As falhas da burocracia mais antiga do planeta

Escândalos que envolvem a Igreja derivam de estrutura antiquada e se tornaram o maior teste para Bento XVI, designado justamente para fortalecer a instituição

RACHEL DONADIO, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

O escândalo dos abusos sexuais em que afunda a Igreja Católica Romana é a crise mais persistente e complexa já enfrentada pelo papa Bento XVI. E é um teste crucial para um papado que, segundo muitos observadores, tem uma profunda falha interna: sua administração.

Teólogo reservado, Bento é "um brilhante professor e pregador, mas um administrador não muito enérgico", disse George Weigel, especialista em questões do Vaticano e biógrafo do papa João Paulo II, em um e-mail. "O que é bom para um papa, desde que ele tenha um administrador (ou administradores) fortes que se encarreguem deste aspecto da missão."

"Para ser franco, muitos observadores que simpatizam com este pontificado achavam que parecia ser isto que faltava até agora", acrescentou Weigel.

No entanto, não deveria ser assim. Há cinco anos, os cardeais que elegeram Joseph Ratzinger ao papado viram nele um líder enérgico que poderia fortalecer a Igreja, considerando que esteve durante duas décadas na direção da Congregação para a Doutrina da Fé, o poderoso escritório do Vaticano que cuida de assuntos de doutrina.

Mas Bento esbarra continuamente em problemas administrativos.

Quatro anos após ter citado a afirmação do imperador bizantino segundo o qual o Islã trouxe coisas "más e desumanas", enfurecendo os muçulmanos, aparentemente não adotou um sistema que faça as engrenagens do governo funcionar adequadamente - ou que permita evitar o próximo tropeço público.

O fato de no papado de Bento ter ocorrido uma crise após a outra indica as dificuldades desta antiga instituição, que ainda luta com a modernidade, embora o liberalizante Concílio Vaticano II, na década de 60, pretendesse modernizar a relação da Igreja com o mundo. Ao contrário, neste momento, enfrenta os crescentes desacertos de uma burocracia criada no século 16 para fazer frente à Reforma Protestante e à descoberta do Novo Mundo. E, segundo alguns, continua às voltas com ambos os problemas.

Dez anos depois que outra crise de abusos sexuais atingiu os Estados Unidos, provocando violenta ira e custando à Igreja o que se calcula US$ 2 bilhões em acordos extrajudiciais, os especialistas afirmam que o Vaticano ainda não montou uma infraestrutura adequada para processar os casos de abuso. Em 2001, o cardeal Ratzinger assumiu o controle desses casos, com o objetivo de fazer com que os sacerdotes envolvidos assumissem sua responsabilidade. Mas um escritório com apenas 10 pessoas trabalha há 10 anos em 3 mil casos, depois que estes passam por uma avaliação nos respectivos países.

Discurso desastrado. O Vaticano tampouco adaptou sua cultura insular secular às exigências dos tribunais civis, e muito menos dos tribunais da opinião pública. O fim de semana da Páscoa mostrou dois exemplos da desafinação reinante na hierarquia: na Sexta-feira da Paixão, o próprio pregador do papa pronunciou uma homilia na Basílica de São Pedro comparando as críticas ao tratamento que a Igreja está dando à crise dos abusos sexuais ao antissemitismo, ofendendo as vítimas dos abusos e os judeus.

Depois, durante a missa da Páscoa, o cardeal Angelo Sodano, ex-secretário de Estado do Vaticano, denunciou como "mexericos" as recentes críticas à Igreja e a Bento, que está sendo investigado pela condução da crise na época em que era arcebispo de Munique, em 1980, e quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. As observações do cardeal destacam uma mentalidade paranoica que pode confortar o papa, mas não responde aos críticos.

E embora o Vaticano seja uma potência mundial, frequentemente parece ser governado como uma aldeia italiana. "O Vaticano enfrenta dois desafios principais: o da geração e o da cultura", disse um diplomata que não quis ser identificado temendo prejudicar o relacionamento com o Vaticano. "O maior desafio é o da administração."

"Se observar a expansão da Igreja católica, sua diversidade e enormes dimensões, perceberá que se trata de uma organização global", disse o diplomata. "Mas sua arquitetura institucional não acompanhou esta expansão."

O Vaticano é dividido em departamentos que raramente se comunicam entre si, segundo uma estrutura secular de sigilo e autonomia. Bento aparentemente toma a maioria das decisões e escreve a maioria dos discursos fazendo poucas consultas. O que levou a incidentes diplomáticos, como quando o cardeal encarregado do diálogo entre os credos disse que não havia sido comunicado de que Bento havia revogado a excomunhão de quatro bispos cismáticos, até mesmo daquele que negou a magnitude do Holocausto.

Como nas crises passadas, todos os olhos se voltam para o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcísio Bertone. Durante anos ele é a segunda pessoa no comando da Congregação para a Doutrina da Fé, é de toda confiança de Bento e atualmente é o responsável pela condução da máquina política do Vaticano - e por manter o papa informado. Pessoas que têm amplo acesso ao Vaticano afirmam que o papa está cada vez mais isolado e o cardeal Bertone é um dos poucos funcionários que falam com ele regularmente.

Figura cordial e carismática, o cardeal Bertone não tem uma formação diplomática, e os observadores dos Vaticano e os diplomatas estrangeiros acreditados na Santa Sé o culpam insistentemente por uma visão de mundo que gira de maneira desproporcional em torno da Itália.

Acusar a imprensa de ataques caluniosos é uma estratégia comum na Itália, mas não funciona muito bem internacionalmente. "Esta é uma abordagem problemática, para dizer o mínimo, considerando a opinião pública mundial que desaprova amplamente a maneira como a hierarquia em geral vem tratando desta questão", disse David Gibson, um biógrafo de Bento que escreve sobre religião para o site politicsdaily.com.

"Se o papa tratasse da crise do modo como tratou de graves problemas anteriores - com uma espécie de explicação pessoal - os católicos e outros a achariam uma resposta pastoral muito mais satisfatória e humana", disse Gibson.

Em sua visita aos EUA, em 2008, Bento pediu desculpas pelos abusos dos padres e encontrou-se com as vítimas. Agora, além de uma carta aos católicos irlandeses, no mês passado, não tratou diretamente da questão.

Tanto seus críticos quanto seus defensores esperam agora para ver como - ou se - os lentos mecanismos do Vaticano funcionarão. Segundo os observadores, há uma crescente consciência no Vaticano de que o número de casos divulgados certamente se multiplicará - e no seu próprio quintal, a Itália, outrora intocada.

O prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, cardeal William J. Levada, admitiu na semana passada que seu escritório dedica um terço do seu tempo para tratar dos casos de abuso e provavelmente precisará aumentar o número de funcionários com a chegada de novos casos. Poucas decisões burocráticas e administrativas tiveram tão grande peso - e o legado do papado de Bento está no topo da lista. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EDITORA NO THE NEW YORK TIMES BOOK REVIEW

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