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As gafes do líder palestino

Há sempre alguma apreensão quando o chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, fala

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 05h00

Há sempre alguma apreensão quando o chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, fala. Este foi o caso no dia 30, durante discurso ao Parlamento da OLP (Organização de Libertação da Palestina), em Ramallah. Ele até teve o cuidado de dobrar a dose: em um discurso, duas gafes.

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A primeira: ele disse que as perseguições sofridas pelos judeus da Europa na Idade Média não são explicadas pelo “ódio antissemita” dos europeus, mas pelo talento desenvolvido pelos judeus na arte bancária e no gosto que eles têm pela usura. Esta afirmação não é original. É um dos “lugares-comuns” do mais trivial antissemitismo. Dura desde a Idade Média. Muitas vezes se associaram caricaturas de um judeu com os dedos em gancho. No Renascimento, o grande Shakespeare pega esse tema, dando em O Mercador de Veneza o retrato do judeu usurário Shylock que se tornará o arquétipo do judeu ávido por moedas de ouro.

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A segunda afirmação de Abbas é de maior alcance. Ele alega que os judeus asquenazes, isto é, aqueles que constituíram a diáspora judaica na Europa (Polônia, Rússia, etc.) e são os mais numerosos, que também são no início a força motriz do sionismo (o criador Theodor Herzl, depois os pioneiros Ben Gurion, etc.) não são judeus. Eles são cazares.

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A diatribe de Abbas levantou muita raiva: ONU, União Europeia, França, etc. ficaram indignados. Deve-se dizer que afirmação de Abbas não é uma novidade. É uma tese que circula há um longo tempo e tem sido defendida por pessoas notáveis, incluindo israelenses, como o professor Adams Poliak, da Universidade de Tel-Aviv, ou escritores conhecidos e respeitados, como Arthur Koestler ou Benjamin Freedman.

Que tese é essa? Ela afirma que os asquenazes são cazares, um povo nômade que ocupou o sul da Rússia e da Ucrânia e vivia de assaltos e pilhagens. No século VII (outros dizem no século VIII), os cazares se sentem divididos entre o Império Romano do Oriente (Constantinopla) e as conquistas históricas de Maomé. O rei dos cazares teria escolhido uma terceira via: o judaísmo.

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É preciso fazer uma escolha entre as duas teses? Os asquenazes formam um ramo da diáspora judaica e são judeus. Ou talvez, eles não sejam judeus. São um povo do Cáucaso que escolheu se tornar judeu no século VIII. É claro que não pretendo conhecer toda a verdade, tomar partido para um ou outro, porque não tenho competência nesses assuntos. Além disso, quer escolhamos uma ou outra tese, teremos contra ou a favor bandos de rabinos exasperados, tribos de turcos, cortes de acadêmicos. Então, silêncio. Essa informação deve ser usada apenas para esclarecer os problemas políticos de Israel hoje.

É fácil entender que esta tese rejeita a versão oficial que alega que todas as populações atuais de Israel são descendentes das doze tribos da Bíblia. Mas aqui, de repente, alguns, incluindo Abbas, afirmam que esta é uma fábula e a maioria dos habitantes atuais de Israel não são judeus, mas algum tipo de turcos. Os asquenazes, que em Israel são de longe o maior e mais ativo componente do país, perderiam seu caráter judaico da Bíblia. Doloroso.

É curioso que esta controvérsia de longa data ressurja da boca do líder dos palestinos hoje, ou seja, num momento em que o governo dos EUA mudará sua embaixada que está em Tel-Aviv, para Jerusalém, arruinando na verdade, as esperanças daqueles que gostariam de impor a tese das duas Palestinas.

Deve-se notar que os defensores da origem caucasiana dos asquenazes já estabeleceram listas dos famosos judeus cazares. No primeiro escalão, os Rotschild e os Rockefeller. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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