Alfredo Estrella/AFP
Alfredo Estrella/AFP

As horríveis mortes de uma mulher e uma menina chocam o México e são um teste para o seu presidente

Críticos consideram a resposta de López Obrador aos casos de violência contra mulheres muito aquém do que se espera

Kirk Semple e Paulina Villegas / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2020 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - O brutal assassinato este mês de uma mulher e de uma menina no México chocou a nação e provocou uma onda de indignação pontuada por protestos quase diários, uma fúria descontrolada na mídia social e intensificou as demandas para o governo adotar medidas eficazes contra a violência baseada em gênero.

A mulher, Ingrid Escamilla, 25 anos, foi esfaqueada, esfolada e teve seu corpo desmembrado, e a menina, Fátima Cecilia Aldrighett, 7 anos, foi raptada da escola e seu corpo encontrado depois num saco plástico. O clamor provocado pelas mortes está forçando um acerto de contas num país há muito tempo assolado pela violência contra as mulheres, opinam analistas e ativistas.

E também é um importante teste de liderança para o presidente Andrés Manuel López Obrador, e para os críticos, que consideram sua resposta anêmica e insensível e condescendente, ele está muito aquém do que se espera.

Xóchitl Rodoríguez, membro do grupo ativista feminista Feminasty, afirmou estar profundamente decepcionada com a resposta do presidente, que durante sua campanha se apresentou como uma figura que transformaria o país e defenderia as populações marginalizadas.

“Ele deveria representar uma mudança, mas acabamos vendo que não”, disse ela. “O fato de você acordar pela manhã e o seu presidente não o tranquilizar com medidas para enfrentar o problema, é ultrajante”, disse ela.

Em 2019 o governo mexicano registrou 1.006 incidentes de feminicídio, assassinato de mulheres e meninas por causa do seu gênero - um aumento de 10% em relação a 2018. O número total de mulheres que morrem de modo violento no México também cresceu, chegando a 10 mortes por dia em 2019, comparados com 7 por dia em 2017, segundo o escritório da ONU Mulheres no México.

“As mulheres exigem uma mudança de paradigma, nada menos do que isto”, afirmou Estefania Vela, diretora executiva da Intersecta, grupo baseado na Cidade do México que promove a igualdade de gênero. “Não são apenas hashtags. Existem estudantes protestando nas universidades e mães exigindo justiça para suas filhas."

Mas López Obrador parece ter dificuldade para saber como reagir ao problema.

'Questão manipulada pela mídia'

Falando em uma das suas regulares entrevistas coletivas, na semana passada, ele se irritou com perguntas feitas por jornalistas sobre feminicídio e tentou levar a conversa para seu anúncio de que o governo havia recuperado mais de US$ 100 milhões em mãos de criminosos e que o dinheiro seria canalizado para as comunidades pobres.

“Veja, não quero que o tema seja apenas feminicídio. Esta questão tem sido muito manipulada na mídia”, disse ele.

E, na segunda-feira, indagado sobre a morte de Fátima, ele culpou o que chamou de “políticas liberais” dos seus predecessores pelos casos de feminicídio.

Segundo López Obrador, a sociedade mexicana “entrou num declínio, um processo de degradação progressiva que tem a ver com o modelo neoliberal”.

Em meio à escalada da violência e a ausência do que é considerada uma resposta eficaz do governo, o movimento de protesto feminista ganhou ímpeto no ano passado e se tornou mais violento, com alguns manifestantes quebrando vidraças das delegacias de polícia e grafitando monumentos.

Na última sexta-feira, esses manifestantes, entre eles muitas mulheres, grafitaram com spray as fachadas da entrada principal do Palácio Nacional, com as palavras “Estado Feminicida”.

Uma senadora do Partido Ação Nacional, Josefina Vásquez Mota, apresentou proposta no Senado para criar uma comissão especial para monitorar os processos de feminicídios contra menores.

Mas López Obrador tem agido com desdém, opinam as pessoas. Para as mulheres que grafitaram o Palácio Nacional com pedidos de mudança, por exemplo, ele disse: “Peço às feministas, com o devido respeito, para não pintarem as portas e as paredes. Estamos trabalhando para que não haja nenhum feminicídio”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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