As famílias do Corruptistão

Líderes de governos autocráticos da Ásia mantêm filhos no comando dos principais setores de suas economias

O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2012 | 03h02

O governo do Usbequistão declarou recentemente 2012 o Ano da Família Forte. No âmbito dessa campanha oficial, os cidadãos usbeques estão sendo obrigados a participar de uma campanha de "Mil Casamentos e Mil Circuncisões", empreendida em todo o país. Considerando que a festa foi organizada por uma fundação dirigida por Gulnara, a filha onipresente do presidente Islam Karimov, os usbeques seriam perdoados por imaginar se o bizarro evento pretendia de fato celebrar uma família em particular. A verdade é que, por duas décadas, os usbeques são obrigados a celebrar a força dos Karimov.

O Usbequistão não é o único na região. Na ausência de instituições democráticas, o poder das famílias presidenciais é, com frequência, o cimento que mantém unidas muitas ditaduras eurasiáticas. Os comentaristas muitas vezes especulam se os líderes pós-soviéticos estarão preparando seus filhos para a sucessão, no estilo dos Kims ou dos Kadafis, mas os rebentos desses regimes já estão desempenhando o papel que lhes cabe.

Além de serem encarregados de atuar como embaixadores ocasionais no exterior ou membros de Parlamentos de fachada, esses filhos normalmente funcionam como players cruciais no controle estrito dos regimes sobre a economia, atuando como extensões dos governos de seus pais no setor econômico e além.

Usbequistão. Segundo os telegramas diplomáticos americanos expostos pelo WikiLeaks, o público em geral vê Guinara Karimova como um "barão ladrão", com a reputação de ter forçado sua entrada em cada setor empresarial do Usbequistão. Apesar de negar as suspeitas generalizadas de seu envolvimento, ela seria uma força decisiva por trás da expansão do conglomerado registrado na Suíça conhecido como Zeromax, misteriosamente fechado pelas autoridades em 2010. O Zeromax era o maior empregador privado do país, com propriedades em agricultura, têxteis, construção, mineração e energia.

Acredita-se que Karimova controle a engarrafadora da Coca-Cola do Usbequistão, que pertencia em parte a seu marido, até eles se divorciarem e os tribunais usbeques confiscarem a parte dele. Em julho, dirigentes da operadora de telefonia móvel russa MTS alegaram que Karimova estava por trás da compra de controle hostil da filial usbeque da companhia, Uzdunrobita. A filial pertenceu a Karimova até 2004, quando ela a vendeu à MTS.

Agora que a empresa tem um valor aproximado de US$ 1 bilhão e detém cerca de 40% do mercado móvel do Usbequistão, executivos da MTS se queixaram que elites do regime, em especial Karimova, estão ávidas para expropriá-la, usando para isso táticas típicas do Estado (por exemplo, violações de licenças e fiscais). O confisco usbeque incomodou de tal forma as autoridades russas que se tornou o principal tópico das conversas telefônicas entre os chanceleres dos dois países em agosto.

Dadas suas atividades empresariais controvertidas, Karimova atuou, surpreendentemente, como agente de relações públicas internacionais para o regime de seu pai, uma missão difícil para um governo com uma merecida reputação de massacrar manifestantes e envolver-se em táticas de tortura que, conforme algumas denúncias, incluíram cozinhar pessoas vivas.

Karimova preside o Fórum das Artes e Cultura da Fundação Usbequistão, conhecido como Fund Forum, cujos projetos incluem festivais de arte e cultura com talentos escolhidos a dedo por Karimova, bem como a campanha dos mil casamentos e a Style.uz Art Week - uma versão local da Semana de Moda de Nova York.

Azerbaijão. A família presidencial fez fortuna no lucrativo setor de petróleo do país. Durante o governo do presidente Heydar Aliyev, um ex-chefe da KGB que tomou o poder em 1993, seu filho Ilham foi vice-presidente da companhia estatal de petróleo Socar, que controla as reservas de petróleo do país, estimadas em 7 bilhões de barris. Quando Heydar morreu, em 2003, a presidência passou para Ilham numa eleição estritamente controlada. A Socar continua sendo uma empresa estatal, apesar das tentativas de investidores estrangeiros de persuadir governantes do Azerbaijão a um acordo de privatização com subornos. O fundo de riqueza soberana que recebe as receitas de petróleo do Azerbaijão é controlado basicamente pelo presidente e a própria Socar criou subsidiárias e fornecedoras com estruturas de propriedade privada opacas.

