As caras do Tea Party

Como no Tea Party se mesclou toda uma legião de grupos e organizações extremistas, de fanáticos antiaborto e anti-homossexuais a integristas religiosos que querem desterrar Darwin e a Teoria da Evolução dos currículos escolares e substituí-los pelo criacionismo bíblico, passando por seitas pitorescas como os inimigos da masturbação e da miscigenação racial e patrioteiros de tricórnio, bombacha e tambor, difundiu-se a ideia, sobretudo fora dos Estados Unidos, de que a democracia americana poderia vir abaixo nas eleições parlamentares e para governadores de novembro e cair nas mãos de ultradireitistas e loucos furiosos.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Pura paranoia ou afloração de desejos reprimidos dos inimigos dos Estados Unidos. O surgimento do Tea Party nestas eleições parciais, por enquanto, complica mais a vida do Partido Republicano que a do Partido Democrata. Aquele, em razão da queda de popularidade do governo de Barack Obama motivada pela crise econômica, que não dá sinais de amainar, e dos 10% de desempregados da força de trabalho, parecia destinado a arrasar nas urnas.

Agora, com o transtorno que criou em seu interior o ativismo e os êxitos locais do Tea Party ao impor seus candidatos, o partido seguramente verá reduzido seu triunfo, pela divisão dos votos republicanos e o abstencionismo ou fuga para o adversário de muitos republicamos a quem atemoriza a ideia de um movimento tão conservador e radical - e de líderes tão pouco sólidos intelectualmente como Sarah Palin ou Glenn Beck, a estrela midiática da Fox - fixar a linha do partido. De modo que o Tea Party talvez enfraqueça um pouco, ou mesmo bastante, o voto de castigo do governo democrata.

Por outro lado, o Tea Party não é um partido político e, embora tenha feito mossa entre os afiliados do Partido Republicano e, sobretudo, nos povoados e províncias distantes dos grandes centros urbanos dos EUA, ele carece de uma organização nacional e de tempo suficiente para criá-la, além de que também conspiram contra ele as divisões e rivalidades que proliferam em seu interior entre, por exemplo, os mais sensatos, os menos sensatos, os palhaços e os delirantes (há subdivisões ainda mais sutis).

Seu nascimento foi espontâneo, uma proliferação de grupos que, hasteando como símbolo o dos colonos da revolução independentista que atiraram ao mar os carregamentos de chá em rebeldia pelo monopólio comercial e os impostos que Londres impunha, se reuniu para protestar contra o crescimento desaforado do Estado, que percebia em medidas como a reforma da saúde e as descomunais ajudas fiscais aos bancos em razão da crise financeira. O que parecia pouco mais que uma manifestação não transcendente e pitoresca do folclore político americano tomou corpo e transbordou para formar a corrente principal dos acontecimentos cívicos do país.

Minha impressão é que, nestas eleições, ele obterá menos vitórias do que se teme, e, provavelmente, por sua falta de coesão interna, por todas as rêmoras que parasitou e a sua espinha dorsal e liderança enfermiças, ele vai definhar e por fim desaparecerá. No entanto, uma coisa importante restará dele e será absorvida pelos grandes partidos e pelo fazer político nesta sociedade, uma das mais permeáveis e capazes de se recriar que conheço.

Isso porque, por baixo de seu semblante ultraconservador, reacionário, populista e demagógico, e dos disparates que alguns de seus dirigentes possam proclamar, como os que garantem que o presidente Obama é secretamente muçulmano, que ele quer o socialismo para os EUA, ou os escorregões da senhora Christine O"Donnell, candidata pelo Estado de Delaware, antiga praticante de bruxaria que acusou os homossexuais de terem criado a aids, há nas entranhas desse movimento algo de são, realista, democrático e profundamente libertário.

O temor do crescimento desenfreado do Estado e da burocracia, cujos tentáculos se infiltram cada vez mais na vida privada dos cidadãos, recortando e asfixiando sua liberdade e suas iniciativas, a apropriação por parte do setor público de funções ou serviços que a sociedade civil poderia assumir com mais eficácia e menos desperdício de recursos; a criação de sistemas abrangentes de assistência social que só podem se financiar com elevações sistemáticas dos impostos, o que se traduzirá em quedas dos níveis de vida das classes médias e populares.

