Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As eleições no Quênia

O Quênia, principal potência da África Oriental (entre a Etiópia, a Somália e o Oceano Índico a leste, Uganda a oeste e Tanzânia ao sul), tem um novo presidente, Uhuru Kenyatta, eleito num escrutínio democrático, considerado tão idôneo que mesmo o seu adversário, o ex-premiê Raila Odinga, depois de alguns resmungos, aceitou a derrota.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2013 | 02h03

Um belo exemplo de democracia, tanto mais que a África não é a campeã do mundo em termos de legalidade republicana. Mas Kenyatta, o novo presidente desse país, do qual outrora Hemingway e Karen Blixen falaram tão bem (As Neves do Kilimanjaro e Entre Dois Amores), tem algumas características singulares.

Em primeiro lugar, ele nasceu em 1961, ou seja, dois antes de o Quênia, ex-colônia britânica, alcançar sua independência. Além disso, é filho do primeiro presidente do Quênia, Jomo Kenyatta, o "pai da independência". Aliás, foi na esperança dessa independência que seus pais lhe deram o nome Uhuru, que na língua local significa "liberdade".

Assim, muitos sinais favoráveis acompanham essa eleição e isso é bom porque o país necessita de calma. Ainda está marcado e de certa maneira martirizado pelos tumultos que ocorreram após a eleição presidencial precedente, em 2007 (que resultaram em mil mortos e 600 mil pessoas expulsas de suas casas).

Dizem que o novo presidente tem um inconveniente. Não gosta muito de trabalhar. Um defeito compensado por muitas virtudes: ele é brilhante. E é um homem simples, próximo do povo, voltado para os cidadãos em situação de miséria. Em sua campanha eleitoral Uhuru dirigiu-se em primeiro lugar à grande maioria pobre do país. O que lhe confere mais crédito, já que sua família é uma das mais ricas do continente, de acordo com a revista Forbes.

A família Kenyatta acumulou um império de meio bilhão de dólares nos setores de mídia, finanças e agricultura. Os inimigos políticos afirmam que a família conseguiu adquirir imensa quantidade de terras agrícolas, a preço baixo, pelos britânicos no momento da independência.

Uhuru Kenyatta teria um outro inconveniente nessas eleições, acusado duramente de alguns atos. Ele teria tido um papel importante na onda de violência que explodiu na eleição de 2007. Uma ação por crimes contra a humanidade foi impetrada no Tribunal Penal Internacional e o processo deve ser iniciado em julho em Haia.

Em princípio.

Essas suspeitas não atrapalharam sua disputa pelo poder. Segundo analistas, foi o contrário, pois os quenianos desconfiam e muito do Ocidente, do qual o Tribunal de Haia constitui nesse caso a imagem e o símbolo.

Assim, Uhuru Kenyatta soube explorar a herança de seu pai: em 1963, Jomo Kenyatta foi o homem que pôs fim à colonização. Em 2013, seu filho começará as manobras que poderão criar os "neocolonizadores", restabelecendo seus antigos privilégios.

Tradução de Terezinha Martino.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
Tudo o que sabemos sobre:
Gilles Lapouge

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.