As contradições de Mandela

Após uma luta árdua e uma presidência conciliadora, jovens sul-africanos negros enxergam falhas em seu governo

Zakes Mda, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2013 | 02h05

Eu me lembro de Nelson Mandela. Não, não o estadista ancião universalmente adorado que resistiu com sucesso à megalomania que vem com a deificação, que morreu na quinta-feira, aos 95 anos, mas o jovem advogado que costumava se sentar na minha sala de visita até altas horas da noite, debatendo o nacionalismo africano com meu pai, Ashby Peter Mda.

Em 1944, eles estavam entre os líderes que fundaram a Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (CNA). Esses jovens consideravam o CNA, que àquela altura já existia havia mais de três décadas, moribundo e ultrapassado. Sentiam que havia a necessidade de levar movimento de libertação para a luta armada. Eles eram conhecidos por tentar calar aos gritos aqueles que, ao seu ver, estavam "se vendendo" ao participarem de estruturas criadas pelo apartheid para o povo negro supostamente expressar suas aspirações políticas.

O que me chocou, mesmo então, foi que Mandela era um homem de contradições. Podia ser paternalista, especialmente conosco, crianças, mas era também rígido e disciplinado. Embora fosse o revolucionário incendiário que citava Marx e Lenin a todo momento, era também um tradicionalista cossa com tendências aristocráticas.

Por exemplo, Kaiser e George Matanzima, chefes do grupo étnico thembu, que lideraram o sistema de bantustões do apartheid em territórios separados para sul-africanos negros, não eram somente seus parentes, mas também seus amigos. Apesar de muitos acharem que os irmãos Matanzima haviam traído a causa da libertação negra, Mandela não os denunciaria cabalmente.

Talvez aqui já possamos ver a centelha de tolerância com visões contrárias pela qual ele, mais tarde, se distinguiria. É irônico que na África do Sul atual haja um segmento cada vez mais contundente de sul-africanos negros que sentem que Mandela vendeu a luta pela libertação aos interesses brancos. Isto surge como surpresa para a comunidade internacional, que informalmente o canonizou e acha que ele desfrutava de uma adoração universal em seu país.

Corrupção. Depois de Mandela ter iniciado negociações para pôr fim ao apartheid e conduzir a África do Sul a uma nova era de liberdade, com uma Constituição progressista que reconhece os direitos de todos (incluindo homossexuais, outra contradição admirável para um aristocrata africano), houve euforia no país, é claro.

No entanto, isso foi há muito tempo. Com a corrupção galopante da elite governante atual e o fato de que muito pouco mudou para a maioria das pessoas negras, a euforia foi substituída pela desilusão. A nova ordem que Mandela ajudou a criar, prossegue esse raciocínio, não mudou fundamentalmente os arranjos econômicos no país. Ela traria prosperidade, mas a distribuição dessa prosperidade pendeu a favor do establishment branco e sua nova elite negra dependente.

Hoje, os apparatchiks políticos são os novos bilionários, liderados por um presidente - Jacob Zuma - que utilizou descaradamente milhões de dólares do contribuinte para reformar sua residência privada para acomodar seu crescente harém e uma falange de filhos.

O movimento para culpar Mandela não é, de maneira nenhuma, uma grande onda, mas têm veemência suficiente para atrair atenção. Ele é liderado por ativistas individuais cujas principais plataformas são o Facebook, o Twitter e outras mídias sociais. Em seu sentido formal, por organizações como a September National Imbizo, que acredita que "a África do Sul é um país supremacista branco antinegro conduzido pelo CNA de acordo com os interesses do povo branco. Somente os negros podem se libertar".

A alegação é de que o acordo alcançado entre o CNA e o governo do apartheid branco foi uma fraude perpetrada contra o povo negro, que ainda não conseguiu recuperar as terras roubadas por brancos durante o colonialismo. O governo de Mandela, dizem os críticos, concentrou-se na cosmética da reconciliação, enquanto nada mudava materialmente nas vidas de uma maioria de sul-africanos.

Frustração. Esse movimento, embora não seja representativo da maioria dos sul-africanos negros, que ainda adora Mandela e o CNA, está ganhando força, em especial nas universidades. Eu entendo a frustração desses jovens sul-africanos e compartilho sua desilusão. Entretanto, não compartilho sua perspectiva sobre Mandela.

Vejo nele um político habilidoso cuja política de reconciliação salvou o país de um banho de sangue e trouxe um período de democracia, direitos humanos e tolerância. Eu o admiro por sua compaixão e generosidade, valores que não são geralmente associados a políticos. Também o admiro por sua integridade e lealdade.

No entanto, temo que, para Mandela, a lealdade tenha ido longe demais. A corrupção que vemos hoje não surgiu repentinamente após seu mandato presidencial. Ela criou raízes durante o seu governo. Ele foi leal a seus camaradas além da medida e, portanto, fechou os olhos para algumas de suas transgressões.

Quando ele era presidente, escrevi sobre o sistema de apadrinhamento nascente e sobre o capitalismo de compadrio. Para seu crédito, quando lhe escrevi uma longa carta enunciando minhas preocupações, ele me telefonou na mesma semana e marcou uma reunião para mim com três de seus ministros de gabinete poderosos.

Embora não houvesse saído nada de substancial da reunião, o simples fato de Mandela ter escutado atentamente as queixas de cidadãos comuns e os levado a sério o bastante para organizar uma reunião dessas, foi extraordinário para qualquer presidente.

Em anos posteriores, Mandela se tornou vítima da mesma corrupção de que eu estava reclamando. Ele estava cercado por toda espécie de personagens, amigos e parentes, alguns dos quais estavam ávidos para lucrar em seu nome. Entre eles estava seu neto, Mandla Mandela, um chefete tribal que, segundo várias reportagens, teria vendido antecipadamente a uma rede de televisão os direitos de transmissão do enterro do avô.

Mandela deixa um legado altivo de liberdade, de direitos humanos, de tolerância e de reconciliação. Infelizmente, alguns de seus compatriotas o estão espezinhando. Não posso falar em seu nome e dizer que ele sofria com o que via acontecer em seu país em seus últimos dias. Não falei com ele durante anos antes de ele morrer. Contudo, posso dizer que o Mandela que eu conhecia teria sofrido bastante. (Tradução de Celso Paciornik)

 

*É escritor e poeta sul-africano

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