As intenções do Irã em 2014

Presidente da República Islâmica promete cooperação e voz moderada em região tomada por velhos e novos conflitos

HASSAN ROHANI*, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2013 | 02h07

Quando fiz campanha para me tornar presidente do Irã, prometi equilibrar realismo e a busca dos ideais da República Islâmica - e ganhei por larga margem o apoio dos eleitores iranianos. Em virtude do mandato popular que recebi, estou comprometido com a moderação e o senso comum que hoje orientam todas minhas políticas de governo. Esse compromisso conduziu diretamente ao acordo internacional provisório alcançado em novembro de Genebra sobre o programa nuclear do Irã. Isto continuará orientando nossa tomada de decisões em 2014.

Aliás, em termos de política externa, meu governo está descartando abordagens extremadas. Nós buscamos relações diplomáticas efetivas e construtivas e um foco na construção da confiança mútua com nossos vizinhos e com outros atores regionais e internacionais, nos capacitando com isso a orientar nossa política externa para o desenvolvimento econômico no país. Para tal, trabalharemos para eliminar tensões em nossas relações externas e fortalecer tanto nossos laços tradicionais como novas parcerias. Isto requer, evidentemente, uma construção de consenso doméstico e o estabelecimento de metas transparente - processos que já estão em andamento.

Enquanto evitamos confrontos e antagonismos, perseguiremos também ativamente nossos interesses maiores. Mas em um mundo cada vez mais interconectado e interdependente, os desafios só podem ser enfrentados mediante a cooperação ativa e a interação entre Estados. Nenhum país - incluindo as grandes potências - pode fazer frente efetivamente sozinho os desafios que se colocam.

A cultura e civilização antiga do Irã, a longa continuidade do Estado, a posição geopolítica, a estabilidade social em meio às conturbações regionais, e uma juventude bem educada nos permitem olhar para o futuro com confiança, e aspirar ao importante papel global que nosso povo merece - papel que nenhum ator global pode ignorar.

Também estamos analisando como reconstruir e melhorar as relações bilaterais e multilaterais com países europeus e norte-americanos na base do respeito mútuo. Isto requer aliviar tensões e implementar uma atitude abrangente que inclui laços econômicos.

Podemos começar evitando qualquer novo estremecimento nas relações entre o Irã e os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, nos empenhar para eliminar as tensões herdadas que continuam a obstruir as relações entre nossos países. Embora talvez não possamos conseguir esquecer as desconfianças e suspeitas que assombraram o pensamento dos iranianos sobre governos americanos nos últimos 60 anos, agora podemos focar no presente e olhar para o futuro. Isso significa nos colocarmos acima das políticas mesquinhas e liderar em vez de seguir os grupos de pressão de nossos respectivos países.

Nossa região está, mais do que nunca, às voltas com o sectarismo, com inimizades de grupos e com novos terrenos férteis potenciais para o extremismo e o terrorismo. Ao mesmo tempo, o uso recente de armas químicas na Síria pode assombrar os povos da região por muitos anos.

Estou profundamente perturbado com a tragédia humanitária na Síria e o sofrimento enorme que o povo sírio tem enfrentado por quase três anos.

Assim, ficamos satisfeitos porque, em 2013, a diplomacia prevaleceu sobre as ameaças de intervenção militar na Síria. Precisamos construir a partir desses avanços e compreender que a Síria tem uma necessidade atroz de esforços regionais e internacionais coordenados. Estamos preparados para contribuir para a paz e estabilidade na Síria no curso de negociações sérias entre partes regionais e extrarregionais. Aqui, também, precisamos evitar que as conversações se transformem num jogo de soma zero.

Isso não é menos verdade para o programa de energia nuclear para fins pacíficos do Irã, que foi objeto de enorme estardalhaço nas últimas décadas. Desde o começo dos anos 1990, uma previsão após outra com respeito a quão perto o Irã estava de adquirir uma bomba nuclear se mostrou infundada. Durante todo esse período, alarmistas tentaram pintar o Irã como uma ameaça para o Oriente Médio e para o mundo.

Nós todos sabemos quem é o agitador principal, e que propósitos estão sendo servidos pelo alvoroço sobre esta questão. Sabemos também que esta alegação oscila segundo a quantidade de pressão internacional para barrar a construção de assentamentos e o fim da ocupação de terras palestinas. Estes falsos alarmes continuam, apesar das estimativas da inteligência nacional americana segundo as quais o Irã não decidiu construir uma arma nuclear.

Aliás, estamos comprometidos a não trabalhar para o desenvolvimento e produção de uma bomba nuclear. Conforme enunciado na fatwa emitida pelo Líder Supremo aiatolá Ali Khamenei, nós acreditamos firmemente que o desenvolvimento, produção, armazenamento e uso de armas nucleares são contrários às normas islâmicas. Jamais contemplamos sequer a opção de adquirir armas nucleares, porque acreditamos que estas armas poderiam contrariar nossos interesses de segurança nacional; por conseguinte, elas não têm lugar na doutrina de segurança do Irã. Mesmo a percepção de que o Irã pode desenvolver armas nucleares é prejudicial à nossa segurança e a nossos interesses nacional em geral.

Durante minha campanha presidencial, eu me comprometi em fazer tudo que estivesse em meu poder para acelerar uma solução para o impasse em nosso programa de energia nuclear. Para cumprir esse compromisso e se beneficiar da janela de oportunidade que a eleição recente abriu, meu governo está preparado para não fazer todo esforço possível na busca de uma solução permanente mutuamente aceitável. Depois do acordo provisório de novembro, estamos prontos para continuar trabalhando com o P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) e outros tendo em vista assegurar a plena transparência de nosso programa nuclear.

A capacidade nuclear pacífica que alcançamos será usada dentro de um arcabouço internacionalmente reconhecido de salvaguardas, e será acessível a um monitoramento multilateral pela Agência Internacional de Energia Atômica, como tem sido nos últimos anos. Assim, a comunidade internacional pode se assegurar da natureza exclusivamente pacífica de nosso programa nuclear. Jamais abriremos mão de nosso direito de nos beneficiar da energia nuclear; mas estamos prontos para trabalhar para a remoção de qualquer ambiguidade e responder a qualquer pergunta razoável sobre nosso programa.

A continuidade das pressões, intimidações e medidas para cortar o acesso dos iranianos a todo um leque de necessidades - da tecnologia a remédios e alimentos - só pode envenenar a atmosfera e minar as condições necessárias para progredirmos.

Como mostramos em 2013, o Irã está plenamente preparado para se engajar seriamente com a comunidade internacional e negociar com nossos interlocutores de boa fé. Esperamos que nossos interlocutores também estejam prontos para aproveitar esta janela de oportunidades. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É PRESIDENTE DO IRÃ

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