As lições de história de Xi Jinping

O Partido Comunista Chinês distorce os fatos para justificar as ambições atuais

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2015 | 02h02

No início de setembro, o presidente da China, Xi Jinping, comparecerá a um grande desfile militar em Pequim. Será a mais visível afirmação de autoridade desde que chegou ao poder, em 2012: sua primeira aparição pública num evento desse tipo, com exibição de mísseis, tanques e soldados marchando em passo de ganso.

Oficialmente, a cerimônia diz respeito apenas ao passado: trata-se de celebrar o fim da 2.ª Guerra, em 1945, e lembrar os 15 milhões de chineses que morreram num dos capítulos mais sangrentos desse conflito: a invasão e a ocupação da China pelos japoneses entre 1937 e 1945.

O desfile servirá para louvar a bravura dos soldados chineses e seu papel crucial no combate à potência imperial que então praticava monstruosidades no Leste da Ásia. A homenagem é justíssima: os sacrifícios feitos pelos chineses durante aquele período atroz merece reconhecimento muito mais amplo do que recebe hoje.

Entre 1937, quando a guerra eclodiu em solo chinês, e fins de 1941, quando o ataque a Pearl Harbour fez os EUA entrarem no conflito, a China enfrentou os japoneses sozinha. Quando a guerra acabou, as perdas humanas sofridas pelo país - entre militares e civis - só eram inferiores às dos soviéticos.

Apesar disso, o desfile militar do mês que vem não tem a ver apenas com a lembrança; é sobre o futuro também. Será a primeira vez que a China, em vez de se limitar a uma cerimônia solene, celebrará o fim da guerra com uma exibição militar. O simbolismo não passará em brancas nuvens para os vizinhos. E deve causar inquietação, pois na região, hoje, a potência autoritária e desestabilizadora que está em ascensão não é mais um arquipélago presidido por um imperador-deus.

É a nação mais populosa do planeta, liderada por um indivíduo cuja visão do futuro (um país mais rico, com um braço militar mais poderoso) lembra um pouco os slogans imperiais do Japão dos primeiros tempos. Seria um equívoco forçar demais o paralelo. A China não está prestes a invadir seus vizinhos. Mas não deixa de ser preocupante a visão que o Partido Comunista Chinês tem da história - e as manipulações a que seus dirigentes a submetem para justificar as ambições atuais do país.

Sob o comando de Xi, a lógica da história é mais ou menos a seguinte: a China teve participação tão importante na derrota do imperialismo japonês, que não apenas merece reconhecimento - tardio - por seu passado heroico e de sofrimento, mas também faz jus a mais influência no cenário geopolítico da Ásia atual. Além disso, o Japão ainda é uma ameaça. Escolas, museus e programas de TV chineses não se cansam de advertir que, do outro lado do mar, o espírito agressivo continua à espreita.

Em artigo publicado há dois anos no jornal britânico Daily Telegraph, um diplomata chinês insinuou que Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão, é um novo Voldemort, a personificação do mal na série Harry Potter.

A qualquer momento, o Japão pode voltar a ameaçar a Ásia, apregoam os jornais do partido. E a China, mais uma vez, está preparada para resistir.

A narrativa exige boa dose de contorcionismo. Em primeiro lugar, não foram os comunistas chineses que sustentaram a luta contra o Japão, e sim seus arqui-inimigos, os nacionalistas do Kuomintang, sob a liderança de Chiang Kai-shek. Em segundo, o Japão de hoje não se parece nem um pouco com o país que massacrou Nanquim, levou à força coreanas e chinesas para bordéis militares e usou civis em testes com armas biológicas.

É bem verdade que o Japão jamais demonstrou arrependimento por suas ações na guerra de forma tão vigorosa e inequívoca como a Alemanha. Até hoje, um grupo pequeno, mas barulhento, de japoneses ultranacionalistas nega os crimes de guerra do país, e às vezes recebe tratamento vergonhosamente condescendente do primeiro-ministro Abe. A ideia de que o Japão continua a ser uma potência agressiva é absurda. Seus soldados não se envolvem em conflitos desde 1945. Sua democracia está plenamente consolidada; seu respeito aos direitos humanos é profundo.

A maioria dos japoneses reconhece as responsabilidades do país na guerra, pelas quais sucessivos governos já se desculparam - no que, espera-se, serão imitados por Abe. A população japonesa está envelhecendo e encolhendo, o país é majoritariamente pacifista e, em virtude do trauma de Hiroshima e Nagasaki, é improvável que algum dia venha a possuir armas nucleares. Bela ameaça. A demonização do Japão por parte da China não é apenas injusta; é também perigosa.

Governos que instigam animosidades nacionalistas nem sempre conseguem mantê-las sob controle. Até agora, ao questionar o domínio do Japão sobre as Ilhas Senkaku (ou Diaoyu), a China só recorreu a exibições pirotécnicas de poderio militar. Mas sempre há o risco de que, por algum erro de cálculo, a situação descambe para o derramamento de sangue.

As velhas feridas da guerra ainda não cicatrizaram. A Península Coreana permanece dividida, China e Taiwan ainda se consideram "duas regiões de um mesmo país". E nem o Japão tem sua integridade territorial preservada, pois desde 1945 os EUA usam a Ilha de Okinawa, no sul do país, como sua principal base militar no Pacífico ocidental. Se um dia a tensão dará lugar à violência é algo que, para o bem ou para o mal, depende sobretudo do comportamento da China. De qualquer forma, é ingenuidade supor que os americanos poderão sempre intervir para conter as hostilidades.

Pelo contrário, muitos asiáticos temem que as ambições da China a coloquem em rota de colisão com a superpotência e com os países menores que se abrigam sob seu guarda-chuva de segurança. Quando a China arruma confusão com o Japão no Mar do Leste ou quando se põe a construir pistas de pouso em recifes do Mar do Sul da China que são alvo de disputas históricas, esses temores são alimentados. O país também se arrisca a envolver os EUA em suas disputas territoriais e aumenta os riscos de um eventual conflito.

O Leste Asiático do pós-guerra não é como a Europa. Não há na região nenhuma Otan ou União Europeia transformando antigos inimigos em aliados. A determinação com que a França perseguiu a paz duradoura ao se unir com a Alemanha, sua antiga invasora, sob um arcabouço comum de leis, não tem equivalente na Ásia.

Isso significa que o Leste Asiático é menos estável que a Europa: uma mescla físsil de países ricos e pobres, democráticos e autoritários, com muito menos concordância sobre valores comuns. Não é de estranhar que os asiáticos fiquem tensos com a China, esse gigante regional, governado por um partido único que não faz muita distinção entre si próprio e o país - que não tem pudor em explorar sua condição histórica de vítima.

Seria muito melhor se a China buscasse um papel de líder regional com base não no passado, mas no comportamento construtivo atual. Se Xi comprometesse a China com esforços multilaterais para promover a estabilidade regional, daria mostras de que realmente aprendeu as lições da história. O que seria infinitas vezes melhor do que tentar repeti-la.

/ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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