As coincidências entre Kadafi e Saddam

Circunstâncias na Líbia levam a comparação com o Iraque logo após a invasão americana em 2003

John F.Burns, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

Há cerca de 20 anos, às vésperas da Guerra do Golfo, Muamar Kadafi protestou quando um repórter que o visitava o comparou a Saddam Hussein, rejeitando a sugestão de que, ao invadir o Kuwait, Saddam suplantou Kadafi como um dos principais inimigos do Ocidente no mundo árabe.

"Saddam, o vilão número 1?", Kadafi questionou incrédulo. "Não! Não! Kadafi é o número 1. Só Kadafi!" Enquanto os rebeldes abriam caminho até Tripoli, nos últimos dias, as circunstâncias levaram novamente a comparar Kadafi a Saddam.

Como o líder iraquiano em 2003, ele prometeu derrotar o inimigo às portas da capital, mas acabou descobrindo que suas defesas externas se desmantelaram sob os ataques dos rebeldes e as bombas da Otan.

Kadafi pareceu emular o ex-líder iraquiano também em outro aspecto. Em meio ao tumulto que tomava conta da capital, ele desapareceu. Enquanto os tanques americanos ocupavam o centro de Bagdá, Saddam, de pé em cima de um Passat diante de uma das principais mesquitas sunitas de Bagdá, prometeu ficar ao lado de seu povo.

Em seguida, desapareceu por oito meses, até reaparecer sob a custódia das tropas americanas que descobriram o buraco onde ele se escondia. No último discurso de Kadafi transmitido pelo rádio, ele menosprezou os rebeldes líbios, antes de também desaparecer.

No entanto, os intensos combates ao redor do complexo de comando do líder líbio, no centro de Trípoli, sugeriu outro paralelo com Saddam. Os comandantes das forças rebeldes em terra concluíram que Kadafi, depois de meses de bombardeios da Otan que destruíram quase tudo o que estava de pé no complexo, poderia ter se retirado para um enorme complexo subterrâneo debaixo das ruínas - um refúgio usado em caso extremo, semelhante àqueles que Saddam mandou construir sob seus palácios em Bagdá.

A Otan e os rebeldes, contudo, tinham de levar em conta outra possibilidade, considerando o que ocorreu em Bagdá: que Kadafi, imitando Saddam, permitisse que grande parte de sua capital fosse tomada rapidamente de acordo com um plano preliminar de retirada tática, para, em seguida, prender os rebeldes numa armadilha ou arrastá-los para um conflito prolongado, como o que evoluiu no movimento rebelde no Iraque, ainda não derrotado depois de mais de oito anos e dezenas de milhares de vítimas.

A essa possibilidade soma-se o pesadelo maior que obcecou líderes ocidentais, como o premiê britânico, David Cameron. Ou seja, tendo-se comprometido a derrubar Kadafi e fornecendo a ajuda militar crucial para cumprir a promessa, talvez tenham aberto uma caixa de Pandora de eventos ameaçadores.

Acaso a Líbia, como o Iraque, com a eliminação do seu ditador, se entregará a uma sangrenta guerra civil e fratricida? E o Ocidente, que procurou cuidadosamente limitar, pelo menos até o momento, o seu envolvimento militar a ataques aéreos, poderá ser atraído para o caos?

Cameron foi um dos líderes ocidentais que se apressou em diferenciar a rápida evolução dos acontecimentos em Trípoli da série de saques, vinganças sangrentas e violência sectária que se seguiu à invasão do Iraque. Ele disse que "os especialistas em estabilização" em Londres trabalharam durante meses com os rebeldes líbios para planejar uma transição tranquila em Trípoli.

Segundo Cameron, o futuro governo prometeu garantir que "todas as partes na Líbia compartilhem o futuro do país", significando que as tribos na parte oriental, que dominam o movimento rebelde, não punam as tribos do lado ocidental, que apoiaram Kadafi.

Os rebeldes pediram também que as instalações hospitalares, as redes de comunicação e o fornecimento de eletricidade, combustíveis e água sejam mantidos ou reparados - e também que seja apressada a entrega de outras formas de ajuda para que o país volte o mais rápido possível à normalidade.

A lista lembra uma série de normas elaboradas a partir dos erros que os críticos consideraram cruciais na experiência dos EUA no Iraque. Entretanto, alguns analistas argumentaram que, mesmo o plano de "construção de uma nação", depois da invasão de 2003 - que deveria entregar rapidamente o poder aos iraquianos, manter o Exército de Saddam intacto e garantir os empregos dos elementos leais ao Partido Baath que poderiam ajudar o governo a funcionar - não impediria o desencadear do caos.

Agora, a questão é saber se as boas intenções do Ocidente e dos líderes rebeldes bastarão para fazer frente à sede de poder na Líbia que poderá acabar com a euforia com a qual o povo recebeu as forças rebeldes e forçar o país para um futuro de lutas políticas, tribais e sectárias. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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