BERTRAND GUAY / AFP
BERTRAND GUAY / AFP

As dimensões do incêndio na catedral de Notre-Dame

Especialistas avaliam os impactos da tragédia na catedral mais famosa de Paris e sua influência na arquitetura, arte, comportamento e turismo

João Ker, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2019 | 07h00

O incêndio da catedral de Notre-Dame, em Paris, na última segunda-feira, 15, destruiu um dos maiores símbolos arquitetônicos da França e um marco da arquitetura gótica mundial. Mesmo após o presidente Emmanuel Macron confirmar que o prédio será reconstruído pelos próximos cinco anos e as doações milionárias da sociedade civil, dificilmente o resultado obtido pela reconstrução será idêntico ao original, erguido ainda no século 11.

“Realmente, foi um choque para todos os parisienses, para toda a França e para todos os milhões de turistas vindos do mundo inteiro, que se depararam com essa catástrofe”, avalia Alain Bourdon, conselheiro de cooperação e ação cultural do consulado francês em São Paulo.

Bourdon explica que o processo de renovação da catedral pode demorar mais do que o previsto, já que a mão de obra para os reparos é mais complicada que o normal. “Pelas técnicas necessárias e porque não há tantos obreiros capazes de fazer esse trabalho. São poucos artesãos especializados em carpintaria desse tipo, é uma técnica muito complicada”, afirma.

Entenda abaixo, a partir da avaliação de especialistas, as diferentes dimensões da tragédia em Paris.

Recontrução só recuperará aparência

Notre-Dame começou a ser erguida em 1163 e só foi terminada em 1345, tornando-se a primeira construção gótica da França. "Essa é uma perda muito grande e, em muitos sentidos, irreparável”, lamenta José Eduardo Lefevre, professor de história da arquitetura na Universidade de São Paulo.

Ele explica que, por mais refinadas que sejam as técnicas de reconstrução, é praticamente impossível obter um resultado idêntico ao original. “O irreversível em uma obra como essa é a matéria, que foi colocada em 1.200 ou até na metade do século 19, o que também já configura pelo menos 150 anos de existência. Tudo aquilo que é de pedra foi atingido, caiu, quebrou e partiu. Se for reposto, será com material e técnicas de hoje”, observa.

Vitrais, pedras, esculturas e estruturas de madeira estão entre os principais materiais danificados pelo fogo. “Só o desmonte do telhado já proporciona esse aquecimento que, combinado com o resfriamento feito por água, gera um efeito negativo para a pedra e leva à sua ruptura”, analisa o professor, citando também a pátina criada nas paredes pela passagem do tempo como outro bem irreparável. “A pedra, o metal, o vidro... São coisas impossíveis de serem replicadas.”

Cauê Alves, coordenador do curso de artes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), faz eco às preocupações de Lefevre: “É inegável o valor dos vitrais e das esculturas, com uma história de mais de 800 anos que é inestimável. Ainda mais naquele lugar, onde arquitetura e arte não se separava. Por mais que dê para reconstruir algumas coisas, o histórico das peças jamais poderá ser recuperado”.

A simbologia de Notre-Dame

Para além de seu valor artístico e arquitetônico, Lefevre destaca que a catedral representa um episódio de expansão do domínio francês no século 12. “A igreja coincide com um fortalecimento da monarquia francesa, que à época tinha um território equivalente a um décimo do seu atual. A construção de Notre-Dame e da Saint-Denis fazia parte de um projeto político de fortalecimento daquela monarquia”, observa.

Localizada na Ilha da Cidade, a catedral é rodeada pelo Rio Sena e, como aponta Alain Bourdon, um dos cartões postais mais conhecidos e iconográficos da capital francesa: “Além de ser um símbolo católico de valor para todos os cristãos, Notre-Dame é muito importante na França como um símbolo muito forte da cidade de Paris. Ela recebe mais de 13 milhões de turistas por ano, é a mesma proporção da Torre Eiffel ou do Arco do Triunfo”.

Bourdon destaca também que Notre-Dame tem sido palco de importantes episódios da história francesa desde a Idade Média, servindo inclusive como local de celebração para a Liberação de Paris, em 1944. “A (destruição da) catedral de Paris é como a catástrofe que os brasileiros sofreram no ano passado com o Museu Nacional, é uma parte da nossa história e do nosso imaginário coletivo, nutrido por tantas pessoas, que foi perdida.”

Doações e solidariedade para Notre-Dame

“Todos nós estávamos muito preocupados em saber se algo iria permanecer desse prédio tão importante”, avalia Bourdon. “O momento de solidariedade foi muito interessante, assim como as muitas doações de pessoas privadas. Isso realmente mostra todo o apreço que o povo francês tem por essa catedral.”

Para o Padre Tarcísio Mesquita, da Paróquia Nossa Sra. do Bom Parto, o episódio, além de marcar a história recente do cristianismo, também serve como exemplo da compaixão do ser humano: “É uma tristeza, porque não é só uma igreja, é um pedaço da história e não só do cristianismo, mas de um povo e de uma nação. O que observei de bonito foi o povo se unir em uma dor. Esse susto no mundo inteiro, de algo tão importante, é certamente lindo”.  

Ele, que já participou de uma missa na própria catedral de Notre-Dame, em 1989, durante a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa, vê no episódio uma oportunidade de a comunidade católica se reconectar com sua fé e com a igreja: “Acredito que pode criar uma reaproximação dos católicos franceses que estejam mais afastados do catolicismo”.

Mesquita torce para que o exemplo de união da França se reflita no Brasil: “Assim como nos sensibilizamos lá, também precisamos entender que, no Brasil, devemos olhar com compaixão e preocupação as queimadas na Amazônia. Da mesma forma que Notre-Dame não era só dos católicos, mas sim da humanidade, a Floresta Amazônica também é um patrimônio de todos”.

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