As duas faces de Guantánamo

Começa a primeira manhã de maio e o sol ainda não queima tanto. Encapuzado, camisa e calças alaranjadas, um jovem tenta desfilar na Praça da Revolução, em Havana, durante a comemoração do Dia Internacional dos Trabalhadores. Tanto a indumentária quanto o cartaz que carrega são um protesto espontâneo pelos presos que o governo dos EUA mantém na base de Guantánamo.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Sua passagem diante da tribuna dura apenas alguns segundos, até que homens musculosos o descobrem e o empurram para fora da maré humana. Não há espaço para o livre arbítrio nessas coreografias populares amplamente programadas. Apenas algumas dezenas de pessoas e a lente indiscreta de uma câmera captam o momento da detenção. O calor já é agonizante e faltam poucas horas para a divulgação da morte de Osama bin Laden.

A zona militar que os EUA possuem no sul de Cuba, também conhecida como Gitmo, é o cenário de numerosos dramas humanos que se sucedem de ambos os lados dos limites demarcados - e impostos contra a vontade popular - desde a longínqua Emenda Platt.

Revelações do WikiLeaks evidenciam o elevado número de presos que poderiam ser inocentes. Motoristas, granjeiros e até cozinheiros capturados no Afeganistão tiveram de esperar anos para que sua identidade fosse esclarecida e pudessem voltar para casa.

Quem sabe alguns conseguiam enxergar de sua cela os limites da base onde estavam reclusos, ver os perenes sentinelas que vigiam a demarcação e imaginar que, se conseguisse burlá-los, encontrariam a liberdade do outro lado.

Mera ilusão, pois Raúl Castro declarou em 2002 que se um preso escapar para o interior do país, será devolvido imediatamente às tropas americanas. "Se sobrar alguma coisa", acrescentou com sarcasmo, referindo-se aos campos minados que o governo se nega a desativar.

A pequena fatia do Oriente de Cuba é uma das zonas mais minadas do mundo, e não apenas do ponto de vista ideológico. No município de Caimanera, as pessoas vivem a poucos metros de uma fronteira pontilhada de explosivos. Uma perigosa franja de morte que contradiz a Convenção de Ottawa, de 1997, que proíbe o uso, armazenamento e transporte dessas perigosas armadilhas que mutilam corpos.

Há apenas uma semana, um jovem de 16 anos e seu irmão brincavam com um objeto que haviam encontrado perto da escola, na aldeia de Boquerón. Começaram a chutá-lo e, então, se ouviu um estrondo: um foi parar no hospital e o outro, no cemitério. A imprensa oficial não disse nada a respeito e a família guardou silêncio temendo represálias. "Mais vítimas da divisão de Guantánamo", pensaram os que cresceram entre as tentativas de escapar.

Apesar dos enormes perigos, não são apenas os que foram acusados de vínculos com a Al-Qaeda que sonham em pular o alambrado. Os guantanameros têm vontade de conhecer essa cidade erguida pelos yumas (americanos), que, embora esteja tão perto deles, nunca puderam visitar. Uma pequena urbe onde se fala inglês, há um centro comercial, vários restaurantes e dois cinemas ao ar livre.

O sigilo da zona militar alimenta as manchetes dos jornais de outras partes do mundo, enquanto a possibilidade de emigrar para lá cativa os cubanos que vivem do lado de cá. O risco é enorme, mas nem por isso deixam de tentar chegar na base onde tremula a bandeira estrelada, exatamente no lugar onde se estendiam os acampamentos improvisados que abrigaram milhares de balseiros cubanos, após a explosão migratória de 1994. Agora, a maioria dos que tentam a travessia por terra morre no campo minado e os poucos que conseguem chegar são devolvidos imediatamente a Cuba.

Nem sempre os muros e os limites separam a diferença. Às vezes, traçam simplesmente uma linha divisória entre iguais, entre realidades ou indivíduos que se assemelham em seus sonhos e seus problemas. É o caso desse perímetro definido por um tratado de mais de cem anos, da fronteira ao redor da qual habita o desejo humano de escapar para o desconhecido.

Alguns vestem uniformes alaranjados, cumprem longas penas e são mencionados com frequência na imprensa estrangeira. Outros arrastam a monotonia de suas vidas, a escassez, a frustração que os leva a arriscar tudo para chegar à Guantánamo que imaginam, mas desconhecem. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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