Ed Jones / AP
Ed Jones / AP
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As duas Coreias

Uma parte essencial do sucesso da Coreia do Sul está no investimento na educação

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 03h00

Na coluna de domingo passado, comparei as trajetórias econômicas e políticas das Coreias do Norte e do Sul, onde passei duas semanas pela segunda vez em um ano. Hoje vou estender a comparação a outros aspectos, com o objetivo de medir a importância da cultura nos rumos tomados pelos países. Na esfera moral, as duas sociedades têm uma mescla de traços conservadores e liberais. Na Coreia do Norte, sexo antes do casamento, homossexualidade e drogas são considerados “impossíveis”. No entanto, o aborto é legal. 

Como no Brasil, o sexo é livre na Coreia do Sul, mas o aborto só é permitido em casos de riscos para a mãe, estupro ou feto sem cérebro. Entretanto, a Corte Suprema considerou a proibição inconstitucional e deu prazo para a Assembleia Nacional votar uma lei a respeito até o ano que vem. As igrejas católica e protestante, bastante influentes na Coreia do Sul, impõem resistências à descriminalização do aborto. Na Coreia do Norte, a religião deu lugar ao culto à dinastia Kim.

Nessas questões morais, assim como nos hábitos e crenças econômicas e políticas, grande parte da explicação para essas discrepâncias está na influência dos EUA, no caso sul-coreano, e da antiga União Soviética e, posteriormente, da China, sobre os norte-coreanos. O direito ao aborto, assim como o controle de natalidade, sempre fizeram parte das políticas de Estado nos regimes comunistas. Ao mesmo tempo em que eles congelavam ou até retrocediam nos dogmas morais. 

Em contrapartida, nos sistemas liberais, as políticas em relação ao aborto variam de acordo com os preceitos religiosos e o grau de influência que eles exercem sobre os governos. A Polônia, país bastante católico, voltou atrás com relação ao aborto depois que saiu da esfera soviética. Já países protestantes, como Reino Unido e Alemanha, e católicos avançados, como França, Itália, Espanha e Portugal, nos quais o estado de bem-estar social baseia as políticas de saúde pública no conceito de cidadania, o aborto é visto como um direito. 

Uma parte essencial do sucesso da Coreia do Sul está no investimento na educação. Entretanto, o país já percebeu que exagerou na pressão sobre os estudantes, depois de viver uma epidemia de estresse e ansiedade, com altos índices de depressão e até suicídios. 

A Secretaria de Educação da região metropolitana de Seul criou o slogan “Educação inovadora futura para a felicidade de todos”. Diminuiu a carga horária das aulas, aumentou as horas para lazer, esportes e arte, e mudou a arquitetura das escolas, para serem espaços mais agradáveis, abertos e lúdicos. 

É um exemplo de mudança cultural na forma de ver algo que é central na estratégia de desenvolvimento do país. O interessante é que na rede de ensino da Coreia do Norte também há uma forte ênfase na música, dança, esportes, apresentações sincronizadas e acrobacias como atividades complementares. A valorização dessas artes encontra ressonância na cultura tradicional coreana. 

Outra coincidência é que não há furtos, assaltos nem outros tipos de violência urbana nas duas Coreias. Em ambas, a desigualdade é relativamente pequena. É muito pouco visível. A Coreia do Sul gerou, nas últimas décadas, prosperidade sem aumentar a desigualdade social. A Coreia do Norte tem um sistema de castas, com uma pequena elite em torno do regime, uma espécie de classe média urbana, e os pobres do campo. 

O confucionismo, que serviu de religião e de filosofia de vida, incutiu nos coreanos uma forte ética do trabalho, um traço cultural que acabou tendo expressões diferentes nas duas Coreias, de acordo com os seus sistemas econômicos. Não temos isso na nossa cultura. Mas reformas e políticas públicas podem influir na cultura.

Correção: ao contrário do que afirmei na coluna anterior, a Coreia do Sul não faz parte da Parceria Trans-Pacífico. Peço desculpas.

Leia outras colunas de Lourival Sant'Anna

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.