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As inquietações da líder

Há seis meses a popularidade de Merkel vem caindo; segundo a última pesquisa da Infratest Dimap, feita no dia 1º, o índice de aprovação da chanceler não passava dos 45%

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2016 | 03h00

Uma das vantagens de Angela Merkel em relação aos demais chefes de Estado europeus é que, no caso dela, o trabalho dos jornalistas é realizado rapidamente. Quando, por exemplo, uma cidade, um Estado ou mesmo a Alemanha inteira realiza eleições, o resultado já é conhecido antecipadamente: Merkel é a vitoriosa. 

Era assim desde novembro de 2005, quando foi eleita chanceler aquela que Helmut Kohl chamava gentilmente, mas com certo desdém, de “das madchen” (a menina). Uma menina estranha, na verdade, porque a vimos apunhalar ao vivo seu protetor – Kohl – e assumir o seu posto. 

E hoje, depois de 13 anos de reinado? Contrariando as eleições anteriores, Merkel não venceu no Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Esse Estado foi feito por ela. Pobre, pouco habitado, melancólico, estendendo-se entre o Mar Báltico e a Polônia, é feudo de Angela Merkel desde 1991. 

Mas neste ano, seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), estremece ao ver que o Alternativa para a Alemanha (AfD), agremiação criada há 15 anos, o derrotaria. Há dois meses, essa hipótese era motivo de piada. Agora, deixa todos alarmados. 

O AfD conseguiu impor seus temas aos adversários, ou seja, à CDU de Angela Merkel e ao SPD (Partido Social Democrata), que governam juntos o Estado. Novas questões vêm inflamando as conversas, como segurança e número de policiais, como frear o fluxo de requerentes de asilo, e como derrotar o terrorismo. 

A apuração ainda em curso ontem à noite causou inquietação, com os socialistas em primeiro lugar, com 30% dos votos, seguidos pela extrema direita do AfD (21%) e, em seguida, o partido de Angela Merkel (19,3%). Não é preciso ir muito a fundo para conhecer as causas desta deterioração. 

Merkel paga por sua generosidade e a dimensão da sua visão. A Alemanha profunda (ou seja, a Alemanha superficial) não a perdoa por ter aberto as portas do país a 1 milhão de imigrantes. Há dois meses ela luta contra essas críticas sem renegar suas ideias. E adotou um discurso mais de “direita” sobre os turcos, que são 3 milhões no país. “Esperamos que as pessoas de origem turca que vivem há muito tempo na Alemanha expressem grande lealdade para com nosso país.” 

Claramente, esses turcos, que vivem desde 1960 na Alemanha, não são alemães, são turcos. Ou mesmo, “são apenas turcos”. 

O teste de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental de ontem será seguido por outro, talvez mais difícil. No dia 18, serão realizadas eleições em Berlim, a capital, que tem um forte impacto simbólico. E ali também, como em todo o país, e em toda a Europa, o “bom coração” de Angela Merkel não encontra muita receptividade. 

A previsão é que a extrema direita obterá 10% dos votos, talvez 15%, em detrimento dos dois partidos no governo, CDU e socialistas, amplamente criticados em decorrência da onda perigosa de xenofobia que arrebatou a Alemanha e a totalidade do Velho Continente, como também a intensificação da jihad e as infâmias do Estado Islâmico. 

Vamos acompanhar de perto os resultados dessas eleições alemãs. Merkel resistirá ou terá de se conformar com o fim de uma época feliz em que uma Alemanha próspera e tolerante era uma formidável exceção dentro de uma Europa dominada por rancores e choradeira? 

Há seis meses a popularidade de Merkel vem caindo. Segundo a última pesquisa da Infratest Dimap, feita no dia 1º, o índice de aprovação da chanceler não passava dos 45%. Desastre! Mas 45% é tão inquietante? Ela treme por pouca coisa. 

Veja François Hollande. A taxa de popularidade do presidente francês não passa de 15% e isso é uma tragédia? Não. Ele está “forte como um touro”, todo sorrisos e sempre contente. Com essa aprovação, ele até pensa em se candidatar a um segundo mandato. Isto é o que chamamos “ter nervos de aço”.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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