Adam Dean/The New York Times
Adam Dean/The New York Times

As duas gerações de excluídos de Mianmar

Maior campo de refugiados do mundo, Kutupalong - com mais de 600 mil pessoas - é uma prisão para os rohingyas

Roberto Saraiva, Especial Para o Estado / Kutupalong, Bangladesh, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 05h00

KUTUPALONG, BANGLADESH - Anser Ulla tem 21 anos. Ele é rohingya, etnia muçulmana perseguida pelos budistas de Mianmar. Ulla nasceu no campo de refugiados de Kutupalong, o maior do mundo, com 600 mil pessoas, de onde nunca saiu. De camisa xadrez, calça jeans e chinelo, com cabelo besuntado de gel e óleo de coco, ele tira do bolso uma carta escrita à mão para o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), na qual apresenta suas exigências para voltar a Mianmar, país que nunca conheceu, apesar de a fronteira estar a menos de uma hora dali.

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O martírio dos rohingyas é tão antigo quanto a independência da Índia, nos anos 40. O Império Britânico, nesta parte do mundo, era uma costura mal feita entre hinduístas, muçulmanos e budistas. Bangladesh surgiu como Paquistão Oriental, em 1947. Mianmar apareceu no mapa como Birmânia, no ano seguinte. A fronteira entre os dois novos países, no entanto, ignorou a questão religiosa, e uma minoria muçulmana - os rohingyas - ficou enclausurada no norte do território birmanês.

A repressão do governo birmanês contra muçulmanos vem em ondas. A última foi nos anos 90, quando 250 mil rohingyas fugiram da Birmânia - rebatizada de Mianmar em 1989 - para o sul de Bangladesh. Eles foram instalados em campos de refugiados, como Kutupalong. Anser Ulla é parte dessa geração que nunca soube o que é a vida fora dali. “Sei que lá (em Mianmar) nos chamam de bengali. Aqui, de burmea. A verdade é que não podemos ser nem um nem o outro”, diz. Seus pais eram agricultores e escaparam em 1991 entre 250 mil rohingyas de trabalho forçado, perseguição religiosa e estupros. O jovem nasceu seis anos depois e tem seis irmãos.

A última ofensiva militar contra os rohingyas começou em agosto de 2017 e deixou 7 mil mortos. O estopim foi um ataque de milicianos rohingyas que matou 12 soldados birmaneses. A resposta do Exército de Mianmar foi a expulsão de 688 mil refugiados para o vizinho Bangladesh. A maioria foi acomodada em Kutupalong, onde já se apertavam 113 mil pessoas. Bangladesh tem recebido os fugitivos, mas não oferece caminho para naturalização e dificulta sua assimilação. Rohingyas não podem trabalhar, estudar, casar com locais ou mesmo se locomover livremente. “A comida que nos dão não é suficiente, mas a gente se acostuma”, conta Rahim Ulla, de 20 anos - que não é parente de Anser.

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Babel

Boa parte dos jovens rohingya de cerca de 20 anos que nasceram em Kutupalong arriscam um inglês limitado, mas suficiente para se voluntariar nas ONGs do entorno. A ajuda de custo paga pelas entidades ajuda a driblar a proibição ao trabalho.

Porém essa não é a única língua necessária nos acampamentos. O Bangla é usado para se comunicar com a população local, burmês é importante para manter viva a chance de repatriação para Mianmar e rohingyan é vital para preservar a memória e a identidade do povo. Mas não há entre governo e ONGs um consenso sobre quais deveriam ser ensinadas nas escolas.

Bangladesh restringe a educação ao Fundamental e não oferece nenhuma certificação, impossibilitando o acesso ao Ensino Médio e ao Superior. Então a tarefa de ensinar matérias mais complexas a alunos mais velho recai sobre professores particulares como Abul Kalam Azad, de 31 anos, também vítima da perseguição de 1991.

Ele está no acampamento desde os 5 anos. Aos 14, por conta da falta refugiados capacitados, tornou-se voluntário de programas educacionais capitaneados pela UNHCR, a agência da ONU para refugiados. Desde então não parou mais de estudar, sob tutela da organização, e de ensinar.

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“Eu gosto, virou minha paixão. É uma profissão fascinante, mesmo recebendo só 5 mil takas R$ 200) por mês”, conta entusiasmado. As aulas particulares custam 200 takas por mês (R$ 4) e ele já teve cerca de 8 mil alunos no total. 

O caos linguístico que complica ainda mais a vida dos rohingya é parte do seu dia a dia: “se estudarmos só bangla nunca seremos reconhecidos como cidadãos de Mianmar, por isso precisamos manter o burmês vivo. Por outro lado, nas partes mais novas de Kutupalong, o ensino de bangla foi banido porque o governo não quer que nos sintamos cidadãos daqui também”, afirma.

Abdul ensina todos esses idiomas, além de urdu, mas é uma das poucas referências quando o assunto é rohingyan. Paradoxalmente, a língua mais falada nos acampamentos de Bangladesh é negligenciada quando o assunto é o ensino formal. “Primeiro precisamos espalhar o básico, ler e escrever, e depois lutar para que ela faça parte do currículo”, afirma.

Ao menos nessa frente, os refugiados têm alguns aliados. O Comitê de Desenvolvimento do idioma rohingyan, bancado por países árabes como Arábia Saudita, faz doações regulares de material didático para os acampamentos.

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Novo cenário

Quem chegou encontrou paz. Mas, para quem já vivia no acampamento, a vida piorou. A velha Kutupalong, chamada de Campo Registrado, tem casas de barro, vias de tijolo, escolas e postos de saúde. A nova é um mar de barracos de plástico e de bambu, ruas enlameadas e esgoto a céu aberto, misturado com lixo e restos de comida. Em comum, a falta de encanamento e de energia elétrica. O tipo de ajuda também é diferente. Os novos refugiados são sustentados pela ONU e por centenas de ONGs. Os antigos recebem um auxílio minguado do governo de Bangladesh e apoio pontual da ONU: 21 takas (cerca de R$ 0,82) por dia por cabeça para comer.

Se os novos refugiados sentem alívio, os velhos sentem saudades. Até os mais jovens, que nunca pisaram em Mianmar, consideram o país a terra natal de todos. No entanto, ninguém está disposto a trocar a segurança vigiada de Kutupalong pela violência do Estado vizinho. “Eu era muito feliz em Mianmar quando não havia um governo budista. Agora, a situação ficou difícil. Aqui, vivemos em paz e nos sentimos seguros”, diz Korimullah Aslam, de 45 anos, refugiado da leva mais antiga.

Korimullah passou mais da metade da vida em Kutupalong. Tornou-se adulto, conheceu sua mulher, 13 anos mais nova, e teve quatro filhos no campo de refugiados. “Quando cheguei aqui, achei horrível. Depois de 26 anos, me sinto feliz. Mas, se vivesse dentro de um buraco por tanto tempo, é possível que também me sentisse assim.” Uma vez, ele tentou trabalhar em uma fábrica de sal, mas foi preso em apenas três dias. “Quero trabalhar, mas não consigo, porque não tenho cidadania.”

A carta de Anser Ulla foi entregue em julho ao alto comissário do Acnur, Filippo Grandi. Desde então, Anser carrega uma cópia na carteira. “É para o caso de alguém me perguntar por que não quero voltar para Mianmar sem contrapartidas. Não quero esquecer os motivos”, disse. Na lista de desejos estão o direito a cidadania, segurança, liberdade religiosa e de movimento, acesso a educação, tratamento digno e devolução dos bens apreendidos pelo regime birmanês. Na conclusão, a assinatura: “refugiado genérico”. 

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