As incertezas e o pós-colonialismo no Oriente Médio

Países criados artificialmente estão desmoronando

É EX-CHANCELER DE ISRAEL, VICE-PRESIDENTE DO CENTRO INTERNACIONAL PARA A PAZ DE TOLEDO, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE, É EX-CHANCELER DE ISRAEL, VICE-PRESIDENTE DO CENTRO INTERNACIONAL PARA A PAZ DE TOLEDO, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h04

As revoluções que varreram o mundo árabe nestes últimos dois anos revelaram a extraordinária fragilidade dos principais países árabes. Com exceção de nações históricas, como Egito e Marrocos, a maioria das outras é formada por criações artificiais, produtos do colonialismo europeu, que juntou tribos e etnias diferentes em Estados unitários que só conseguiram manter-se por meio de um governo autoritário e um inimigo comum - o sionismo e seus patrocinadores ocidentais.

O torvelinho dos dias atuais não é mais provocado pela revolta contra as forças estrangeiras, mas constitui a segunda fase do processo de descolonização, a afirmação do direito de autodeterminação dos povos e de tribos unidos somente pelo jugo ditatorial. Na realidade, não é absolutamente inverossímil antecipar o surgimento de novos Estados árabes a partir dos escombros dos antigos Estados artificiais. A invasão americana do Iraque estabeleceu o modelo, pois quebrou o poder do governo central e dos enclaves étnicos e religiosos.

O que ocorreu na Iugoslávia, projeto mal concebido da diplomacia wilsoniana, aconteceu nas criações imperiais mais falsas do Oriente Médio. O que Sigmund Freud definiu como "o narcisismo das pequenas diferenças" fez com que a Iugoslávia se dividisse em vários Estados pequenos (como Kosovo), depois do conflito mais sangrento da Europa desde a 2.ª Guerra.

Conseguirão os países árabes evitar um destino semelhante? A democratização no mundo árabe não prevê apenas a derrubada dos ditadores, mas também a modificação do mapa político e étnico da região, que foi motivo de tanta insatisfação entre os grupos minoritários. É o caso dos curdos, que se dividiram entre Iraque, Turquia, Síria e Irã.

Mas o caso curdo não é o único. A Líbia foi criada pela justaposição de três antigas colônias italianas, Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan, cada uma das quais incluía essencialmente diferentes confederações tribais (os sa'adi da Cirenaica, os saff al-bahar na Tripolitânia e os tuaregues no Fezzan). A queda de Muamar Kadafi abriu uma caixa de Pandora de antigas rivalidades, na qual a Cirenaica criou uma região semiautônoma conhecida como Barqa.

Do mesmo modo, as antigas tensões existentes entre a minoria sunita do Bahrein e a maioria xiita agravaram-se ainda mais desde que o movimento em favor da democracia, liderado pelos xiitas, foi esmagado em 2011. Quanto à Jordânia, o equilíbrio precário entre a maioria palestina e a minoria beduína foi difícil de manter em tempos estáveis e, hoje, é uma façanha muito mais precária.

Outros países da região continuaram oscilando à beira do precipício. O Iêmen surgiu em 1990 da reunificação do Iêmen do Sul e do Norte, que em 1972 e 1979 travaram guerras violentas. Seus líderes nunca conseguiram integrar as tribos, as unidades fundamentais da estrutura social iemenita, no sistema político, de maneira a criar uma inequívoca aceitação do Estado soberano.

A Síria demonstra inequivocamente que uma luta contra um ditador pode se transformar, em breve, numa luta sectária para a sobrevivência ou o predomínio. Independentemente da legitimidade hoje reconhecida em todo o mundo da Coligação Nacional das Forças Revolucionárias Sírias e a oposição, um colapso desordenado do regime poderá levar a uma divisão do país em enclaves étnicos autônomos. Os rebeldes, na maior parte sunitas com o apoio de por grupos jihadistas, como a Frente Nusra, um ramo da Al-Qaeda no Iraque, jamais tentaram uma aproximação com as minorias do país - cristãos, xiitas, drusos e curdos - que repudiaram a coalizão nacional por considerar que ela "obedece à Turquia e ao Catar".

Os curdos, sob o jugo dos árabes, turcos e iranianos, viram na eliminação do regime de Saddam Hussein no Iraque - e agora assistem ao desmembramento de outras autocracias árabes - uma oportunidade para aderir ao novo jogo do Oriente Médio, significando a realização do sonho de unir sua nação dispersa em um Estado curdo independente.

A milícia curda do norte da Síria, que procurou não se envolver na guerra civil enquanto preparava seu enclave no caso de o regime de Bashar Assad cair, agora está sendo atraída para a luta; os curdos iraquianos, que treinaram seus parentes sírios, poderão ser os próximos. Inevitavelmente, a Turquia considera o ativismo curdo no norte da Síria - liderado pelo Partido da União Democrática, um ramo do Partido dos Trabalhadores do Curdistão da Turquia - uma ameaça direta à sua estabilidade, e se esforçará ao máximo para impedir que ela provoque uma revolta da inquieta minoria curda da Turquia.

O Líbano é outro caldeirão étnico que não pode permanecer imune aos acontecimentos na Síria. Já podemos ver os sinais do contágio nos confrontos entre as milícias sunita e alauita. Por mais hegemônico que o Hezbollah possa parecer agora, seu poder no Líbano depende profundamente do apoio do regime de Assad. Se Assad cair, e a oposição liderada pelos sunitas chegar ao governo, o equilíbrio de poder que se seguirá na Síria modificará o equilíbrio do poder no Líbano.

Acaso o Sudão do Sul, país de maioria cristã que se separou em 2011 do Norte árabe muçulmano depois de uma longa guerra civil, poderá se tornar o novo paradigma para os países árabes não históricos dilacerados por rivalidades étnicas e tribais? Como o ex-primeiro-ministro da China Zhou En-lai teria dito a respeito dos efeitos da Revolução Francesa: "É muito cedo para saber". Mas não há dúvida de que o status quo pós-colonial do Oriente Médio está desmoronando. Esta região multifacetada ainda precisará se cristalizar em edificações políticas mais definitivas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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