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As bondades de Putin

Há quatro semanas centenas de milhares de ucranianos reúnem-se na Praça da Independência, em Kiev, para exigir que seu país se aproxime da União Europeia e não da Rússia, como decidiu o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2013 | 02h03

Na terça-feira, o senhor de todas as Rússias, Vladimir Putin, entrou na briga e recebeu Yanukovich. Ambos se conhecem muito bem e têm uma linguagem comum. Putin é um antigo oficial da KGB que jamais se conformou com o naufrágio da União Soviética. Seu homólogo ucraniano na época da União Soviética era o dirigente comunista de Donetsk (no leste da Ucrânia).

Para Putin, a aposta é clara: trazer a Ucrânia para a "nova União Soviética", impedir que ela se incline para a UE como exigem os manifestantes. Quais as suas armas para seduzir a Ucrânia? Dinheiro. Putin vai despejar na Ucrânia rios de rublos. Está na hora porque a Ucrânia está próxima de dar um calote nos seus pagamentos. A lista de presentes de Moscou para a Ucrânia é de dar vertigem. Primeiro, reduzir em um terço o preço do gás que fornece à Ucrânia. Além disso, Moscou deverá comprar US$ 15 bilhões de obrigações emitidas pelo Estado ucraniano.

Esses presentes são ainda mais grandiosos porque Putin há alguns meses vinha adotando uma tática totalmente contrária. Apertava o pescoço do seu vizinho do sul até fazê-lo perder o fôlego. Negócios que há alguns meses estavam congelados ou eram onerados por cláusulas ruinosas para a Ucrânia serão retomados com grande pompa.

Face à ofensiva de Putin, Bruxelas e os países ocidentais conseguirão reagir? A UE, quando entendeu que a Ucrânia estava sendo atraída para a Rússia, tentou "comprar" a amizade dos ucranianos. Prometeu ajuda. O FMI também. Mas essas promessas tinham duas desvantagens em comparação com as de Putin: primeiramente, eram menos suntuosas. E, sobretudo, tanto o FMI como a UE exigiram "reformas drásticas" por parte da Ucrânia. Putin, pelo contrário, não exige reformas nem transparência. Ele é assim: tem um grande coração.

Se a batalha dos pró-europeus continuar em Kiev, é conveniente evitar outros desvios: está evidente que as fileiras de manifestantes pró-Europa estão infiltradas por ultranacionalistas. Outrora essa organização colaborou com os ocupantes alemães da época de Hitler contra os soviéticos, mais ou menos como na Síria ou nas primaveras árabes os fanáticos islamistas da jihad e Al-Qaeda agem para desvirtuar as grandes revoltas democráticas contra as tiranias.

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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