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As lições de Ruanda

Ruandeses estão em ascensão econômica, mas seu presidente está se apegando ao poder

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2019 | 03h00

Há uma visão difundida no Brasil segundo a qual o que falta ao País é uma guerra ou catástrofe para forjar consciência de bem comum. Segundo essa visão, todos os países desenvolvidos passaram por algum trauma que moldou a identidade nacional, como a Guerra Civil Americana, a Revolução Francesa e as guerras na Europa e Ásia.

Estou em Ruanda, cenário do genocídio dos tutsis pelos hutus, um dos piores da história, com 1 milhão de mortos em apenas três meses de 1994. Nesses 25 anos, os ruandeses passaram por um monumental processo de apuração dos crimes e aplicação de penas – pelo sistema tradicional no país, que envolve um júri eleito pela comunidade –, perdão e reconciliação. Passei os últimos dias me aprofundando na história de uma mulher, Léoncie Mugabekazi, de 56 anos, no distrito de Huye, sul do país. Depois de sua família ter sido dizimada por seus vizinhos hutus, alguns dos autores dos massacres denunciaram seu marido, que acabou preso, em 2009, condenado a 19 anos. 

Léoncie era vereadora na época, e tomou a frente nas denúncias contra os autores dos massacres. Segundo ela, a acusação contra seu marido, infundada, foi uma represália por isso. Apesar de tudo, Léoncie aceitou o pedido de perdão da mãe de um dos principais autores do massacre de sua família. Mesmo ela não podendo pagar a indenização determinada pela Justiça e o criminoso tendo aproveitado uma audiência para fugir da prisão.

Juntamente com o processo de justiça e reconciliação, vieram programas de capacitação profissional e empreendedorismo, apoiados por agências internacionais. O presidente Paul Kagame, que comandou as forças militares que contiveram o massacre, fez um esforço para eliminar as distinções entre hutus e tutsis – de fato bastante artificiais, já que falam a mesma língua e seguem as mesmas religiões, seja católica, protestante ou muçulmana.

Ruanda se tornou uma história de sucesso. Sua economia cresceu em média 2,7%, entre 2000 e 2018. E está em plena aceleração: 6,1%, em 2017, e 8,6%, em 2018. Mas tragédias não colocam necessariamente países nos trilhos. O Camboja teve um genocídio nos anos 70. A Rússia, sua revolução, e viveu as guerras mundiais com igual ou maior intensidade que outros países. A Coreia do Norte enfrentou a ocupação japonesa e depois EUA e Coreia do Sul. 

A 200 km de onde estou, a República Democrática do Congo está mergulhada há mais de duas décadas em conflito armado, desencadeado justamente pelo conflito em Ruanda. Inversamente, muitos países que servem de modelo, como os escandinavos e a Suíça, conseguiram se manter distantes das guerras na Europa e se beneficiaram de sua neutralidade. O que faz a diferença em um país é a qualidade de seus governantes. São eles que conseguem transformar as catástrofes em oportunidade para mobilizar uma nação em torno de um projeto que beneficie a maioria sem excluir a minoria. 

Trata-se de uma cepa de homens e mulheres que vai de Abraham Lincoln a Paul Kagame. Não são governantes perfeitos, porque a perfeição não existe: é uma ideia da razão para balizar nossas escolhas. Presidente desde 2000, Kagame está se demorando demais no poder. São pessoas que se elevam acima dos vícios da cultura de seus países. Na minha opinião, o único exemplo brasileiro foi Fernando Henrique Cardoso.

O problema é que esses líderes não surgem com frequência. Cabe aos que os substituem seguir os seus passos ou desfazer suas conquistas. Talvez, quanto mais um governante se diferencie em seu país, maior o risco do retrocesso ou da estagnação. A África do Sul confirma essa regra. Só duas décadas depois da saída de Nelson Mandela, a esperança ressurge, com Cyril Ramaphosa. O Brasil, ao que parece, ainda terá de esperar.

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