As lições deixadas pelo Êxodo

Moisés, que tinha seus defeitos como todos nós, foi um exemplo para o povo judaico

David Brooks*, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 03h46

A noite de segunda-feira marcou o início da Páscoa judaica, período em que os judeus celebram a libertação dos israelitas, que deixam a escravidão e alcançam a liberdade. Essa é a parte da história do Êxodo que se encaixa melhor na cultura moderna. Gostamos de histórias de povos que se livram da opressão e sentem o primeiro gosto da liberdade. Gostamos quando massas de pessoas se reúnem nas praças de Pequim, Teerã, Cairo ou Kiev para pedir liberdade.

O Êxodo, porém, não é apenas isso e essa não é nem mesmo sua mensagem mais importante. Quando John Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin pensaram em fazer de Moisés uma figura central do Grande Selo dos EUA, eles não o estavam celebrando como libertador, mas sim como responsável por forjar um novo vínculo social. Ele não apenas conduziu os israelitas para longe de um conjunto de leis injustas; mais importante, ele os vinculou a um novo conjunto de leis. A libertação - alcançar a liberdade - é a parte fácil. O difícil é vincular os libertos a uma ordem justa.

Os fundadores dos EUA compreendiam que, ao criar uma ordem social, os primeiros que precisam ser vinculados às leis são os próprios líderes. O Moisés do Êxodo não é um herói majestoso e carismático como (o ator) Charlton Heston, em quem podemos confiar como governante. Ele é cheio de defeitos, como todos nós. É passivo. Tem medo de cobras. É mau orador. Resmunga bastante e, às vezes, fica furioso e deprimido. É submisso.

Quando decide se revoltar contra a opressão egípcia, Moisés o faz de maneira impensada e por vontade própria, além de meter os pés pelas mãos. Vê um soldado egípcio maltratando cruelmente um escravo hebreu. Ele olha ao redor para se certificar de que ninguém o está vendo. Então, ele mata o egípcio e esconde seu corpo na areia.

Trata-se de um bem-intencionado ato de rebelião justa, mas é conduzido sem ordem, plano ou estratégia. Nem mesmo os israelitas admiram o gesto. Para eles, Moisés é apenas violento e impetuoso. Ele precisa buscar o exílio. A lição que alguns enxergam aqui diz que mesmo os atos de libertação com motivação justa devem ser feitos dentro da estrutura de controle e autoridade.

Mesmo depois de ser convocado a liderar seu povo, Moisés ainda não tinha aprendido totalmente essa lição. Ele se apressa para se dedicar à tarefa, mas não faz uma pausa para circuncidar o filho - ato que simboliza o contrato com Deus. Um líder que não é obediente às regras não será eficaz e, por isso, Deus tenta matar Moisés. Felizmente, a mulher dele, Tzipora, pega uma pedra e faz a circuncisão.

Trata-se de uma visão de liderança obediente. Os líderes do mundo antigo, assim como os de hoje, tentavam projetar uma pomposa imagem de majestade e maestria. No entanto, Moisés seria o exemplo da qualidade conhecida como "anivut". De acordo com o que escreveu certa vez o rabino Norman Lamm, "anivut" significa "uma resposta branda para um desafio árduo; silêncio diante do abuso; graciosidade ao receber honrarias; dignidade em resposta à humilhação; contenção na presença da provocação; resignação e calma quando confrontado com a calúnia e as críticas mesquinhas".

Assim como os líderes precisam ser vinculados à lei, o mesmo vale para as pessoas comuns. No Êxodo, os israelitas queixam-se, resmungam, rebelam-se por motivos fúteis. Quando se veem perdidos numa selva moral, constroem imediatamente um ídolo para adorar e conferir sentido às suas vidas.

No entanto, o Êxodo nos lembra que construir um Estado é como edificar a alma, que boas leis podem levar a pessoas melhores. Até os judeus têm opiniões diferentes quanto à observação individual dos 613 mandamentos, mas a visão geral é a de que as leis servem a muitos propósitos práticos e espirituais. Oferecem, por exemplo, uma reconfortante estrutura para o cotidiano. Para quem se sente ansioso diante das transições na vida, os momentos em que passamos pelo batente da porta, seja literal ou metaforicamente, as leis proporcionam algo a fazer nesses momentos e trazem tranquilidade para o restante do caminho.

As leis domam o ego e criam hábitos de deferência ao nos lembrar de nossa subordinação a algo permanente. As leis espiritualizam a matéria, de modo que algo bastante normal, como uma refeição, tenha em si um componente sagrado. As leis constroem a comunidade ao ancorar as crenças em práticas comuns. As leis moderam o zelo religioso. A fé não é expressada em atos grandiloquentes, mas sim nos hábitos do dia a dia. As leis moderam os prazeres, criam balizas para impedir que as pessoas se entreguem a extremos emocionais ou sensoriais.

No século 20, o filósofo Eliyahu Dessler escreveu: "A meta definitiva de todo o nosso serviço é passar da liberdade à compulsão". O Êxodo nos dá uma visão de movimento que é diferente da mera fuga e libertação. Os israelitas estão ao mesmo tempo se afastando de um vínculo e estabelecendo outro, superior. O Êxodo oferece uma visão de vida marcada pela viagem e pela mudança, mas, ao mesmo tempo, por doces compulsões, sejam elas a compulsão do amor, da amizade, da família, da cidadania, da fé, da profissão ou de um povo.

*David Brooks é colunista.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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