Wilton Júnior/ Estadão
Wilton Júnior/ Estadão

As estratégias para a eleição de 2022

Políticos de todos os espectros não pensam em outra coisa senão no palco presidencial do próximo ano

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 12h00

As múltiplas estratégias políticas para a eleição presidencial de 2022 já estão em curso, ainda que diversos pré-candidatos aleguem estar cedo para tratar do assunto. Encontros políticos entre ex-presidentes, movimentações políticas de olho nas fusões partidárias, operações incessantes de partidos do "centrão" à caça de novos afilhados graúdos e arranjos teatrais seja da base do governo, seja da oposição na CPI da Covid, de olho no eleitor, vão servindo de aperitivo. Em resumo, políticos de todos os espectros não pensam em outra coisa senão no palco presidencial do próximo ano.

Não é necessário ser nenhum gênio para constatar que o presidente da República, Jair Bolsonaro, nunca saiu do palanque. O seu governo é, no fundo, um palanque estendido da eleição de 2018. Bolsonaro segue em franca exposição animando a sua patuleia com passeios de jet-ski, helicóptero, cavalo e agora a "motociata", para manter a sua base coesa e mobilizada – e governar que é bom, nada!

O ex-ministro Ciro Gomes, já lançado pelo PDT ao Palácio do Planalto, vai fazendo as suas costuras regionais, dialogando com setores da economia, exibido ao país o seu projeto nacional-desenvolvimentista e desferindo torpedos críticos no intuito de testar a flexibilidade política e o humor das redes sociais. 

Já o ex-presidente Lula, com os direitos políticos recuperados, vai estreitando os diálogos e flexionando os músculos. Seu objetivo é o de esculpir um arco pluripartidário de alianças. A sua popularidade e o seu favoritismo nas pesquisas vão, por ora, colocando-o como o principal contendor do bolsonarismo. 

Mesmo que se afirme que falta uma eternidade para a eleição, o jogo já está sendo jogado. Contudo, algumas variáveis começam a se desenhar em favor de uns e contra outros. O ambiente que elegeu Bolsonaro, em 2018, não tende a existir em 2022. A narrativa que vai comandar a eleição será baseada em três eixos: combate à fome, geração de emprego e recuperação da renda. Criação de oportunidades e redução da desigualdade são o que o brasileiro médio espera como solução para as suas mazelas. É um discurso que o Bolsonaro não sabe veicular – esperança não é com ele. E sua expertise, destilação de ódio, terá efeito bumerangue. 

O antipetismo, a Lava Jato e a milagrosa facada levaram Bolsonaro ao segundo turno na eleição presidencial passada. O seu caminho para a reeleição, sem esses fatores, será mais tortuoso. E isso sem mensurar as sequelas que a pandemia e o avanço do antibolsonarismo na sociedade lhe deixarão para 2022.  

A CPI da pandemia no Senado, a negligência com a vacina, o declínio da popularidade presidencial e a ascensão do ex-presidente Lula nas pesquisas vão, aos poucos, delineando o cenário a ser enfrentado pelo inquilino do Palácio do Planalto. 

Por sua vez, a contraofensiva presidencial avança em duas frentes. A primeira é jorrar dinheiro para o fisiologismo político – com o "orçamento secreto" – e a segunda é a de manter acesa a mobilização popular, de que é exemplo o passeio a moto na cidade do Rio de Janeiro, ontem, domingo. Mas, isso pode não ser suficiente. Os que o defendem hoje na CPI da Pandemia podem, no final das contas, estar no colo de outrem em 2022. 

Ademais, qualquer dos candidatos que almeja chegar ao segundo turno precisa expandir e consolidar o seu apelo eleitoral em três segmentos: a) voto feminino, b) voto nordestino e c) voto evangélico. Nesses três estratos, o incumbente não vai bem. Com o retorno do ex-presidente Lula ao cenário eleitoral, a popularidade de Bolsonaro nessas parcelas do eleitorado vai refluindo gradativamente. Sem Olavo de Carvalho e Roberto Jefferson, o seu novo consiglieri hoje é o pastor Silas Malafaia. Não é preciso dizer muito. Certo?! Aliás, como dizia o ex-ministro e jurista Francisco Rezek: "A competência de um administrador você a conhece pela competência de seus conselheiros."

Com as alternativas minguando, o presidente prepara a narrativa da fraude eleitoral como salvo-conduto para se desobrigar da transição pacífica do poder, em caso de derrota em 2022. O seu objetivo é o de lançar dúvidas sobre a lisura e a transparência do processo eleitoral brasileiro. A tese do voto impresso nada mais é do que um truque para ampliar o fosso de desconfiança sobre as instituições públicas.

Por fim, a supremacia bolsonarista nas redes sociais em 2018 não possui mais a mesma dimensão na atualidade. No campo da guerra eletrônica e das "fake news", o bolsonarismo ainda é, sem dúvida, superior às demais plataformas eleitorais. Porém, os seus adversários trabalham dia e noite para reduzir essa diferença. Não menos importante, a mídia e o Judiciário, que franquearam o caminho para Bolsonaro chegar ao poder em 2018 – não por causa de Bolsonaro em si – estão dispostos a abraçar qualquer candidato para se verem livres de mais quatro anos de ódio e desgoverno. 

*É cientista político, professor de relações internacionais e pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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