As crises políticas mundiais sob a ótica de Obama

Pressionado a intervir em vários lugares, líder americano diz que medida só vale se ajudar a criar países autossustentáveis

Thomas L. Friedman/The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2014 | 02h06

Os cabelos do presidente Obama ficaram mais grisalhos nos últimos tempos, e, sem dúvida, a gestão da política externa num mundo em que a desordem é cada vez maior é a causa de pelo menos a metade da cor cinza (o Tea Party é responsável pela outra metade). Mas ao aproveitar a chance de passar uma hora percorrendo com ele o panorama internacional, na Sala dos Mapas da Casa Branca, na sexta-feira, ficou evidente que o presidente tem uma perspectiva precisa do mundo - em razão das muitas lições aprendidas nos últimos seis anos.

Obama deixou claro que só decidirá por um maior envolvimento dos EUA no Oriente Médio quando os diferentes povos daquela parte do mundo concordarem com uma política que abranja a todos, em que não haja vencedores nem vencidos. Os EUA não serão a Força Aérea dos xiitas iraquianos ou de outras facções. Além disso, advertiu que, apesar das sanções ocidentais, o presidente Vladimir Putin, da Rússia, "poderá invadir" a Ucrânia a qualquer momento. Se isso acontecer, "tentar encontrar o caminho para restabelecer um relacionamento cooperativo factível com a Rússia até o fim do mandato será muito mais difícil".

A intervenção na Líbia para impedir um massacre foi a coisa certa, afirmou Obama, mas fazê-lo sem o acompanhamento para ajudar a transição para um sistema político mais democrático é provavelmente a coisa que ele mais lamenta em sua gestão de política externa.

No fim, disse que os EUA jamais se darão conta de seu potencial se os dois partidos não adotarem o que é pedido a xiitas, sunitas e curdos ou a israelenses e palestinos: sem buscar vencedores ou vencidos, apenas colaborar para um fim comum. As terríveis divisões do Oriente Médio, disse, deveriam servir como advertência. "As sociedades não funcionam quando as facções políticas adotam posições intransigentes."

Embora atribua ao crescimento da direita republicana a impossibilidade de concluir muitos acordos potenciais, Obama admitiu também que a adoção do voto distrital para favorecer interesses partidários, a balcanização da mídia e as doações descontroladas aos políticos - a essência do sistema político americano - estão enfraquecendo, mais do que qualquer inimigo externo, a capacidade dos EUA de fazer frente aos grandes desafios. "Cada vez mais os políticos são recompensados por assumir as posições mais radicais", disse.

A situação não estaria melhor se os EUA tivessem armado os rebeldes seculares sírios mais cedo ou mantido suas tropas no Iraque? Ocorre, respondeu o presidente, que no Iraque a presença de uma tropa americana de suporte nunca teria sido necessária se a maioria xiita do país não tivesse "desperdiçado a oportunidade" de compartilhar o poder com os sunitas e os curdos. "Se a maioria xiita aproveitasse a oportunidade para estender a mão aos sunitas e aos curdos de uma maneira mais efetiva e não aprovasse uma lei como a da neutralização dos membros do Partido Baath do governo", nenhuma força militar de fora teria sido necessária.

Sobre a Síria, prosseguiu, a ideia de que armar os rebeldes teria representado uma considerável diferença "sempre foi uma fantasia". "A ideia de fornecer armamentos leves ou mesmo mais sofisticados a uma oposição constituída essencialmente por ex-médicos, agricultores, farmacêuticos e assim por diante - e a de que eles poderiam combater não só um Estado muito bem armado, mas armado pela Rússia, apoiado pelo Irã e pelo Hezbollah calejado em tantas batalhas - nunca esteve nos planos."

Mesmo agora, disse o presidente, o governo tem dificuldade para encontrar, treinar e armar um quadro suficiente de rebeldes sírios seculares: "Não existe tanta capacidade quanto se poderia esperar". "Temos agora uma minoria sunita frustrada no Iraque, uma maioria no caso da Síria, que se estende essencialmente de Bagdá a Damasco. A não ser que nós lhes forneçamos uma fórmula que contemple as aspirações dessa população, teremos inevitavelmente problemas. Houve um período em que a maioria xiita no Iraque não compreendeu plenamente isso. Ela começa a compreender agora." O Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil), para Obama, ainda tem pouco apelo para os sunitas comuns. "(O grupo) está preenchendo um vazio e a questão para nós deve ser não apenas como fazer frente militarmente a eles, mas como estabelecer um diálogo com uma maioria sunita naquela região, que está fora da economia global."

O Irã estaria sendo útil? "Acho que o que os iranianos fizeram foi finalmente perceber que uma posição intransigente dos xiitas no Iraque, no longo prazo, deverá fracassar. Os poucos países que estão indo bem, como a Tunísia, como falei antes, conseguiram isso porque suas facções adotaram o princípio 'sem vencedores nem vencidos'. Uma vez feito isso, não precisaram de ajuda externa."

"Não podemos fazer por eles o que eles não estão dispostos a fazer por si", afirmou o presidente a respeito das facções no Iraque. "Nossas Forças Armadas são extremamente capazes e quando utilizamos tudo o que já utilizamos com essa finalidade podemos controlar um problema por algum tempo. Mas, para que uma sociedade funcione no longo prazo, o próprio povo precisa decidir como pretende conviver em comunidade, como harmonizará interesses recíprocos, como tentará chegar a um compromisso. No caso de questões como a corrupção, o povo e os seus líderes precisam assumir a responsabilidade de mudar essas culturas. Nós podemos ajudá-los e acompanhá-los em cada passo do caminho. Mas não podemos fazê-lo em vez deles."

