As ilusões americanas lá embaixo

O modelo econômico dos EUA não funciona para a maioria dos habitantes do país - e o governo australiano tem a obrigação de perceber esses erros

Joseph E. Stiglitz, Project Syndicate/O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2014 | 02h01

Para melhor ou para pior, os debates sobre política econômica nos Estados Unidos costumam encontrar repercussão pelo mundo, independentemente de sua relevância. O governo do primeiro-ministro australiano, Tony Abbott, recentemente eleito, é um desses casos. Como em muitos outros países, os governos conservadores defendem os cortes dos gastos oficiais, justificando-os com a ameaça dos déficits para seu futuro. Mas, no caso da Austrália, essas afirmações soam particularmente vazias - embora isso não tenha impedido o governo de Abbott de barganhar com elas.

Mesmo que as pessoas aceitem a afirmação dos economistas de Harvard Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, de que patamares da dívida pública muito elevados significam um crescimento menor - conceito que na realidade eles nunca estabeleceram de fato e posteriormente foi desacreditado -, a Austrália não chegou a esse limite. Sua relação dívida/PIB é apenas uma fração da dos EUA e uma das menores entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Mais importantes para o crescimento no longo prazo são os investimentos no futuro - como os investimentos públicos fundamentais para educação, tecnologia e infraestrutura. Esses investimentos garantem que todos os cidadãos, independentemente de seus pais serem pobres, realizem seu potencial.

É muito irônica a reverência de Abbott pelo modelo americano na defesa de muitas das "reformas" propostas pelo governo. Afinal, o modelo econômico dos EUA não funciona para a maioria dos americanos. Hoje, a renda mediana nos EUA é inferior à de 25 anos atrás - não porque a produtividade estagnou, mas porque os salários estagnaram.

O modelo australiano permitiu resultados muito melhores. Na realidade, a Austrália é uma das poucas economias com base em commodities que não sofreu com a maldição dos recursos naturais. A prosperidade tem sido relativamente compartilhada por grande parte da sociedade. Nas últimas décadas, a renda mediana de um domicílio cresceu a uma média anual acima de 3% - cerca do dobro da média da OCDE.

Evidentemente, considerando a abundância de recursos naturais, a Austrália deveria ter uma igualdade muito maior. Afinal, os recursos naturais de um país deveriam pertencer a todo seu povo - e a "renda" por eles gerada deveria representar uma fonte de recursos a ser utilizada para reduzir a desigualdade. E taxar a receita produzida pelos recursos naturais a índices elevados não provoca as consequências adversas que decorrem da taxação das poupanças ou do trabalho (as reservas de minério de ferro e gás natural não podem ser transferidas para outro país a fim de evitar a tributação). Mas o coeficiente Gini da Austrália (a medida da desigualdade) é 33% superior ao da Noruega, país rico em recursos que administra muito bem sua riqueza em benefício de todos os cidadãos.

Será que Abbott e seu governo compreendem realmente o que está acontecendo nos EUA? Será que ele se dá conta de que, desde a época em que teve início a desregulamentação e a liberalização, no final dos anos 70, o crescimento do PIB reduziu consideravelmente seu ritmo e o crescimento registrado beneficiou fundamentalmente os que estão no topo da pirâmide? E ele sabe que, antes destas "reformas", os EUA não registraram uma única crise financeira - hoje uma ocorrência regular em todo o mundo - durante meio século e a desregulamentação inflou o setor financeiro atraindo muitos jovens talentosos que, em outras circunstâncias, poderiam ter orientado suas carreiras para atividades mais produtivas? Suas inovações na área de finanças os tornaram extremamente ricos, mas, por outro lado, levaram os EUA e a economia global à beira da ruína.

Os serviços públicos da Austrália são motivo de inveja no mundo todo. Seu sistema de saúde produz melhores resultados do que o dos EUA, por uma fração do custo. O país tem um programa de empréstimos para a educação que leva em conta a renda e permite aos que aderem a ele programarem seu pagamento num prazo mais longo, se necessário, e no qual, caso sua renda seja particularmente baixa (por exemplo, porque eles escolheram empregos importantes, mas com salários baixos na educação ou na religião), o governo perdoe parte da dívida.

Dívida estudantil. O contraste com os EUA é impressionante. Nos EUA, a dívida dos estudantes, hoje superior a US$ 1,2 trilhão (maior que toda a dívida contraída com cartões de crédito), está se tornando um grande ônus para os recém-formados e para a economia. O modelo financeiro falido dos EUA para a educação superior é uma das razões pelas quais, agora, no país existe a menor igualdade de oportunidades, com as perspectiva, para um jovem americano, de depender mais da renda e da educação dos seus pais do que em outros países avançados.

As ideias de Abbott sobre educação superior sugerem também que ele não compreende claramente por que as melhores universidades dos EUA são bem-sucedidas. Não foi a concorrência de preços ou a ambição de lucros maiores que fizeram a grandeza de Harvard, Yale ou Stanford. Nenhuma das grandes universidades americanas é uma instituição que visa ao lucro, sejam elas públicas ou financiadas por grandes verbas, doadas em grande parte por ex-alunos e fundações.

Existe concorrência, mas de tipo diferente. Elas lutam pela inclusão social e pela diversidade. Competem pelas verbas que o governo destina à pesquisa. As universidades americanas voltadas para o lucro e pouco regulamentadas excedem em duas dimensões: a capacidade de explorar os jovens provenientes de classes pobres, cobrando altas taxas sem lhes oferecer algo de valor, e a capacidade de fazer lobby por verbas oficiais sem regulamentação, para continuarem suas práticas de exploração.

A Austrália deveria se orgulhar de seus sucessos, cujo exemplo seria muito útil ao restante do mundo. Seria uma pena se o desconhecimento do que ocorreu nos EUA, somado a uma forte dose de ideologia, levasse seus líderes a consertar o que não precisa de conserto. / Tradução de Anna Capovilla

* Joseph E. Stiglitz é prêmio Nobel de Economia, professor da Universidade Columbia e escritor

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.