As armas químicas de Assad

Sobrevivente de ataque com gás sarin critica falta de ação dos EUA contra regime sírio

QUSAI , ZAKARYA, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2014 | 02h01

Toda vez que vejo o presidente Barack Obama falar pela televisão, tenho horríveis flashbacks. Meus olhos queimam, luto para respirar e, quando inspiro, o ar parece cortar meus pulmões como mil punhais. Carrego no colo uma criança com o olhar vidrado, coloco-a num caminhão e depois o mundo começa a rodar e tudo fica preto. Depois, alguém me sacode, me beija, chorando em cima de mim. De repente, volto a focalizar as coisas e vejo minha amiga gritando: "Você está vivo! Você está vivo!"

Eu sou um sobrevivente dos ataques do ditador sírio Bashar Assad com armas químicas, no dia 21 de agosto de 2013. Um ano atrás, exatamente, meu coração parou por alguns minutos ao inalar o gás sarin lançado pelas forças do regime sírio na minha cidade natal, Moadamiya, no subúrbio de Damasco. A cena em frente ao alpendre da minha casa naquela manhã parecia o Dia do Juízo Final: os vizinhos que conhecia desde sempre corriam, gritavam e se contorciam desesperados como se um assassino invisível lhes roubasse a vida.

Hoje, um ano depois, lembro com tristeza os amigos queridos, consciente de que o homem que os matou está sendo poupado da punição pelas atrocidades que cometeu naquele dia. Entretanto, a maior tristeza da minha vida não foi a que experimentei no dia em que meus amigos morreram, mas três semanas depois, assistindo a um noticiário que mostrava o presidente Obama. Então, daquele discurso, soube que os EUA assinariam um acordo com a Rússia para tirar as armas químicas da Síria, em vez de atacar Assad em razão dessas atrocidades.

Tive de traduzir a notícia para o árabe para os meus amigos e ficamos ainda mais desesperados do que no dia 21 de agosto, porque sabíamos que agora Assad teria luz verde para matar todos os sírios que quisesse, desde que não utilizasse gás sarin. No ano passado, aconteceu o que eu temia. Assad abriu mão da maior parte do seu gás tóxico, mas também descobriu uma nova arma para usar em seu lugar, que também mata de maneira invisível e numa escala impressionante. Os americanos reconhecem essa arma porque os fanáticos do Estado Islâmico a usaram recentemente para matar yazidis no Monte Sinjar. A arma é a fome.

No ano passado, Assad matou centenas de civis nas áreas em mãos dos rebeldes em todo o país negando-lhes comida, água ou remédios até sucumbirem de fome. Assim como o suposto "califa" do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, o único objetivo de Assad com a inanição é submeter a um sofrimento indescritível pessoas inocentes até que elas aceitem seu governo sanguinário. Na minha cidade natal, há poucos extremistas. Emissários da Al-Qaeda que chegaram à procura de recrutas partiram de Moadamiya depois de concluir em um único dia que éramos "apóstatas". Somos pessoas que vivem num bairro lutando pela democracia. Por isto, Assad está nos deixando morrer de fome aos poucos.

Fiquei em Moadamiya até fevereiro e vi com os meus próprios olhos o pleno impacto da arma usada por Assad: "morra de fome e renda-se". Em outubro de 2012, as forças do regime começaram um cerco total a Moadamiya, impedindo a entrada de alimentos, remédios e suprimentos humanitários. Embora inicialmente conseguíssemos nos alimentar graças a uma reserva de emergência de azeitonas, a comida começou a faltar com a chegada do inverno e os habitantes eram obrigados a se alimentar de ervas e de animais soltos pela rua.

Mais uma vez, segurei criancinhas em meus braços de olhar vidrado e morrendo, dessa vez de desnutrição. Consolei os pais pela morte dos filhos, como meu amigo Abu Bilai, que era dono de mercearia antes do cerco, mas não pôde sequer salvar a filha. Outro amigo meu procurava desesperadamente remédio para a filha que estava morrendo, mas foi preso pelo serviço secreto do regime. Nós o encontramos com a garganta cortada completamente sem pele.

Estas são as realidades cotidianas para dezenas de milhares de sírios. Cidades inteiras estão morrendo aos poucos de fome e o acordo sobre armas químicas entre os EUA e a Rússia tornou isto possível. Sei que os EUA podem salvar os meus amigos e as famílias de Moadamiya, assim como salvou os pobres yazidis no Monte Sinjar.

Obama minimizou recentemente o Exército Sírio Livre (ESL), porque ele é composto por "ex-médicos, fazendeiros, farmacêuticos" e incapaz de combater Assad e o Estado Islâmico ao mesmo tempo. Conheço os combatentes do ESL da minha cidade e o presidente se engana em não valorizá-los.

Antes de desmaiar, um ano atrás, os vi com meus próprios olhos enquanto repeliam um ataque maciço das tropas de Assad. Os "fazendeiros e farmacêuticos" do Exército Sírio Livre defenderam Moadamiya de tudo o que Assad despejou sobre eles e merecem o apoio dos EUA. Em novembro, comecei uma greve de fome por tempo indeterminado para chamar a atenção para as horrendas realidades diárias da minha cidade natal. A greve de fome recebeu a atenção internacional e o deputado americano Keith Ellison chegou a jejuar por um dia em solidariedade. No entanto, também chamou a atenção das autoridades do regime, que começaram a me procurar.

Com a morte à espreita, decidi "negociar" com o regime e enganar Ghassan Bilai, o chefe de Estado Maior de Maher Assad, temido irmão de Bashar, levando-o a acreditar que eu estava disposto a trabalhar com ele. Isto me permitiu escapar para o Líbano e, dali, para a Turquia, antes de encontrar finalmente refúgio nos EUA. Desde que cheguei, estou chocado com o fato de os cidadãos do país mais poderoso do mundo mal discutirem o que acontece no mundo. Mas também estou agradavelmente surpreso com a generosidade e o amor à liberdade dos americanos.

Vejo estátuas em toda parte celebrando a Revolução Americana, em Washington, uma revolução que não poderia ter acontecido sem os muitos fazendeiros e doutores que pegaram em armas. Tenho esperança de que, quando os americanos se derem conta do que está ocorrendo na Síria, começarão a ajudar os "fazendeiros e farmacêuticos" sírios que também inspiram a nossa revolução. Obama precisa compreender que estamos lutando pela nossa liberdade e sua falta de ação, enquanto estamos sendo massacrados, entrará para a história como uma pecha moral em sua presidência. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É O PSEUDÔNIMO DE KASSEM EID, DE 28 ANOS, SÍRIO DE ORIGEM PALESTINA QUE SERVIU DE PORTA-VOZ DOS MORADORES DE MOADAMIYA ATÉ FEVEREIRO

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