As ideias que formam a nova Índia

Podemos considerá-lo um país jovem, que começou a se abrir há apenas 20 anos, apesar de ter sido criado em 1947

Anand Giridharadas, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Este ano marcará o 20.º aniversário desta coisa amorfa e bruxuleante, a nova Índia. Assim como a China, a África do Sul e outros países renovados, a Índia tem mais de uma data de nascimento. Há aquela hora no meio da noite em 1947 em que Jawaharlal Nehru proclamou o fim do domínio britânico e falou do "encontro com o destino" da Índia. Mas a nova Índia é mais facilmente associada às mudanças promovidas a partir de 1991, quando o país começou a abrir suas portas para o mundo e afrouxar os controles econômicos sobre seus próprios cidadãos.

A Índia é uma civilização antiga, mas, de muitas maneiras, o país pode ser considerado jovem, com apenas 20 anos de idade. Ele caminha com a desenvoltura de uma nação que ainda não chegou a seus melhores dias.

O país tem o senso de impunidade dos jovens. Como muitos de 20 anos, a Índia exibe simultaneamente a petulância de não precisar de ninguém e a fome de reconhecimento daqueles que alega não precisar.

Quem é essa nova Índia? Seu caráter está ficando cada vez mais nítido, e estão ficando cada vez mais claras as ideias que moldaram seu ressurgimento. Apresento, com base em meus anos de viagens ao país e às reportagens que fiz sobre ele, cinco ideias que muito contribuíram para tornar a nova Índia nova - de um conjunto maior de ideias que poderiam ser mencionadas.

Classe é uma situação. Toda sociedade tem distinções de classe. Mas numa Índia anterior, essas distinções eram consideradas intrínsecas, eternas e herdáveis; classe não era circunstância, era identidade. O antigo sistema de castas era o símbolo mais evidente dessa ideia. Mas ela tinha muitas expressões mais sutis, também.

Os empresários faziam questão de observar hierarquicamente que "ele veio me encontrar" ou "eu fui encontrá-lo" em vez de simplesmente dizer "nós nos encontramos". Garçons curvavam-se e exageravam na palavra "senhor" ou "sahib" quando serviam.

Um grupo crescente de jovens indianos concebe classe de maneira muito diferente: não uma identidade fixa, mas uma situação transitória, e uma situação que pode mudar.

Uma cama é para dois. Em muitas casas tradicionais indianas, a cama não era apenas para dormir. Era uma espécie de centro comunitário. Famílias inteiras sentavam-se e faziam refeições, planejavam casamentos, assistiam televisão, brigavam, amavam e fofocavam em camas.

Esse comportamento representa um certo modo de ser da família que está desaparecendo na Índia. Antes, os jovens viam-se como parte de seu clã, mas agora eles se identificavam cada vez mais como indivíduos.

Eles mantêm a fé na família como apólice de seguro e rede de apoio, mas muitos acabam vendo a família como um obstáculo à conquista de seus sonhos.

Um a um, eles estão deixando de ver membros da família como modelos do que poderiam se tornar; e deixando, por bem ou por mal, de acreditar na economia da culpa e do sacrifício que tradicionalmente manteve unidas as famílias indianas.

Estão começando a acreditar, em suma, que a melhor atitude para a felicidade familiar é cada um cuidar de si e não todos cuidarem de todos.

Inglês é passado. Quando se viaja hoje pela Índia é fácil concluir à primeira vista que ela é fissurada pela língua inglesa. A cada poucos quilômetros nas autoestradas, e mesmo nas estradas vicinais do país, há cartazes anunciando aulas de inglês - algumas ensinando de modos mais duvidosos que outras.

Mas há nisso um segredo: os indianos são apaixonados por aprender inglês, mas não querem mais ser ingleses. E a distinção é muito importante.

Por muito tempo depois que os britânicos saíram, em 1947, eles deixaram uma ressaca para trás. As elites de pele parda que assumiram o poder queriam se parecer com as elites de pele branca que tinham partido.

Mas, nas duas últimas décadas ocorreu uma mudança nas leis de conduta. Hoje, uma nova geração da elite sente-se bem menos desconfortável em ser indiana. Seus sotaques são abertamente indianos, assim como seus gestos, sua fala híbrida de hindi e inglês e seu gosto por filmes de Bollywood. Eles parecem incapazes de imaginar um destino mais feliz que o de ser indiano.

Plástico é melhor que ouro. A substância que outrora definia dinheiro na Índia era o ouro, que representava solidez e segurança. Mas ele também revelava uma cultura que temia o futuro e buscava se proteger dele.

Era uma cultura que via a riqueza das pessoas como o valor atual do que elas haviam economizado até ali, vendo o futuro mais como uma ameaça do que como uma oportunidade.

Hoje, o plástico está substituindo o ouro como a substância à qual os indianos mais associam ao dinheiro. Isso é mais que uma questão financeira. Passar o cartão de crédito na máquina em vez de acumular ouro é uma aposta psicológica no futuro e não uma proteção contra ele.

É valorizar a própria riqueza como o valor presente de ganhos futuros, não passados, na suposição de que o futuro só aprimorará o presente.

A modernidade é o tradicional

melhorado. As mudanças ocorreram sem interrupção em muitas partes do mundo em desenvolvimento. A Índia é muito recriminada por se modernizar muito lenta e caoticamente. Mas talvez haja uma outra maneira de ver sua jornada nos últimos 20 anos: como um modelo diferente de modernização.

Trata-se de um modelo de avanço em que o passado mantém a vantagem e o futuro fica na defensiva. A mudança, por mais inevitável que possa parecer, precisa ser provada antes de poder funcionar na Índia.

Mas o modelo indiano é mais do que apenas cauteloso. Ele supõe, contra todas as probabilidades, que o tradicional e o moderno são, no limite, compatíveis.

O que está surgindo é uma espécie de modernidade situacional, em que há um tempo para ligações casuais e um tempo para casamentos arranjados, um tempo para pertencer a uma tribo maior e um tempo para o isolamento e o eu. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É AUTOR DE "INDIA CALLING: AN INTIMATE PORTRAIT OF A NATION"S REMAKING", PUBLICADO EM JANEIRO PELA TIMES BOOK

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