A lei do Azerbaijão proíbe funcionários do governo, incluindo o presidente, de possuir empresas, mas não existe uma restrição dessas a membros da família presidencial. Uma série investigativa recente da Radio Free Europe revelou uma longa lista de empresas em paraísos fiscais e propriedades de luxo registradas em nomes de filhos de Ilham Aliyev. Por exemplo, suas filhas, Leyla e Arzu Aliyeva, de 27 e 23 anos, respectivamente, estão literalmente sentadas numa mina de ouro.

Como Karimova, Leyla procurou melhorar a imagem da família - manchada por repressões violentas à oposição e o encarceramento de blogueiros e jornalistas críticos - mediante atividades humanitárias. Ela é vice-presidente da Fundação Heydar Aliyev (HAF), uma organização "não governamental" dedicada a ciência, tecnologia, saúde e educação. A HAF foi criada pela mãe de Leyla, a primeira-dama Mehriban Aliyeva.

Casaquistão. Governado pelo presidente Nursultan Nazarbayev desde a queda da União Soviética, as três filhas do presidente do Casaquistão também gozam de um significativo poder político e financeiro. Nazarbayev teve a má sorte de ter apenas filhas, o que, na cultura tradicional do Casaquistão, o obrigava a depender pesadamente dos genros para construir a fortuna da família - ao menos até eles não mais gozarem do seu favor.

A filha mais velha do presidente, Dariga, é mais conhecida por seu trabalho no Parlamento, onde chefiou seu próprio partido político até ele se fundir com o de seu pai, Nur Otan, em 2006. Ela saiu da berlinda por alguns anos após seu então marido, Rakhat Aliyev - empresário, funcionário público e ex-sócio do bilionário magnata do petróleo Rashid Sarsenov - foi obrigado a se exilar em 2007 e condenado à revelia por tramar um golpe de Estado, uma acusação que ele negou. Dariga e Aliyev se divorciaram e o papel dele nos negócios da família foi dissolvido.

Ela, porém, continua multimilionária. Até 2010, Dariga detinha uma participação majoritária na Nurbank, a nona maior instituição de empréstimos do Casaquistão, com seu filho Nurali. Em 2012, ela ficou em 13.º lugar na lista dos casaques mais ricos da revista Forbes com uma fortuna estimada em US$ 585 milhões. Nurali foi o casaque mais novo na lista, na 25.ª posição, com US$ 190 milhões. Como sinal do perdão de seu pai, neste ano Dariga retomou também suas atividades políticas como presidente do Nur Otan.

Em 1998, aos 18 anos, Aliya - a filha caçula do presidente - casou-se então com Aidar, o filho mais velho do presidente do Quirguistão, Askar Akayev. Na época, o casamento foi celebrado como a primeira união dinástica da Ásia Central, refletindo a tradição regional de solidificar relações políticas mediante laços familiares. O casal divorciou-se pouco depois e, em 2002, Aliya casou-se com o empresário Daniyar Khassenov, uma figura mais retraída.

Quirguistão. Por vezes, mesmo quando líderes autocráticos são removidos do poder, o poder econômico de seus filhos persiste. No caso do Quirguistão, o presidente autoritário Kurmanbek Bakiyev foi deposto em 2010, mas o novo governo ainda está batalhando para recuperar ativos estatais que diz que foram levados para fora do país pelo maior banco local, o AsiaUniversalBank (AUB), que alegadamente se engajou na lavagem de centenas de milhões de dólares em transações suspeitas antes da remoção de Bakiyev.

Tomadas em conjunto, as atividades econômicas, culturais e humanitárias de famílias presidenciais nos Estados autoritários da Eurásia sugerem que muitos delas vieram a considerar a riqueza de seus países como propriedade pessoal. Elas ocultam as origens de suas riquezas e poder e tentam ganhar aceitação entre as elites de países democráticos imitando toscamente empresas e interesses filantrópicos legítimos.

Apesar das especulações de que alguns membros dessas famílias presidenciais estão sendo preparados para a presidência, os planos concretos para a sucessão continuam e alguns figurões do regime podem se opor a uma transferência dinástica do poder. Nesse sentido, os rebentos presidenciais podem ter bons motivos para se divertir enquanto podem. Espera-se que o restante do mundo seja menos míope. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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