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As expectativas para o debate entre Trump e Biden nesta terça-feira

Em um cenário polarizado e com poucos eleitores indecisos, republicano e democrata se enfrentam pela primeira vez

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 03h00

WASHINGTON - Com previsão de dezenas de milhões de telespectadores, o primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden, que acontece nesta terça-feira, 29, se anuncia como um grande evento, embora possa ter impacto limitado em um país tão polarizado e com tão poucos eleitores indecisos. 

O primeiro duelo entre Donald Trump e Hillary Clinton em setembro de 2016 registrou um público recorde de 84 milhões de pessoas. Os números esperados para esta terça-feira são semelhantes e, se concretizados, representarão mais que o triplo da audiência dos discursos do presidente e do seu rival democrata durante as convenções partidárias deste ano. Apenas o Super Bowl tem um público maior, com cerca de 100 milhões de telespectadores.

"É um momento único (...) em que veremos os dois candidatos juntos e os dois principais partidos debatendo ostensivamente, fora do Congresso", afirma John Koch, professor especialista em debates na Universidade de Vanderbilt.

Mas é improvável que o duelo mude o voto dos telespectadores e internautas americanos, bombardeados durante semanas pela publicidade eleitoral, advertem analistas.

Todos recordam como a ex-secretária de Estado Hillary Clinton foi considerada vencedora nos três debates de 2016, para logo depois perder a eleição.  Essa desconexão entre o desempenho nos debates e o resultado da eleição não é nova: o democrata John Kerry também foi considerado o vencedor dos debates contra o presidente George W. Bush em 2004, em vão.

A última vez que um debate influenciou as pesquisas foi em 1984, quando Ronald Reagan, então o presidente americano mais velho da história com 73 anos, balbuciou na frente de Walter Mondale, lembra Bob Erickson, da Universidade de Columbia. Mas Reagan se recuperou no debate seguinte, onde destacou a "juventude e inexperiência" de seu rival, e venceu a eleição.

"Simpatia"

Desde o primeiro duelo na televisão americana em 1960, entre Richard Nixon e John F. Kennedy, os debates se tornaram muito menos informativos, diz Michael Socolow, historiador de mídia da Universidade do Maine.

Em 1976, o democrata Jimmy Carter ainda foi capaz de "apresentar novas ideias" durante o debate com o presidente Gerald Ford, recorda. Mas hoje "os espectadores sabem o que (os candidatos) vão dizer antes mesmo do início do debate", e o exercício é essencialmente "um espetáculo que permite verificar se conhecem bem o seu texto".

Especialmente quando o clima político está tão polarizado que os indecisos - que poderiam se inclinar para um lado ou outro em um debate - "se tornaram raros", enfatiza Koch.

Embora não provoquem grandes mudanças, os debates vão permitir a quem tem dúvidas confirmar a sua escolha: em 2016, 10% dos eleitores disseram que tomaram a decisão final "durante ou logo após um debate", segundo o Pew Research Center.

Nesse contexto, o estilo e a simpatia de cada candidato contam muito mais do que suas palavras. E nessa área o espectador pode estudar com curiosidade Joe Biden, que muitos não conhecem bem. 

"As pessoas irão observá-lo para ver se ele é simpático, se ele as faz sentir confortáveis", diz David Barker, da American University. 

O ex-vice-presidente de Barack Obama, de 77 anos, provavelmente mencionará no debate a morte de sua primeira esposa e filha em um acidente de carro em 1972, assim como a morte de seu filho Beau de câncer no cérebro em 2015, tragédias pessoais que geram empatia e se tornam "uma ferramenta política eficaz", de acordo com Barker.

Limitar o risco

Mas em uma sociedade ultra midiatizada, as impressões imediatas dos telespectadores não têm tanto impacto quanto a avaliação dos candidatos por comentaristas políticos, que estudam cada sinal de hesitação e cada gesto ou frase inesperado.

"O que acontece depois do debate, e como é usado, pode ter mais impacto" do que o próprio debate, aponta Amy Dacey, ex-chefe do Partido Democrata. 

Os candidatos podem até "tentar fazer seu adversário dizer algo" para depois reutilizar em sua publicidade, diz. 

O formato dos debates, estabelecido em 1988 por uma comissão especial, é politicamente neutro e limita os riscos para os candidatos tanto quanto possível: o anfitrião faz perguntas sobre temas escolhidos com antecedência e as respostas são cronometradas. 

A pandemia deve apenas modificar ligeiramente este ritual: não haverá público, ou será muito pequeno, e Biden pode aparecer no início com máscara, para sublinhar a gravidade da pandemia de coronavírus que Trump é acusado de minimizar.

Para Koch, os eleitores ganhariam com um formato de debate diferente, em que os candidatos debateriam uma questão que os confrontaria, consultando seus assessores e explicando sua decisão ao vivo.

Mais próximo dos reality shows, "isso agradaria aos telespectadores e realmente nos ajudaria a ver quem pode ser presidente", acredita. "Mas não agrada os diretores das campanhas, que querem o mínimo de surpresas". /AFP

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