As estranhas decisões de Obama

Desde que foram derrotados nas eleições de meio de mandato, o presidente e seu partido têm agido de forma esquisita

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2014 | 02h04

Dizem que o fracasso pode ser um bom mestre, mas até agora o governo de Barack Obama está se colocando fora da curva. O período após as eleições de meio de mandato está sendo um dos mais bizarros desse governo. O presidente contabilizou algumas realizações marcantes em política externa, mas domesticamente as coisas estão fora dos trilhos.

Geralmente, os presidentes usam a derrota na eleição de meio de mandato como uma chance para repensar e recuperar o foco. Foi o que Obama fez quatro anos atrás. Os eleitores gostam de sentir que o presidente os está ouvindo.

Obama, porém, não fez nenhuma reconsideração pública. Em entrevista após a eleição, o presidente tentou reexaminar a derrota dizendo que o comparecimento foi baixo, como se fosse culpa dos republicanos que os democratas não tenham conseguido mobilizar suas bases. Durante toda a entrevista, ele pareceu se distanciar de seu próprio partido, como se os democratas que perderam empregos em razão dele fossem vítimas distantes de algum mal-estar etéreo.

No fim de seus mandatos, os presidentes geralmente ficam menos, e não mais, partidários. Mas, com sua ameaça implícita de veto ao oleoduto Keystone (obra polêmica, que levará petróleo do Canadá para os EUA), Obama parece querer mostrar que os democratas também podem pôr o partidarismo acima da ciência.

O Keystone vem sendo estudado exaustivamente e as evidências sugerem que ele é uma ideia modesta, mas boa. O estudo mais recente do Departamento de Estado revelou que ele não agravaria significativamente a situação do meio ambiente. O petróleo vai sair, de uma forma ou de outra, e é mais ecológico transportá-lo por oleoduto do que por trem. O impacto econômico não é enorme, mas ao menos haverá um projeto de infraestrutura de US$ 5,3 bilhões.

Presidentes com uma nova maioria parlamentar tentam imaginar se há alguma coisa que os dois poderes podem fazer juntos. Os republicanos no governo têm um forte incentivo para aprovar leis. O óbvio é começar pelas coisas mais fáceis, nem que seja apenas para mostrar que Washington pode funcionar em algum nível elementar.

No entanto, a Casa Branca não se engajou com o Congresso nas áreas legislativas em que poderia haver acordo. Em vez disso, o presidente foi superagressivo sobre o único tópico com capacidade de estourar tudo: o decreto executivo para reescrever as leis de imigração do país (o que evitaria a deportação de 6 milhões de ilegais).

Obama não teve pressa em emitir esse decreto ao longo de 2014, pois isso poderia ter sido politicamente arriscado. Ele questionou se tinha a tal autoridade constitucional durante todo seu primeiro mandato, quando disse que um decreto assim provavelmente seria ilegal. Agora, porém, o presidente está com pressa e convencido de que tem a autoridade necessária. Eu simpatizo com o que Obama está tentado fazer, mas o processo usado é ruinoso.

Os republicanos tomariam esse decreto, com razão, como um insulto calculado e uma inépcia política ainda maior. Todos ficarão em pé de guerra. Teremos mais dois anos de disfunção que provocarão maior descontentamento social e fervor antigoverno (tornando mais provável uma presidência republicana).

Essa medida também tornaria muito menos provável a possibilidade de termos uma reforma da imigração em breve. Autoridades da Casa Branca, com frequência, estão mal informadas sobre o que os republicanos discutem de forma privada. Por isso, não entendem que muitos no Partido Republicano estão tentando encontrar uma maneira de tirar a reforma da imigração do caminho. Esse decreto executivo destruiria seus esforços e desestabilizaria ainda mais a legitimidade do governo.

Redefinir o status legal de 6 milhões de seres humanos é uma coisa importante. É o tipo de mudança para a qual existe um processo legislativo. Fazer uma coisa desse porte com o golpe da caneta é arriscado. Em vez de uma nação de leis, poderíamos lentamente regredir para uma nação de imposições, com cada presidente se apoiando ou revogando medidas diferentes na base do poder unilateral - criando oscilações instáveis de uma presidência para a seguinte. Se Obama decretar essa ordem sobre a base frágil do livre arbítrio para exercer poderes discricionários, estará convidando futuros presidentes a usarem critérios igualmente frágeis.

Não tenho certeza sobre os motivos para Obama se comportar de maneira tão estranha desde as eleições. Talvez alguns na Casa Branca estejam zangados com a derrota e queiram mostram que podem ser tão obstrucionistas como qualquer outra pessoa.

Talvez, em momentos de estresse, eles só estejam sensíveis a críticas vindas da esquerda. Talvez seja o "gruberismo": a crença de que todos os demais são um pouco mais estúpidos e menos motivados do que nós e, portanto, a política é mais manipulação do que negociação.

Seja como for, foi uma longa jornada desde as convenções partidárias de Iowa, no início de 2008, até a obstrução preventiva de hoje. Fico pensando se depois de deixar a presidência Obama olhará para trás e lamentará ter sido sugado para o turbilhão emocional que tentou destruir. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

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