MYKOLA LAZARENKO/AFP
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As eleições na Ucrânia

Nem a Rússia nem a UE optam por apoiar um candidato abertamente na disputa

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 05h00

A Ucrânia vota neste domingo. Será o primeiro turno das eleições presidenciais. Há cinco anos, a Revolução de Maidan explodia em Kiev. A Ucrânia se livrava das garras russas e começava um novo momento de sua história. Era um país livre. 

Em consequência, pela lógica, previa-se que Rússia e Europa tentassem se intrometer nas eleições. No entanto, elas preferiram prudentemente não apoiar com estardalhaço nenhum candidato. Mesmo Moscou, que sabe como tumultuar o jogo eleitoral nos países vizinhos, contempla as eleições ucranianas com uma espécie de tédio.

Contudo, entre os candidatos que se enfrentarão neste domingo há um pró-Rússia, um tal de Iuri Boiko, que viajou a Moscou no dia 22. Putin nem sequer o recebeu. Encarregou deste aborrecimento sua sombra descolorida, o primeiro-ministro Dmitri Medvedev. A verdade é que nenhum dos três candidatos favoritos neste primeiro turno sensibiliza russos ou europeus. Os três sofrem da mesma doença: corrupção, em estado avançado. 

Vejamos primeiramente o atual chefe de Estado, Piotr Poroshenko, que teve alguns êxitos. Ele resgatou a igreja ucraniana da tutela do patriarca de Moscou. Os russos não o suportam, pois ele é o homem da Revolução de Maidan. Será então que os europeus o defenderão com unhas e dentes? Não necessariamente.

É verdade que a Europa reconhece nele um eficiente homem de negócios, mas para os seus, para sua fábrica de chocolate. Ele baixou as garras na Justiça ucraniana. Criou um exército para servi-lo. Infiltrou seus métodos e seus homens em todas as engrenagens do Estado. Oitenta por cento dos ucranianos, segundo as pesquisas, acreditam que as eleições deste domingo serão fraudadas. 

Vamos à segunda favorita, a eterna Yulia Timoshenko, que às vezes parece moribunda e de repente surge ressuscitada, com suas louras tranças. Ela tem um sorriso doce, mas é uma tigresa. Em tese, os russos teriam razões para gostar dela, pois em 2009 foi a signatária de um acordo sobre gás com Putin. 

Em seguida, porém, como os ventos estavam contra a Rússia, ela se afastou e hoje os russos a descrevem como “russófoba”. Os europeus a consideram incontrolável. Ela não tem medo de nada. Já fez saber que se não for para o segundo turno apelará a suas hostes e sairá às ruas para que o placar seja corrigido.

Chegamos então ao terceiro favorito. É um humorista. É curioso como nas eleições europeias aparecem de quando em quando candidatos humoristas que obtêm boa votação. Este se chama Volodmir Zelenski. Moscou também não gosta dele. As últimas pesquisas o colocam num invejável primeiro lugar. 

E a Europa? E a União Europeia? Embora nenhum dos finalistas desperte entusiasmo, constatamos com satisfação que os três têm os olhos em Bruxelas. Quando a ordem voltar, a Ucrânia poderá apresentar sua candidatura, ainda que para se proteger de seu vizinho.

A Europa exerce fascínios contraditórios. Os países que estão nela a criticam violentamente e por vezes a deixam, como o Reino Unido. Já muitos países, como a Turquia ontem e talvez a Ucrânia, sonham em ser admitidos.

Daria para dizer que os Estados obedecem às mesmas leis de sedução, lassidão e inconstância que os casais no teatro francês burlesco do século 19, com suas peças sobre adultério e caprichos do coração. É claro que eram peças cômicas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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