Esses temores não são gratuitos, eles respondem a uma realidade de nosso tempo e se originam em problemas vividos tanto no Primeiro como no Terceiro Mundo. Nos EUA, porém, eles têm uma ressonância particular pois tocam um nervo sempre vivo em um país onde o individualismo nunca teve a má imagem que tem na Europa, onde as doutrinas coletivistas deixaram raízes profundas em sua história moderna.

Aos EUA chegaram os peregrinos europeus em busca de liberdade, para praticar sua religião, que não era a oficial, para defender o direito do indivíduo de gozar de independência, de escolher sua vida sem outra limitação que não o respeito às formas de vida alheias. Na tradição americana não é o Estado, mas o cidadão o responsável por seu fracasso ou seu êxito. Aquele não deve interferir na vida deste e sim garantir a igualdade de oportunidades, o cumprimento das leis igualitárias e justas que dão os representantes públicos eleitos em eleições libérrimas. Durante muito tempo, esse desígnio ideal foi mais ou menos respeitado e funcionou, trazendo como resultado o extraordinário desenvolvimento e prosperidade do país.

Nesse modelo havia um tanto de irrealidade e muitas imperfeições, sem dúvida, mas ele deu ao grosso da sociedade americana níveis de vida muito superiores aos do restante do mundo durante muito tempo. Depois, em razão das guerras, das desigualdades econômicas que elas multiplicaram, da ação política reformista, ele foi sendo emendado, em muitas coisas para melhor, mas em outras para pior, e entre estas últimas figura, sem dúvida, esta mastodôntica inflação burocrática que, quase como na Europa, foi reduzindo o espaço de liberdade e de autonomia do indivíduo, com o consequente encolhimento da sociedade civil e, portanto, da responsabilidade do cidadão para consigo mesmo, sua família e o conjunto social. Na sociedade moderna, onde o Estado é Deus, o indivíduo é cada vez menos responsável porque a realidade apenas lhe permite sê-lo, o empurra cada vez mais para a condição de mero dependente do Estado. Para quase tudo, estudar, curar-se, obter trabalho, ter um seguro, participar e desfrutar da vida cultural, aposentar-se, ele conta com o Estado. A ideia de que esse é o destino final da evolução que vem seguindo a realidade de seu país é simplesmente intolerável para um setor importante dos EUA, para o qual a ideia do indivíduo soberano que não deve se deixar envolver nem ser instrumentalizado pelo Estado, sempre um perigo latente para sua liberdade, é um ingrediente especial de sua história.

Esse é um sentimento justo que merece ser incorporado na agenda política pois aponta para problemas reais que a cultura democrática enfrenta. Se o Estado não se descentraliza e encolhe, se não devolve à sociedade civil, aos particulares, as muitas iniciativas e serviços que lhes foi arrebatando, o resultado final será o aviltamento da democracia, sua conversão em mera aparência na qual o indivíduo deixou de ser livre e se converteu em autômato, manipulado por burocratas invisíveis e poderosos que, da sombra de seus escritórios, tomam todas as decisões importantes que dizem respeito a seu destino. Não é verdade que somente o Estado pode exercer a solidariedade com o fraco, a ajuda a quem não pode valer-se por si mesmo, responsabilizar-se pela cultura, a saúde, o trabalho dos cidadãos. Em muitíssimos casos, estes o fazem melhor e gastando menos que os burocratas. Na cultura, por exemplo, aqui, nos EUA, grande parte dos magníficos museus, as óperas e concertos, a dança, as grandes exposições, as bibliotecas públicas, é financiada principalmente pela sociedade civil. É verdade que há incentivos fiscais que alentam essa generosidade, mas a razão principal é uma tradição cultural, não de todo desaparecida, que induz os cidadãos a agir, a tomar iniciativas de investir seu dinheiro naquilo que acreditam justo e necessário. Diferentemente das outras, esta mensagem do Tea Party merece ser levada em conta. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.