As falhas de Maduro

No corredor n.º 7, entre fraldas e amaciantes, os sonhos socialistas do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pareciam tão desfeitos quanto o monte de papel higiênico.

Nick Miroff*, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2014 | 02h07

Os funcionários de um supermercado em Caracas amontoaram uma remessa de pacotes de seis rolos extra suaves tão grande que praticamente bloqueava todo o corredor. Encher as prateleiras com o produto não faria sentido. Como a notícia da chegada dos tão esperados rolos se espalhara, embora cada cliente só pudesse levar um pacote, obedecendo ao limite imposto pelo governo, as filas nos caixas se estendiam por outros corredores praticamente vazios. "É uma coisa deprimente", comentou a advogada Maria Plaza, de 30 anos, que esperava há uma hora e meia. "Patética."

Deprimente, num supermercado moderno, com garrafas de vinho espanhol vendidas a US$ 100, uísque Jack Daniel's e pipoca de arroz orgânico. Patética, num país com as maiores reservas de petróleo do mundo, mas incapaz de abastecer a população com produtos básicos porque a moeda local está extremamente desvalorizada e há escassez de dólares.

"Logo precisaremos usar folhas de jornal como fazem em Cuba", disse um senhor de idade, também na fila. "É, como em Cuba!", outros gritaram. Ao que tudo indica, o destino da revolução da Venezuela será decidido no supermercado.

Quase um ano depois da morte de Chávez, seu sucessor, que ele próprio escolheu antes de morrer, Nicolás Maduro, luta para conter a escassez de alimentos, a inflação e o aumento assustador da criminalidade.

A chegada de produtos essenciais, como óleo de cozinha, frango, farinha e leite costuma provocar a corrida aos supermercados em cenas surreais, apesar do controle dos preços e do racionamento para impedir o acúmulo dos produtos.

A vitória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente, nas eleições municipais, em dezembro, aparentemente favoreceu um importante avanço do seu partido nas urnas. No entanto, a escassez dos produtos e a sensação geral de deterioração parecem ter se agravado desde então.

"Os lojistas fazem isso de propósito, para aumentar as vendas", disse Marjorie Urdaneta, que defende o governo. Para ela, Maduro tem razão quando acusa as empresas de conluio com as potências estrangeiras empenhadas numa "guerra econômica" contra ele.

Segundo economistas, o verdadeiro problema da Venezuela é a escassez de dólares que reduz a capacidade de importação do governo e do setor privado. Mesmo em shopping centers de luxo de Caracas, cadeias de lojas internacionais estão com as prateleiras praticamente vazias, os funcionários não têm o que vender e manequins estão nus.

Embora o governo tenha fixado o câmbio da moeda local, o bolívar forte, em 6,30 em relação ao dólar, a conversão usada nas ruas, em geral, é dez vezes mais elevada. A inflação chegou - oficialmente - a 56% no ano passado e, numa economia distorcida pelo petróleo, fundamentalmente dependente da importação de bens, as empresas não têm acesso à moeda estrangeira de que precisam para renovar seus estoques. Os próprios produtos de fabricação venezuelana são escassos e as fábricas têm enorme dificuldade para obter peças de reposição e matéria-prima.

Reanimação. A Assembleia Nacional concedeu a Maduro o poder temporário de governar por decreto sobre temas econômicos e os analistas afirmam que, este ano, ele dispõe de uma sala de reanimação política para fazer ajustes econômicos impopulares, como elevar o preço da gasolina - o mais baixo do mundo -, controlado pelo Estado. "As distorções tornaram-se enormes", afirma o economista Luis Zambrano. "Este ano é o primeiro em muito tempo em que não haverá eleições."

O governo de Maduro também planeja dar fôlego para a máquina vendendo pelo menos US$ 5 bilhões - a quase o dobro da taxa oficial - para companhias que tentam se livrar de bolívares e garantir uma moeda forte. Segundo economistas, isso não passa de uma desvalorização de fato - o reconhecimento de que o bolívar forte, na realidade, está bem fraco.

Perigos. No entanto, se a política fiscal do presidente se assemelhar às medidas que ele pretende adotar para conter o avanço da criminalidade, o país poderá ter problemas.

O assassinato da ex-miss Venezuela Mónica Spear em janeiro, numa tentativa de assalto, abalou o país há muito acostumado a uma das mais elevadas taxas de homicídios do mundo e à impunidade dos criminosos.

Apesar dos apelos para uma reforma da polícia do país, Maduro disse que a culpa é das novelas violentas e advertiu as emissoras para que tratem de adequar o conteúdo. A maioria dos venezuelanos está continuamente atarefada procurando garantir o básico. Segundo habitantes do interior do país, a escassez é ainda pior do que na capital.

"Não há nada para comprar onde moramos", disse a professora pré-escolar do centro de produção petrolífera de Maracaibo, Maria Valencia, enquanto fazia compras num supermercado estatal.

Os compradores, em geral, atribuem a escassez aos maus venezuelanos, que, na sua opinião, procuram tirar vantagem da situação.

"Todos devem ser culpados por isso", afirmou Jeanpierre Sifontes, encolhendo os ombros. Seu carrinho estava lotado com garrafas de óleo de cozinha, carne subsidiada importada do Brasil e dois aparelhos de karaokê. "Precisamos inventar alguma coisa para fazer à noite porque é perigoso demais sair", disse.

Maduro ainda conta com grande apoio dos venezuelanos pobres que se beneficiaram com a distribuição da riqueza do petróleo, com os novos prédios de apartamentos do governo em toda Caracas, com a rede de metrô em contínua expansão na capital e com o teleférico para moradores das favelas no alto dos morros.

No entanto, com a economia cambaleante e a inflação que afeta mais duramente os pobres, Maduro não quer correr riscos e muitas de suas recentes medidas colocaram militares de alta patente em cargos-chave do governo. "Este será um ano muito difícil", disse Margarita López, analista política em Caracas.

*Nick Miroff é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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