As lições da guerra de 1973

Por pensar só militarmente, Israel não notou que o objetivo do conflito era forçar um pacto sobre territórios ocupados

ETHAN BRONNER, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

Para muitos israelenses, a Guerra do Yom Kippur, de 1973, foi um momento de terror. O país sofreu um ataque devastador e obteve a vitória a um alto custo, com a ajuda americana no último minuto. Na semana passada, os debates confidenciais entre os líderes do governo nos primeiros dias da guerra vieram a público e tomaram a atenção de todos. A pergunta que se faz é se as coisas mudaram de lá para cá. Yaron Dekel, apresentador da rádio estatal, abriu seu programa com essa questão. "Os senhores leram os protocolos da Guerra do Yom Kippur? Caso não tenham lido, façam isso o quanto antes e perguntem a si mesmos se as coisas mudaram nos últimos 37 anos."

As transcrições das reuniões mostram o ministro da Defesa Moshe Dayan no limiar do desespero. Enquanto tanques sírios avançavam sobre a Galileia, ele concluiu que havia interpretado os sinais equivocadamente. "Subestimei a força do inimigo e superestimei nossa capacidade", teria dito ele à premiê Golda Meir. Buscando uma salvação, ele pediu que fossem convocados cidadãos mais velhos e os judeus do exterior. Meir pensou em fazer uma viagem secreta a Washington para pedir ajuda ao presidente Richard Nixon. Um colega perguntou o que ela esperava dele. "Que ele nos dê o que quer que tenha", respondeu ela. No fim, Meir não viajou. Mas, depois de apelar para o secretário de Estado Henry Kissinger, conseguiu que os EUA enviassem um carregamento aéreo que fez toda a diferença nos 20 dias de guerra.

Parte do debate em Israel é sobre a crença do líder do Exército na época, David Elazar, de que a guerra estava perto. Ele insistiu para que os soldados fossem convocados e fossem realizados ataques preventivos contra Egito e Síria. Ambos os pedidos foram rejeitados por Dayan e Meir, que não acreditavam que seus vizinhos correriam o risco de uma guerra e temiam que o Ocidente acusasse Israel de agressão.

Ao mesmo tempo, não havia pressa para se chegar a uma solução diplomática para os territórios ocupados na guerra dos Seis Dias, em 1967. Muitos analistas viram lições distintas nos documentos. Em editorial, o jornal Haaretz disse que, em 1973, os líderes "fracassaram em enxergar os limites do uso da força". "Israel repousava sobre os louros de suas realizações militares e não foi capaz de empreender um esforço audacioso para trocar territórios por paz e segurança."

O atual chefe do estado-maior do Exército, o general Gabi Ashkenazi, fez observações diferentes no jornal Maariv. "As falhas de espionagem e a sensação de incerteza serviram para que os militares compreendessem sua missão e a responsabilidade que repousa sobre seus ombros."

O cientista político Yehezkel Dror falou sobre o aspecto mais notável do material divulgado. Segundo ele, os líderes do país não perceberam o verdadeiro objetivo da guerra: pressionar pela devolução dos territórios capturados. "Por que não entendemos isto? Porque não pensamos politicamente. Aquele que pensa só em termos militares não entende que o outro lado vê o Exército como ferramenta política, não para conquistar Israel, mas para obter um acordo melhor envolvendo o Sinai." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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