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As guerras sírias

Há mais de dois anos, a guerra civil grassa na Síria, onde as forças do governo de Bashar Assad combatem os insurgentes, os jovens, os pobres, os desesperados que se revoltaram contra o regime tirânico e violento de Damasco. O problema é que hoje não há mais uma única guerra na Síria. Há duas ou mesmo três e, quem sabe, quatro.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h13

Há a guerra civil, evidentemente, a principal, de Bashar Assad contra o seu povo. Mas, além disso, no interior de cada campo, formaram-se diversos clãs, facções inimigas, embora em cada um deles haja outras guerras internas - e, frequentemente, tão cruéis e tão sangrentas quanto a travada por Bashar Assad contra os rebeldes que o combatem. Esse fato aconteceu na semana passada num reduto nas mãos dos rebeldes, no nordeste da Síria. Ali, circula com seus homens um dos chefes do Exército Sírio Livre, Abou Bassir.

A certa altura, ele se defrontou com um bloqueio montado na estrada pelo Estado Islâmico do Iraque, uma ramificação da rede Al-Qaeda. Bassir se enfureceu, e exigiu que o bloqueio fosse retirado imediatamente. Um homem do atirou e, atingido pelos disparos, Bassir morreu.

Bassir e os que o abateram pertencem ao mesmo campo na guerra civil da Síria: eles querem o fim da ditadura de Bashar Assad.

Mas, enquanto Bassir é sírio e pertence ao grupo dos rebeldes que há dois anos se levantaram sem armas contra a ditadura de Bashar Assad, aqueles que o assassinaram não são sírios. Esses assassinos são jihadistas, fanáticos defensores da guerra santa. Originários principalmente do Iraque, do Paquistão, do Irã ou de algum outro lugar, também querem abater Bashar Assad, mas não para substituir a tirania por uma democracia e sim para tornar a Síria uma província do vasto "califado" islâmico que sonham estabelecer de Cabul ao Cairo e até Casablanca.

Repetição. O que assusta é que essa execução, espetacular até, não é um caso isolado. No início de junho, um menino de 15 anos foi assassinado em público pelos jihadistas de Alepo por ter pronunciado o nome de Maomé com ironia.

Há alguns dias, numa zona próxima à Turquia, o Estado Islâmico do Iraque atacou grupos do Exército Sírio Livre, deixando mais de dez mortos.

No início da insurreição contra o regime de Bashar Assad, os rebeldes, que não tinham armas nem experiência, acolheram de braços abertos os jihadistas estrangeiros que dispunham de bons armamentos, eram treinados e demonstravam uma coragem extrema.

Mas, muito rapidamente, os sírios do Estado Islâmico do Iraque foram sobrepujados pelos jihadistas. Hoje, a presença desses fanáticos gerados pela Al-Qaeda no território da Síria faz explodir a rebelião no país inteiro.

Tais confrontos no interior do campo contrário a Bashar Assad são perigosos. Eles vêm se multiplicando desde que, há algumas semanas, as forças de Bashar Assad melhoraram suas posições e retomaram a iniciativa em várias regiões.

As tropas do regime também ganharam novo fôlego com a participação aberta dos milicianos xiitas do libanês Hezbollah, que anunciou apoio tanto moral quanto efetivo a Bashar Assad, enviando homens para combater em território sírio.

Não surpreende que Bashar Assad faça de tudo para aprofundar o fosso que opõe, entre os seus inimigos, os sírios aos estrangeiros da Al-Qaeda. Os integrantes dos seus serviços especiais têm ampla experiência nesse campo. Eles manipulam diabolicamente os grupos islamistas da região. Há alguns anos, haviam permitido que centenas de "camicazes" atravessassem a fronteira sírio-iraquiana e fossem se explodir no Iraque contra os americanos.

Dilema. Os desdobramentos dessa guerra fratricida entre os democratas e os fanáticos no conflito sírio apresenta mais um inconveniente, dramático.

Em razão da presença dos jihadistas, Grã-Bretanha e França e, por fim, também os Estados Unidos, finalmente desistiram de enviar armamento pesado aos rebeldes sírios. Entre as potências, há temor de que os carregamentos, que serviriam para reforçar o combate ao regime de Bashar Assad, acabem por cair nas mãos de terroristas islamistas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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