As Farc e a vitória da Colômbia

Abatido a tiros na selva da Colômbia na semana passada, o líder guerrilheiro Alfonso Cano estava irreconhecível. Foram-se a barba espessa, a pistola na cintura e a farda camuflada. No calor da fuga, perdera os óculos, sua carteira e até a dentadura.

É CORRESPONDENTE DA , REVISTA NEWSWEEK NO , BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE , WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É CORRESPONDENTE DA , REVISTA NEWSWEEK NO , BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE , WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h04

Cego, tosado, banguela e desarmado. Foi um fim pobre e ao mesmo tempo perfeito para o supremo comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a banda armada que atormenta Colômbia há décadas, agora reduzida a trapos.

"As Farc e sua carreira absurda de violência estão a ponto do fim", anunciou o presidente Juan Manuel Santos. O conflito sangrento que aflige o país por três gerações, no entanto, não terminou.

A guerrilha mais longeva do Hemisfério Ocidental pode ainda ressuscitar e, seja inteira ou em grupelhos menores, provocar estragos, como já fez tantas vezes antes.

No entanto, a morte de Cano, o quinto líder da guerrilha a tombar em combate, é um marco no esforço colombiano de refazer esse país de 45 milhões de habitantes que vive sob o jugo de bandidos com bandeiras há quase meio século.

É fácil de se esquecer, mas há pouco mais de uma década, a Colômbia estava quase de joelhos. As Farc e um punhado de bandos rivais pareciam intocáveis, nutridos por corrupção em casa e dinheiro, armas e admiração de diversos grêmios e nações fora da lei.

Com 20 mil insurgentes, chegaram a controlar um terço do território colombiano, de onde promoviam assassinatos, atentados e sequestros, enquanto a elite política do país só esperneava.

O contragolpe veio com Álvaro Uribe, político durão que aboliu as negociações com os rebeldes ("terroristas", segundo ele) e quebrou o tabu latino-americano contra os EUA, aceitando armas e dinheiro de Washington.

Durante oito anos, Uribe travou uma guerra incondicional, perseguindo os insurgentes na Colômbia e fora dela, onde frequentemente se recolhiam, com a vista grossa dos companheiros bolivarianos da Venezuela e do Equador.

Na batalha pela Colômbia, os inocentes é que pagaram mais caro. Escandalosamente, no caso dos falsos positivos, em que as forças de segurança vestiam os corpos de camponeses assassinados com fardas da guerrilha, apresentando-os como baixas inimigas. Batalha a batalha, porém, as Farc sangravam e definhavam. Vitória de Uribe e de seu ministro de Defesa, Juan Manuel Santos.

A paz rebocou a prosperidade. A Colômbia, outrora terra de ninguém, deve atrair US$ 11,4 bilhões de investimento externo este ano. Segundo o Banco Mundial, ela está entre "os dez países que mais melhoraram" seu ambiente de negócios no mundo. O guindaste de obra ameaça destronar o condor como ave nacional.

Melhor para Santos, que surfou nas conquistas de Uribe, ganhando de lavada nas eleições de 2010. Desde então, padrinho e apadrinhado se estranham cada vez mais e, ultimamente, segundo relatos, sequer conversam.

Claro, há divergência políticas. Uribe ostentava sua relação especial com os EUA e não perdia a oportunidade de tourear com Hugo Chávez, seu arqui-inimigo venezuelano. Santos procurou Chávez para desempacar o comércio bilionário bilateral, paralisado pela guerra entre Bogotá e Caracas.

Com Washington, que recusava (até o mês passado) ratificar um tratado de livre comércio com Bogotá, ele rebaixou o tom da diplomacia de esfuziante para cordial e ainda acenou para novos amigos na China. Mais grave, Santos reclassificou a campanha contra as Farc como "conflito armado interno", e não mais uma "guerra contra o terror", como quis Uribe. Ele ainda propôs a Lei de Reparação de Vítimas, que indenizava os mortos no conflito, tanto da guerrilha quanto das forças de segurança - uma proposta polêmica, já que parecia nivelar abusos da bandidagem com os das forças da lei.

Enquanto digladiavam os caciques políticos, as Farc despertavam, provocando uma nova onda de assaltos e atentados - entre eles uma emboscada que matou 20 soldados no mês passado.

No entanto, para quem imaginou que Santos fosse abandonar a toada uribista e acomodar-se, o ataque de novembro foi uma resposta eloquente. A batalha pela Colômbia continua. O fato de que tenha chegado onde chegou, porém, decapitando a guerrilha mais temida da América Latina, já é uma vitória colombiana. O resto não passa de esperneio político.

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