'As comunas minam a oposição'

Por que os mercados reagiram mal ao avanço do chavismo nos Estados?

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h02

A Venezuela, do ponto de vista macroeconômico, está em posição delicada. É inevitável desvalorizar a moeda. Hoje o câmbio oficial está a 4,30 bolívares por dólar (no mercado paralelo chega a 17) e, quando for liberado, deve cair pela metade. O balanço de importações e exportações também é ruim, apesar do petróleo. A produção é de 2,7 milhões de barris, dos quais 800 mil vão para consumo interno, de graça. Outros 450 mil vão para a parceria com a China, em troca de serviços e produtos chineses. Outros 100 mil vão para Cuba, de graça. Mais 230 mil barris vão para convênios na América Central. No final, o que o governo embolsa mesmo são uns US$ 45 bilhões por ano, o que equivale ao pago pelas importações. O petróleo não dá lucro.

Há outras razões, além de ter a economia atrelada à política externa, para tanto desequilíbrio nas contas?

Os subsídios são insustentáveis. Pago US$ 5 por mês de luz em um apartamento de 130 m² e cinco pessoas morando. Encho o tanque de gasolina com menos de US$ 4 por mês (o litro sai por R$0,08, menos que uma garrafa de água e o preço mais baixo do mundo). De telefone celular são US$ 12 mensais. De internet, US$ 5. Pelo telefone fixo, pago outros US$ 5. Em contrapartida, um quilo de leite em pó custa US$ 1,50. Há um severo desabastecimento na Venezuela. Falta farinha de milho, falta frango. Se o chavismo tivesse sido derrotado (nas eleições de domingo), teria de negociar com a oposição. Agora não.

Há outras formas de subsídios?

Se você vive em uma comunidade pequena no interior de Carabobo, vai se entender diretamente com o governo central para construir uma estrada ou ponte, sem passar pela esfera estadual ou mesmo municipal.

Qual o impacto político dessa ligação direta?

O governo central distribui todo o dinheiro aos conselhos comunais, em zonas que não produzem nada. Onde não há emprego e não há possibilidade de montar uma empresa, a única saída é viver do Estado. As comunas minam a oposição, como se viu em Zulia, Carabobo e Táchira. Os governadores não recebem dinheiro e acabaram asfixiados. As comunas são uma alavanca política fortíssima.

Mesmo os governadores chavistas têm papel figurativo?

Os governadores que quiseram enfrentar o presidente Hugo Chávez e exigir recursos, se deram mal. / R.C.

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