Uriel Sinai/The New York Times
Uriel Sinai/The New York Times

As Colinas do Golan eram uma bandeira da luta árabe; agora não mais

Guerra civil síria tornou menos importante internamente a retomada do território anexado por Israel em 1967; além disso, hoje países do Golfo estão mais interessados em parcerias com Israel contra o Irã

Ben Hubbard, New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2019 | 18h11

IRBIL, IRAQUE - Em 2010, o presidente sírio, Bashar Assad, numa carta privada, pediu ao presidente Barack Obama para patrocinar novas conversações de paz entre Síria e Israel, um sonho em termos de diplomacia de muitos presidentes americanos.

O principal obstáculo era o controle das Colinas de Golan,  planalto rochoso e estratégico na junção explosiva entre os Estados modernos da Síria, Israel, Jordânia e Líbano, que foram confiscadas por Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967.

As conversações não avançaram e em 2011 uma guerra civil irrompeu na Síria que destruiria o país e reformularia a ordem regional a tal ponto que, quando o presidente Donald Trump defendeu o reconhecimento pelos Estados Unidos da soberania de Israel sobre as Colinas do Golan, essa mudança de posição foi recebida com desdém em grande parte do mundo árabe.

Hoje os países do Golfo estão mais interessados em parcerias com Israel contra o Irã do que em defender noções abstratas de dignidade árabe, e os distúrbios e problemas econômicos deixaram muitos países árabes mais preocupados com suas próprias questões a resolver.

 

No caso da Síria, a guerra civil deixou o país tão debilitado e isolado que poucos se preocupam com o que ela deseja. 

"As Colinas do Golan sempre foram vistas como uma recompensa que Israel cederia em troca de paz com a Síria e hoje essa paz não importa mais,  a Síria não tem mais importância e talvez nem exista como proprietária legítima dessas terras", afirmou Kareem Sakka, editor chefe do site de notícias árabe Raseef22.

As Colinas de Golan constituem uma área estratégica e deslumbrantemente bela que dá a quem a controla uma vantagem militar sobre a região ao redor. O Exército sírio utilizou essa área para bombardear a Galileia e Israel a confiscou considerando-a um ativo estratégico necessário para sua própria segurança, e no processo desalojou dezenas de milhares de habitantes árabes.

Foi um golpe lancinante para os árabes, para quem a ocupação israelense foi mais um exemplo de uma ordem internacional incapaz de aplicar suas próprias regras. A Síria fez uma tentativa fracassada para retomar as Colinas na guerra de 1973, encerrada com um armistício que contou com observadores internacionais, mas deixou a maior parte do território sob o controle de Israel.

 

Em 1981, Israel anexou efetivamente o território, medida rejeitada numa resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas com base no princípio de que "a aquisição de território à força é inadmissível". "A decisão israelense de impor suas leis, jurisdição e administração sobre as Colinas de Golan da Síria ocupadas é nula e sem efeito legal internacional", estabeleceu a resolução.

Mas pouco se fez no sentido de fazer cumprir a determinação, o que foi constantemente denunciado pelo presidente Hafez Assad, pai do atual presidente. Num país onde a atividade política não autorizada é proibida, as manifestações envolvendo o Golan eram comuns e nas escolas os alunos eram ensinados a entoar slogans em favor da retomada das colinas.

Apesar disto, a área permaneceu como uma parte esquecida dos "territórios ocupados". O Sinai foi devolvido ao Egito como parte de um acordo de paz e o destino da Cisjordânia e de Gaza se tornou o foco das conversações de paz entre Israel e os palestinos.

Vários presidentes americanos tentaram reavivar as conversações de paz entre Síria e Israel, culminando com as tentativas de Obama e seu secretário de Estado John Kerry. Mas a guerra civil nesse país mudou tudo. Com todos os recursos dirigidos para derrotar os rebeldes e os grupos jihadistas, o governo sírio colocou as Colinas de Golan no fim da sua lista de prioridades. E à medida que a guerra corroía o Estado sírio, Israel criava relações com os rebeldes perto do Golan fornecendo assistência médica para alguns deles.

A brutalidade de Assad deixou-o com poucos apoios da região num assunto envolvendo a lei internacional, disse Hussein Ibish, acadêmico sênior residente no Arab Gulf States Institute em Washington. "As pessoas, quando pensam na Síria, estão mais preocupadas com a morte e o sofrimento do que com a perda oficial de algo que se foi há muito tempo", disse ele.

Mas o reconhecimento por Trump do confisco de áreas de um Estado por outro pode tornar mais difícil para os EUA reagirem quando ditadores se apoderarem ilegalmente de terras que não lhes pertence. "Os conceitos de lei e de ordem internacionais sofreram um forte golpe neste caso", disse Ibish. "Neste exato momento o que diríamos para Saddam no Kuwait? 'Não queremos vocês aqui'. Ok, com base em quê?'". / Tradução de Terezinha Martino 

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