AFP PHOTO / POOL / MARTIN BUREAU
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As irmãs Itália e França 

Tanto no talento como na idiotice, Itália e França avançam de mãos dadas

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2017 | 05h00

A França e a Itália são chamadas de “irmãs latinas”. Ambas procedem da herança romana e foram sempre muito próximas, por exemplo, na Renascença. Mais recentemente, elas foram as inventoras, com a Alemanha e o Benelux, da União Europeia.

Para um francês, ir a Florença ou a Roma, é uma mera mudança de país. No verão, há quem pergunte se a Côte d’Azur (Nice e Mônaco) é uma província da França ou se não seria um anexo do rico Piemonte e da cidade de Turim.

Os dois países têm um ponto em comum. A paixão política, o que tem como consequência tornar a França e a Itália ingovernáveis: alianças e disputas, traições, reconciliações, tagarelice e lirismo, combate de egos, complicações e acertos, nos dois lados dos Alpes é o mesmo quadro e a mesma impotência.

Neste fevereiro, uma doença idêntica consome os dois países. A esquerda está sofrendo de languidez. Na França, o Partido Socialista, que foi glorioso até François Mitterrand (1981-1995) e se arrasta desde 2012 atrás do comando vacilante de François Hollande, está ameaçado de soçobrar.

Na verdade, há um candidato socialista para as eleições presidenciais de abril e maio, Benoit Hamon, mas ele é tão fraquinho que só angaria 15% de opiniões favoráveis. Sua única chance de escapar da “queda final” seria aliar-se com uma dissidência do Partido Socialista, a Frente de Esquerda, que tem ideias barrocas, mas um líder eloquente, Jean-Luc Mélenchon. Longas palavras agridoces até que ruptura: restam dois pedaços pequenos do Partido Socialista que se contorcem na serragem como minhocas sem cabeça.

Já na Itália, reina à esquerda o Partido Democrático, nascido em 2007 e constituído por duas forças dominantes, o Partido Comunista Italiano (PCI) e uma ala da antiga Democracia Cristã. Esse Partido Democrático está dilacerado entre duas tradições: a do PCI, dura e rugosa, e a da Democracia Cristã, de Romano Prodi e Enrico Letta.

Em 2014, Matteo Renzi conseguiu se apoderar do Partido Democrático e se tornou presidente do Conselho. Ele governou com desenvoltura, lirismo e altivez. Em dezembro do ano passado, depois de uma manobra em falso, ele caiu. Depois disso, o Partido Democrático se dividiu entre os dois clãs que o constituem, os comunistas e os democratas. Palavras, tentativas de reconciliação, confusões, parecia o Partido Socialista francês onde todos se detestam. Resultado: Matteo Renzi se demitiu da chefia do Partido

Democrático. Com isso, o partido ficou dividido em dois, como na França, mais ou menos no mesmo dia.

Nos dois casos, uma mesma consequência: essas querelas no meio da esquerda são uma oportunidade para os outros partidos. Na Itália, é o movimento populista do palhaço Beppe Grillo, o Movimento 5 Estrelas, apesar de desgastado pela gestão lamentável que teve em Roma, que se encontra inesperadamente revigorado pela divisão no Partido Democrático.

Na França, quem vai se beneficiar da ruptura entre Mélenchon, socialista de esquerda, e Hamon, igualmente socialista de esquerda? Ou o bizarro Emmanuel Macron, homem “nem de direita nem de esquerda”, ou o líder da direita, François Fillon do partido Republicanos, que caíra nos abismos do desprezo depois das peraltices financeiras denunciadas que, milagrosamente, revigorou-se um pouco com a divisão Mélechon/Hamon. Exatamente como na Itália o populista Beppe Grillo.

Sim, tanto no sucesso como na derrota, tanto no talento como na idiotice, Itália e França avançam de mãos dadas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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