As desconfianças sobre Ramos Allup

Há dez anos, um diplomata americano qualificava presidente da Assembleia venezuelana de ‘arrogante’ e ‘repulsivo’

Franco Ordonez, MCT, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2016 | 06h59

Podemos afirmar com certeza que, se Henry Ramos Allup fosse escolhido para presidir a Assembleia Nacional da Venezuela há dez anos, os Estados Unidos se preocupariam.

Em 2006, um diplomata americano em Caracas qualificou Henry Ramos Allup como uma figura “sem imaginação, arrogante e até repulsiva”, de acordo com um telegrama do Departamento de Estado entre os milhares levados a público pelo WikiLeaks.

Em outros telegramas divulgados pelo website, autoridades americanas criticavam a falta de visão política da oposição. Acusavam os líderes de não oferecerem uma alternativa confiável à liderança socialista do então presidente Hugo Chávez e também de reprimirem novos líderes contrários a Chávez. E execravam Ramos Allup pela péssima decisão de boicotar as eleições, segundo achavam. Elogiavam membros jovens da oposição como Leopoldo López, considerado um político “carismático e articulado” que, esperavam, se tornaria um dos principais líderes da oposição.

Uma década depois e López, ex-prefeito de Chacao – distrito de Caracas – muito popular, está preso, e Ramos Allup, de 72 anos, é escolhido para presidir a primeira Assembleia Nacional dominada pela oposição depois de 16 anos. Ramos Allup obteve 62 votos, derrotando seu rival mais próximo, Julio Borges.

Cabe a ele formar uma coalizão de oposição, que deverá encontrar maneiras de reverter muitas das medidas adotadas por Chávez, mesmo com o presidente Nicolás Maduro prometendo que não cederá.

O governo americano ainda considera Ramos uma péssima escolha?

O ex-embaixador dos Estados Unidos Patrick Duddy, que trabalhou em Caracas de 2007 a 2010, depois de o telegrama sobre Ramos Allup ter sido escrito, nunca se referiu diretamente às mensagens confidenciais.

Mas afirmou que muita coisa havia mudado desde o período em que os grupos de oposição eram mais conhecidos por suas divergências e o diplomata não identificado havia feito sua cáustica avaliação.

“Reflita sobre o que eles têm suportado e entretanto se mantêm unidos”, disse Duddy, que é um conferencista visitante na Duke University, referindo-se à oposição venezuelana. Apesar de reconhecer que Ramos Allup “é uma figura polêmica”, em razão de seu papel como líder da Ação Democrática, partido político cuja liderança corrupta e incompetente é responsabilizada por dar a Chávez abertura para assumir o poder, a sua eleição como presidente da Assembleia Nacional foi “muito boa”.

“Obviamente, para algumas pessoas ele é uma figura polêmica em grande parte por sua ligação com a Ação Democrática e os partidos tradicionais”, disse Duddy. “Mas a eleição foi ordenada e os resultados foram comemorados por todos os elementos da oposição.”

Ramos Allup rapidamente iniciou uma disputa com o governo e irritou os parlamentares fiéis a Maduro, ao ordenar a remoção de retratos de Chávez do prédio da Assembleia. Um vídeo mostrou Ramos Allup instruindo os operários a removerem as imagens. “Este lugar não é um cemitério”, disse ele.

Anteriormente, sua busca de liderança política provocou um boicote da oposição das eleições legislativas de 2005. Em consequência, os partidários de Chávez ficaram com todas as 167 cadeiras da Assembleia Nacional.

Há dúvidas sobre se Ramos Allup conseguirá manter os 112 deputados de oposição unidos.

Durante recente viagem a Washington, o ex-presidente colombiano Andrés Pastrana declarou que esta é uma preocupação de muitos líderes latino-americanos:

“Fora da Venezuela, as pessoas acham que a oposição não está unida”, disse Pastrana.

Funcionários do Departamento de Estado americano não se manifestaram sobre os telegramas vazados. O porta-voz Joseph Crook disse que as comunicações entre o pessoal que elabora os relatórios e Washington permitem aos responsáveis políticos ter uma ampla compreensão de todos os fatores em jogo quando tomam decisões e não refletem necessariamente a política oficial”.

“Os relatórios com frequência são simples e fora de contexto”, disse Crook. “A análise expressa em telegramas pode também ser fora de contexto ou ser a opinião particular de quem elaborou o relatório, e essas opiniões nem sempre são compartilhadas pelas autoridades políticas.”

Nos telegramas, que remontam a uma década, diplomatas americanos criticavam Ramos Allup e outros líderes da oposição por não conseguirem seduzir os eleitores venezuelanos, empenhados mais na busca de ajuda da comunidade internacional, solicitando dinheiro e favores da embaixada dos Estados Unidos.

“Ramos Allup é arrogante e sem imaginação”, escreveu um diplomata americano em telegrama datado de 17 de abril de 2006, classificado como confidencial pelo então conselheiro político Mark Wells, que hoje chefia o escritório do Departamento de Estado em Cuba. “Ele confia nos seus louros cada vez mais obsoletos como dirigente do maior partido de oposição, título que cita repetidamente.”

Em outro telegrama diplomatas afirmavam que estava na hora de as bases reterem seu poder de modo que novos líderes surgissem, sobrepujando “os dinossauros da liderança de oposição”. E observavam como Leopoldo López, então com 35 anos, se distinguira como prefeito, sua popularidade e seu carisma e suas habilidades, vencendo três eleições em Caracas.

“Hoje ele é considerado uma das maiores esperanças no futuro”, um diplomata escreveu em um telegrama de 2006.

O fato de a coalizão de oposição, Mesa da Unidade Democrática (MUD), conseguir se unir e conquistar a maioria absoluta de assentos na Assembleia é importante, considerando a longa história do grupo de disputas internas e falta de coesão. Cerca de dez partidos formam a coalizão e nunca entraram em acordo no tocante a uma estratégia de longo prazo, além da sua oposição ao chavismo.

Os EUA gostariam que a oposição tivesse êxito, mas segundo Duddy os líderes americanos precisavam ter o cuidado de “não só nutrir, mas também insistir na governança democrática”.

“Quando os Estados Unidos atuam unilateralmente, isso pode galvanizar a oposição contra nós”, disse Duddy.

Segundo Javier Corrales, professor de ciências políticas no Amherst College, a capacidade da oposição de se manter unida depende dos assuntos que decidirá atacar. A situação econômica do país é extremamente difícil e divisões devem surgir quando a oposição começar a debater medidas econômicas delicadas.

Os lideres oposicionistas já estão expressando opiniões diferentes quanto a se a Assembleia deve insistir ou não na destituição de Maduro. Mas para Corrales ele pode ser uma força potencial que ajudará a oposição a permanecer unida.

“Quanto mais Maduro pender para a esquerda e tratar a oposição de uma maneira repulsiva, maiores as chances de ela continuar unida”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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