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Gilles Lapouge
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As duas Inglaterras

A Inglaterra escolhe hoje seus deputados. O premiê David Cameron, conservador, alardeia os excelentes resultados econômicos de sua gestão. E com razão. Vários líderes europeus, por exemplo, François Hollande, adorariam exibir resultados como estes: em cinco anos, a taxa de desemprego caiu para 5,7% e o crescimento anual é de 2,4%.

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2015 | 03h00

Mas a prosperidade é ambígua. Atualmente, existem duas Inglaterras (e indubitavelmente, mais de duas). Ao longo dos últimos anos, sempre que eram criados 12 empregos no sul, um emprego desaparecia no norte. Em 2015, uma criança nascida nos bairros chiques de Londres tem uma expectativa de vida 18 anos maior do que uma criança nascida nas cidades devastadas do norte da Inglaterra.

Calcula-se que, entre 2010 e 2013, havia mais guindastes em operação em Londres do que em todo o restante da Grã-Bretanha. Em 2012, o valor agregado por habitante chegava a 125% da média britânica. O crescimento do PIB em Londres era duas vezes maior do que o registrado no restante do país. Hoje, os bairros abastados da capital, Mayfair ou Marylebone, rivalizam com Genebra ou com os Emirados.

Londres tem outra singularidade. Ela se tornou a cidade onde a miscigenação é a maior dos nossos tempos, e alguns afirmam que é a maior toda a história. Um londrino em cada três nasceu no exterior, e os brancos constituem uma minoria. Muitos destes estrangeiros (ao contrário do que ocorre na França) são ricos e megarricos. Tudo está nas mãos dos estrangeiros, os restaurantes, os centros financeiros, os times de futebol.

Evidentemente, em Londres também há pobres. Em King’s Cross, a expectativa de vida é de 79 anos, o que não é nada mau. Mas em Knightsbridge, ela chega aos 91 anos. Os bairros de Hackney ou de Tower Hamlets estão entre os mais tristes do reino. Eles evocam o universo implacável de Charles Dickens.

“Enquanto os mais ricos moram em mansões que valem milhões de libras, e levam uma vida de nível internacional,” escreve The Observer. “Os londrinos mais pobres não hesitam em gastar diariamente duas horas em três ônibus diferentes para ir ao trabalho, pois não podem pagar a passagem de metrô.” Habitada em parte por imigrados abastados, Londres, que pretende ser uma “cidade aberta”, não vê de bons olhos as restrições à imigração decididas pela equipe de Cameron.

Além disso, os trabalhistas questionam se não terá chegado a hora de instalar um dos seus no lugar do atual prefeito , Boris Johnson, extravagante, eficiente e muito conservador. 

A Grande Londres abrange 73 circunscrições. As sondagens mostram que 47 deverão voltar para os trabalhistas, o que lhes permitiria eleger o prefeito.

Assim, por trás da fachada brilhante de um país em plena euforia econômica, descobrimos problemas ocultos, e principalmente todas estas fronteiras invisíveis que dividem o interior da Grã-Bretanha. Entre Londres e os bolsões devastados do norte industrial, abriu-se um abismo.

Se acrescentarmos que nestas mesmas eleições legislativas a Escócia vai, sem dúvida, manifestar seus anseios de independência ou de autonomia, é de se prever que a tarefa urgente dos próximos eleitos será recompor o rosto liso e unido de um país que hoje se assemelha a uma porcelana mal cozida, em que as diferentes partes não conseguem compor um mesmo desenho. 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/ Tradução de Anna Capovilla

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