Perguntei sobre sua decisão de usar a força militar para proteger os refugiados do Isil e o Curdistão, que é uma ilha de probidade no Iraque. "Quando há uma única circunstância em que existe a ameaça de genocídio e um país está disposto a aceitar a nossa presença, deve haver um forte consenso internacional quanto ao fato de que esse povo precisa ser protegido. Nós temos a capacidade de fazê-lo, então, temos a obrigação de fazê-lo", disse o presidente.

Mas considerando a ilha de honestidade construída pelos curdos é preciso se perguntar, acrescentou, não apenas "como rechaçar o Isil, mas também como preservar o espaço para impulsos tão positivos no Iraque".

"Acho que os curdos usaram o tempo que lhes foi concedido pelo sacrifício das nossas tropas no Iraque", acrescentou Obama.

"A região curda hoje funciona como gostaríamos que funcionasse. É tolerante com as outras seitas e as outras religiões como gostaríamos que ocorresse em outros lugares. Portanto, achamos que é importante ter a certeza de que aquele espaço seja protegido, mas, num sentido mais amplo, como falei, não quero ser a Força Aérea dos iraquianos. Nem quero ser a Força Aérea curda, se não houver um compromisso dessas comunidades de colaborar mutuamente."

E prosseguiu: "A razão de não realizarmos imediatamente uma série de ataques aéreos em todo o Iraque assim que o Isil entrou em cena foi porque isso diminuiria a pressão sobre o primeiro-ministro Nuri al-Maliki". Segundo o presidente, isso teria encorajado Maliki e os outros xiitas a pensar: "Não precisamos de nenhum acordo. Não precisamos tomar nenhuma decisão. Não precisamos fazer um difícil processo para descobrir o que fizemos de errado no passado. O que precisamos fazer é deixar os americanos nos salvarem mais uma vez. E assim poderemos continuar com os nossos negócios como sempre".

O presidente disse que está tentando fazer com que cada facção no Iraque compreenda o seguinte: "Temos de fato um interesse estratégico em repelir o Isil. Não deixaremos que crie um califado na Síria e no Iraque. Mas só poderemos fazer isso se tivermos a certeza de contar com parceiros no país capazes de preencher o vazio. Portanto, se procurarmos nos aproximar das tribos sunitas, se procurarmos nos aproximar de governadores e líderes locais, eles terão de entender que estão lutando por alguma coisa". De outro modo, concluiu, "poderemos rechaçar o Isil por algum tempo, mas assim que os nossos aviões forem embora ele voltará imediatamente".

Perguntei ao presidente se ele estava preocupado com Israel. "É impressionante ver o que Israel se tornou nas últimas décadas", respondeu. "O fato de ter sido possível arrancar da pedra esse país incrivelmente vibrante, bem-sucedido, rico e poderoso é a confirmação da capacidade, da energia e da visão do povo judeu. E como Israel é tão capaz do ponto de vista militar, não me preocupo com a sobrevivência de Israel. Acho que a questão é como Israel sobrevive. E como será possível criar um Estado palestino que mantenha suas tradições cívicas e democráticas? Como será possível preservar um Estado judeu que também reflita os principais valores dos seus fundadores? Para tanto, tem sido constante minha convicção de que eles precisarão encontrar uma maneira de conviver lado a lado em paz com os palestinos. Precisarão reconhecer que eles têm reivindicações legítimas e essa é também a terra e o lar deles".

Questionado se deveria ser mais enérgico e pressionar o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Bibi Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, para que concluam um acordo de paz em troca de territórios, o presidente disse que isso terá de vir deles. "Os números da aprovação do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu nas pesquisas de opinião são muito superiores aos meus" e "cresceram consideravelmente com a guerra em Gaza", disse Obama. "Se ele não sofrer nenhuma pressão interna, dificilmente ele concluirá acordos muito complexos, até mesmo a respeito dos assentamentos. É uma tarefa muito difícil. Com respeito a Abbas, o problema é ligeiramente diferente. De certa forma, Bibi é forte demais em certos aspectos e Abbas é fraco demais para que eles possam se entender e tomar as decisões ousadas que Anwar Sadat ou Menachem Begin se dispuseram a fazer. Será necessário um forte líder tanto entre os palestinos quanto entre os israelenses para olhar além do curto prazo. E essa é a coisa mais árdua para os políticos: adotar uma visão de longo prazo."

Evidentemente, muitas atitudes do presidente sobre o Iraque são produto do tumulto desencadeado na Líbia pela decisão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de derrubar o coronel Muamar Kadafi sem que houvesse a preocupação de organizar subsequentemente uma assistência internacional adequada no país.

Trate-se de voltar ao Iraque ou entrar na Síria, a questão à qual Obama sempre retorna é: "Poderei contar com os parceiros - locais e/ou internacionais - para conseguir melhorias que nos permitam produzir algo autossustentável?"

"Vou lhe dar o exemplo de uma lição que tive de aprender e cujas consequências são sentidas até hoje: nossa participação na coalizão que derrubou Kadafi na Líbia. Se não interviéssemos, provavelmente a Líbia de então se tornaria uma Síria. E assim teríamos mais mortes, mais destruição, mais caos. Mas acho que nós e os parceiros europeus subestimamos a necessidade de entrar com força total. Então chega o dia seguinte, depois da saída de Kadafi, quando todo mundo se sente realizado e todos levantam cartazes dizendo: 'Obrigado, EUA'. Naquele momento, é preciso empreender um esforço muito mais agressivo para reconstruir sociedades que não têm nenhuma tradição cívica. É uma lição que agora tenho em mente todas as vezes em que faço a pergunta: 'Deveríamos intervir de fato militarmente?' Não teremos uma resposta para o dia seguinte." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Thomas L. Friedman é colunista.

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