pressões internacionais.

Se as pequeninas Cuba e Coreia do Norte não cederam após décadas de um isolamento muito maior, é difícil imaginar o Irã fazendo isso. Quanto à crença de que a República Islâmica implodirá em breve, há poucas evidências nesse sentido. Mais importante é sabermos que um Irã mais democrático provavelmente ainda apoiaria um programa nuclear. Aliás, o líder do Movimento Verde, de 2009, Mir Hossein Mousavi, defendeu que o presidente Mahmoud Ahmadinejad estava fazendo concessões demais ao Ocidente com respeito aos direitos nucleares do Irã.

Correção de rumo. Os críticos de Obama dizem que ele está apostando que o Irã cumprirá o acordo. Na verdade, o governo está fazendo uma aposta calculada de que o Irã será constrangido por pressão internacional, inspeções intrusivas, mecanismos de verificação e a perspectiva de uma volta das sanções.

Os adversários do acordo criaram um cenário fantasioso em que o mundo apoiará mais sanções, Teerã voltará mansamente à mesa de negociações com novas concessões ou, talvez, a própria República Islâmica desmorone - e seus sucessores denunciem e desmantelem o programa nuclear. Confiar nesse cenário é pura jogatina. É uma aposta temerária com poucas evidências para sustentá-la. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

 

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