As guerras que os EUA esqueceram

Discussões relacionadas às eleições nos EUA deixam de fora questões ligadas ao Iraque e ao Afeganistão

Tom Brokaw / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

No que promete ser a eleição de meio de mandato mais disputada desde 1994, não falta paixão sobre as grandes questões que o país enfrenta: o lugar e a natureza do governo federal no futuro dos EUA, dívida pública, emprego, saúde, a influência de interesses especiais e o papel de movimentos populistas como o Tea Party.

Em quase toda corrida para o Congresso, essas são as questões que explodem em anúncios de ataque, contagem de pontos em debates e talk shows da TV a cabo. Em cada nova pesquisa de opinião, essas são as questões que os eleitores dizem ser as mais importantes para eles neste ano.

Notam alguma coisa faltando no cenário da campanha? E a guerra? Os EUA estão em seu nono ano de combate no Afeganistão e no sexto no Iraque, o período de guerras mais longo da história americana. Quase 5 mil homens e mulheres foram mortos. Mais de 30 mil foram feridos. Nesses nove anos, os EUA gastaram mais de US$ 1 trilhão em operações de combate e outras partes do esforço de guerra, incluindo ajuda externa, projetos de reconstrução, custos de embaixadas e assistência médica a veteranos. E o fim não está à vista.

Por que então as guerras e suas consequências humanas e econômicas não se destacam nesta campanha ao lado de empregos e impostos? A resposta é muito provavelmente que a imensa maioria dos americanos acorda todos os dias preocupada, por boas razões, com a segurança de sua economia, mas pode se esquivar da convocação às armas. A menos que estejam alistados nos serviços armados - ou tenham um membro da família engajado -, nada mais lhes é pedido para o esforço de guerra.

Os serviços uniformizados somente de voluntários representam hoje menos de 1% da população americana, mas empreendem 100% das batalhas. De mais a mais, a maioria dos uniformizados vem da classe trabalhadora ou da classe média. As unidades da Guarda Nacional e as forças de reserva que foram convocadas, algumas para mais de um período, retiram seu pessoal principalmente dos trabalhadores de primeiros socorros, além de trabalhadores agrícolas, fabris e de serviços.

Enquanto as campanhas trocam acusações de bruxaria, socialismo, ganância, radicalismo (em ambos os lados), combatentes e suas famílias têm o direito de perguntar; "E nós?"

Se esta é uma eleição sobre uma nova direção para o país, por que algum candidato não fala de sacrifícios na frente doméstica iguais aos das linhas de frente? Isso não diz respeito apenas a famílias de militares, por mais importante que sejam. Todos nos beneficiamos de uma campanha que envolveu a pergunta incômoda do que vem em seguida no longo e até agora não resolvido esforço para enfrentar a ira islâmica.

Nenhuma decisão é mais importante do que a de comprometer um país com a guerra. Isso tem a ver, como os políticos gostam de dizer, com nosso sangue e riqueza. Sangue e riqueza merecem, com certeza, mais atenção do que estão recebendo. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE ESPECIAL DA NBC NEWS

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