As lições de ecologia dadas pela Guerra Fria

Temos de parar de tratar a ideia da biodiversidade como uma preferência filosófica e abraçá-la como estratégia de sobrevivência

Jacob Darwin Hamblin*, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2013 | 02h04

Hoje, o esforço de preservação da biodiversidade é visto como uma campanha para salvar baleias ou ursos polares. Mas, nos anos 50, quando o conceito começou a ser discutido, entendia-se que havia muito mais coisas em jogo. A "conservação da variedade", como se dizia nos primeiros anos da Guerra Fria, subentendia uma estratégia de sobrevivência humana.

Na época, líderes militares e cientistas americanos contemplavam a possibilidade de uma guerra total com a União Soviética - confronto em que os alvos incluiriam não apenas civis, mas também plantas, animais e ecossistemas.

Os estrategistas imaginavam um admirável mundo novo em que armas biológicas e radiológicas seriam empregadas em conjunto com operações capazes de causar a destruição de plantações, incêndios devastadores, terremotos artificiais, tsunamis, envolvendo também a manipulação de correntes oceânicas, do nível do mar e até o controle de condições climáticas.

Diversas abordagens pareciam viáveis: derreter o gelo das calotas polares cobrindo-as com fuligem, jogar produtos químicos sobre nuvens para atormentar o inimigo com chuva e lama, destruir produtos agrícolas fundamentais com esporos de ferrugem ou contaminação radioativa.

A radiação térmica de uma explosão nuclear realizada em altitude elevada poderia ser usada para incendiar florestas. Detonações em locais bem escolhidos poderiam liberar a energia da crosta terrestre, de oceanos ou de sistemas climáticos. Durante a Guerra da Coreia, o senador Albert Gore sugeriu que o presidente Harry Truman mandasse contaminar com lixo radioativo uma faixa da Península Coreana para deter o avanço das tropas comunistas.

No início dos anos 60, a Otan chamava essas abordagens de "guerra ambiental". Um dos principais itens era a questão da autopreservação. Os preparativos para a guerra deveriam incluir planos para manter pessoas vivas após a devastação inicial. A abordagem mais profícua, concluíram os cientistas, seria descobrir maneiras de proteger os ecossistemas.

Chamamos isso hoje de biodiversidade. Um de seus principais defensores foi o ecologista Charles Elton, da Universidade de Oxford, que defendia que o uso de herbicidas e a adoção da monocultura em larga escala eram uma receita para o desastre. A melhor defesa contra doenças ou catástrofes naturais era a conservação, nas áreas rurais, do máximo de variedade biológica possível, para contrabalançar as ameaças - Elton chamava isso de "conservação da variedade". A abordagem inspirou Rachel Carson a escrever Primavera Silenciosa, livro sobre o mal causado pelos inseticidas, e influenciou cientistas da área militar.

Cientistas da Otan tentaram imaginar quais os elos dos ecossistemas seriam vulneráveis à manipulação. Estudos haviam indicado a contaminação de carne de rena, um elemento crucial na dieta dos esquimós, por poeira radioativa. Foi uma revelação pensar que tal conexão da cadeia alimentar poderia agora ser atingida. O inverso, porém, também é verdadeiro, o que reforça o argumento de Elton: a complexidade de um ecossistema reduzia a importância de cada um dos elos que o compunham, tornando o sistema, como um todo, menos vulnerável.

Essa foi a lição que os estrategistas militares trataram de assimilar. Chegaram à conclusão de que, em tempos de paz, uma economia de mercado robusta era garantia de variedade e, assim, proporcionava segurança na paz e na guerra. Se um dia um confronto nuclear eclodisse, uma sociedade descentralizada e diversificada estaria em melhores condições de resistir do que uma sociedade centralmente planificada, como a da União Soviética. A mesma lógica se aplicava à variedade biológica. Era por isso que as reservas estratégicas mantidas pelos países ocidentais durante a Guerra Fria não continham enormes estoques de alimentos, mas sim amostras da mais ampla gama de espécies imaginável.

Diante de desastres naturais, tal diversidade parecia ser um trunfo que o Ocidente tinha na manga. A variedade de produtos agrícolas encontrada nos EUA superava a da União Soviética - esse foi o motivo de analistas da CIA terem previsto, em 1980, que os efeitos da mudança climática global serem mais prejudiciais à Rússia do que aos EUA.

Apesar de termos sobrevivido à Guerra Fria, os desafios à nossa segurança ambiental não desapareceram. Temos de parar de tratar a ideia da biodiversidade como uma preferência filosófica e abraçá-la como estratégia de sobrevivência, exatamente como fizeram aqueles que, há mais de meio século, preparavam-se para uma guerra total catastrófica. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER  

 

* É professor associado de história da Oregon State University

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