As entrelinhas da pobreza americana

Americanos terão de enfrentar tempos difíceis e a questão agora é se o governo fornecerá soluções para ajudar a população a superar adversidades

É EDITORIALISTA, TERESA, TRITCH, SUNDAY OBSERVER, É EDITORIALISTA, TERESA, TRITCH, SUNDAY OBSERVER, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h07

Um medidor novo e aperfeiçoado de pobreza, anunciado pela Agência do Censo dos EUA, mostra que 49,1 milhões de americanos são pobres e a quantidade dos que estão pouco acima da linha de pobreza é maior do que anteriormente se acreditava. A classe média também está sob pressão, atingida pela estagnação das rendas e despesas inevitáveis, como contas médicas.

A linha de pobreza oficial, mais antiga, ainda é usada para determinar o direito a benefícios públicos, mas a nova fórmula oferece uma visão mais ampla da vida dentro e fora da pobreza. Esses números incidem diretamente em questões de desemprego, cortes orçamentários, custos do sistema de saúde e na avaliação das políticas públicas. A pergunta é se elas ajudam os pobres e impulsionam a economia. A resposta é um enfático sim.

Quem dera os legisladores estivessem prestando atenção. No entanto, eles estão concentrados em cortar o orçamento, em geral desconsiderando o bem que programas governamentais fazem e ignorando as consequências.

Quer seja fatiada de um jeito ou de outro, a definição de pobreza é abissalmente baixa. Na nova fórmula, denominada "medida de pobreza suplementar", a linha de pobreza, com base no custo de alimentos, moradia, vestuário e utilidades, é US$ 11.282 anuais para um indivíduo e US$ 24.343 para uma família de quatro membros, ligeiramente acima do limite oficial.

Para determinar quem é pobre, tanto a fórmula oficial quanto a suplementar contam a renda em dinheiro, geralmente de trabalho ou assistência pública, salário-desemprego, Previdência Social e investimentos. A medida suplementar inclui também o valor de créditos fiscais para trabalhadores de baixa renda e benefícios públicos que não envolvem dinheiro, como cupons de alimentação, merenda escolar subsidiada e auxílio moradia, enquanto subtrai despesas necessárias, como gastos médicos, impostos, transporte e atendimento infantil.

Os pobres constituem 16,1% da população pela nova fórmula, ante 15,2% pela medida oficial - uma diferença que significa aproximadamente 3 milhões de pessoas. É revelador que, pela nova medida, haja 3,2 milhões menos crianças na pobreza e 1 milhão menos pessoas na pobreza extrema precisamente porque os benefícios do governo voltados para esses grupos vulneráveis estão de fato ajudando.

No entanto, mesmo levando em conta os benefícios, a taxa de pobreza para crianças ainda é de 18,2% - ou 22,5% pela medida oficial. A pobreza entre idosos, porém, é maior pela medida suplementar - 15,9% ante 9% pela oficial - em grande parte porque custos médicos que saem do bolso e outras despesas anularam os benefícios que não envolvem dinheiro, como auxílio a alimentação e moradia que algumas pessoas com mais de 65 anos recebem.

O grupo de baixa renda - 98 milhões de americanos pela nova medida - é maior, em parte, por causa dos milhões elevados acima da linha de pobreza pelos benefícios governamentais. Por exemplo, sem o crédito fiscal sobre a renda recebida para os pobres trabalhadores, mais 6 milhões de pessoas teriam sido pobres no ano passado.

Outra questão é o número de americanos que estão caindo da classe média - os que ganharam demais para receber benefícios relativos à pobreza, mas arcam com despesas que corroem sua renda. Os dados mostram que o maior grupo de baixa renda deve mais a famílias que estão sendo reclassificadas para baixo do que famílias que estão sendo elevadas.

O perfil dos ricos também muda com a nova medida. Famílias com quatro vezes o limiar de pobreza suplementar ou mais - US$ 97.372 por família de quatro - totalizaram 17,3% da população em 2010 ante 35,8% pela medida oficial, em grande parte porque impostos, despesas médicas e custos relacionados ao trabalho corroeram a renda.

Reformas. Há muitas lições a tirar desse quadro. Enquanto a economia estiver fraca e o desemprego elevado, os programas de combate à pobreza - como carnês de alimentos, benefícios a desempregados, Medicaid e créditos fiscais para pobres trabalhadores - precisam ser ampliados e protegidos de cortes orçamentários indiscriminados.

Ao mesmo tempo, os americanos precisam de um esforço para criar empregos e reeducar trabalhadores alijados. A reforma fiscal deveria pedir mais dos ricos e do setor financeiro para começar a distribuir o fardo mais progressivamente. A reforma da saúde deveria ser acelerada para reduzir as esmagadoras despesas médicas particulares.

E, por mais soturnos que sejam os dados do censo, eles não nos dizem nada sobre a enorme carga da dívida e da falta de ativos que enfrentam milhões de americanos, problemas que podem emperrar o futuro de uma família. Eles não consideram a perda de trilhões de dólares em casa própria para execuções hipotecárias e o desmoronamento do valor dos imóveis. Não refletem tampouco a perda da poupança para aposentadoria por causa de mercados adversos ou as retiradas prematuras por trabalhadores desempregados.

Essa crise mais ampla pede mudanças políticas ainda maiores, como modificações nos empréstimos e mais proteção para consumidores e investidores para restaurar a confiança e a estabilidade de mercados financeiros. Já sabemos que os americanos terão de enfrentar tempos difíceis. A questão, desde que a recessão começou, é se o Congresso fornecerá soluções suficientemente importantes, oportunas e consistentes para ajudar os americanos que batalham para aguentar as adversidades. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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