Mario Tama/Getty Images/AFP
Mario Tama/Getty Images/AFP

As encruzilhadas da política nos Estados Unidos

Democratas precisarão se deslocar para a direita no aspecto cultural para recuperar parte dos eleitores que hoje votam no Partido Republicano

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 06h30

Para os que acham que Donald Trump é um bufão ignorante que de algum modo se aproveitou do estado de espírito do eleitorado ou apenas teve sorte em 2016, o último mês foi instrutivo. Ele demonstrou ter um assombroso instinto político. E quando combinado com sua implacável “amoralidade”, termo usado por um dos seus assessores num artigo de opinião anônimo publicado no New York Times, ele se torna um enorme desafio para seus oponentes.

Diante de Trump está um cenário familiar. Tradicionalmente, o partido que controla a Casa Branca tem uma baixa votação e um péssimo desempenho nas eleições de meio de mandato. Mas, em vez de aceitar isso como algo inevitável, Trump vem tentando agressivamente se sobrepor a todos os prognósticos. E transformou o que normalmente são disputas distintas no Congresso e na Câmara numa eleição nacional, lutando com base num programa que ele definiu.

E o primeiro item desse programa é a imigração. A razão é óbvia. O tema incita seus eleitores como nenhum outro. Trump faz uma campanha implacável com base na imigração, com acusações falsas de que se os democratas vencerem eles abrirão as fronteiras e deixarão qualquer um entrar no país.

E tem usado a caravana de imigrantes centro-americanos para ressaltar seus argumentos contra os democratas. Como os republicanos também estão ainda bastante motivados pelo medo do terrorismo, Trump lançou a acusação de que há “indivíduos do Oriente Médio” entre os imigrantes (em primeiro lugar, não há evidências disso, o que o próprio Trump reconhece; e em segundo lugar, se fosse o caso, é uma terrível calúnia sugerindo que qualquer pessoa do Oriente Médio é terrorista). À medida que a mídia se empenha em verificar a veracidade de suas afirmações, Trump parece bem ciente de que estão, sem querer, repetindo suas declarações e reforçando a suspeita e o medo na mente da população.

Em segundo lugar, Trump vem transformando as eleições de meio de mandato numa votação nacional fomentando o espectro do impeachment. Nada enfurece mais sua base do que a ideia de uma conspiração elitista (de advogados, jornalistas e juízes) determinada a anular os resultados da eleição de 2016. A secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, declarou que o impeachment “é a única mensagem que (os democratas) parecem passar nessas eleições de meio de mandato”.

A estratégia de Trump foi prognosticada por Steve Bannon há vários meses, quando explicou, em uma entrevista que me concedeu na CNN, que os republicanos precisavam transformar as eleições de meio de mandato num referendo sobre Trump. “A segunda disputa presidencial ocorrerá em 6 de novembro”, Bannon disse. “Ele está em votação e teremos um voto aceitando ou não o presidente.”

E como conter essa campanha? Muitos democratas sustentam furiosamente que não defendem uma abertura de fronteiras ou um impeachment, que suas posições são mais nuançadas. Mas quando você fala em nuances em política, acaba perdendo. O Partido Democrata não encontrou uma maneira de partir para a ofensiva e fazer com que Trump explique que ele, de fato, está numa posição mais complicada em qualquer tema de discussão.

Mas há um problema real além da questão de estilo e tática. O Partido Democrata vem insistindo que os resultados da recente eleição são um sinal inequívoco de que precisa mudar o rumo e se tornar mais populista no aspecto econômico. Mas os dados mostram claramente que o público americano está muito satisfeito com a posição do partido em matérias como saúde e desigualdade social.

O desafio para os democratas está num conjunto de questões de caráter cultural - especialmente a imigração, mas também outros, como leis sobre banheiros para transgêneros e respeito à bandeira - caso em que um grupo-chave de americanos acha que o partido está fora da realidade do país. Um excelente estudo realizado pelo Fundo Democracia concluiu que as pessoas que antes apoiaram Barack Obama e depois votaram em Trump em 2016 (um segmento importante que os democratas poderiam reconquistar) concordam em praticamente todos os temas econômicos com eles, mas discordam do partido em matérias culturais e ligadas à imigração.

Simplesmente, o estudo deixa claro que o desafio para o Partido Democrata, politicamente, não é se ele deve se colocar à esquerda do ponto de vista econômico, mas se vai se deslocar para a direita no aspecto da cultura.

Mas um grande partido nacional tem de demonstrar que pode aceitar pessoas que discordam dele em alguns temas. Fazer isso sem abandonar seus princípios é um desafio, mas um desafio que os democratas terão de aceitar se buscam uma maioria governamental durável. No futuro, o eleitorado será mais jovem e diverso, mas nesse intervalo o Partido Republicano vai dominar a política americana, pois controla as encruzilhadas onde cultura e política se entrelaçam. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* FAREEZ ZAKARIA É COLUNISTA

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