As lições dos gigantes soviéticos que caíram

Vladimir Putin poderia aprender a observar o passado e aliviar as tensões sociais e evitar um colapso político caso se torne o próximo presidente da Rússia

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h06

O vigésimo aniversário do colapso da União Soviética, no próximo mês, é uma ocasião para refletirmos sobre a trajetória de três gigantes - Mikhail Gorbachev, Boris Yeltsin e Eduard Shevardnadze.

Cada um deles fez história, mas se desviou do rumo na medida em que as sociedades foram mudando e quando as expectativas deixaram de ser correspondidas. O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, deveria prestar atenção nesta lição se, como é provável, ele retomar a presidência no ano que vem.

Shevardnadze é um interessante exemplo de como, a partir de uma liderança vitoriosa, um político chegou a um final infeliz. Como ministro de Relações Exteriores soviético, na década de 80, ajudou Gorbachev, então o líder da URSS, a concluir acordos históricos sobre armamento e a retirada das tropas soviéticas da Guerra no Afeganistão, que estavam perdendo. Em 1989, Gorbachev e Shevardnadze facilitaram a queda pacífica do Muro de Berlim e a libertação dos regimes satélites da Europa Oriental.

Depois do colapso soviético, em 1991, Shevardnadze voltou para casa e se tornou presidente de sua Georgia natal, agora independente. Ele pôs fim à guerra civil, mas não conseguiu manter o controle das regiões separatistas da Abkházia e da Ossétia do Sul.

Se Putin refletir sobre a história, que lições poderá tirar? Em primeiro lugar, que as reformas são vitais para fazer frente à estagnação.

Dificuldades. Em 1985, quando Gorbachev chegou ao poder, a ideologia comunista havia perdido seu apelo e a economia enfrentava sérias dificuldades. Suas reformas foram irregulares, mas audaciosas, e foram fracas demais para salvar a União Soviética.

Na década de 90, na Geórgia, Shevardnadze formou jovens líderes que obtiveram o controle do Parlamento em eleições transparentes, mas ele recuou quando eles contestaram seu método de governo fraco. Depois de eleições fraudadas em 2003, a nova geração o obrigou a se demitir num movimento conhecido como a Revolução Rosa.

Hoje, a Rússia está mais livre do que na era soviética, mas a hipocrisia e o pessimismo continuam dominantes. Os jovens e o capital fogem para o exterior, e as crises demográficas e de saúde pública deprimem a sociedade.

Putin poderia aliviar as tensões sociais permitindo eleições justas, partidos de oposição independentes e um honesto debate sobre as mazelas sociais e seus remédios.

Em segundo lugar, a aplicação das reformas exige visão e determinação. Gorbachev acreditou, equivocadamente, que teria condições de sanar o sistema soviético. Yeltsin na Rússia e Shevardnadze na Geórgia recuaram em relação às reformas quando as elites corruptas, profundamente arraigadas, resistiram.

Putin demonstra pouco interesse em reformas concretas. Ele defende as grandes empresas ineficientes, e voltou a estatizar e a fundir muitas delas em gigantescos monstros onerosos. Enquanto Putin aceita alguma ajuda externa no setor ds energia, as tentativas de Mikhail Khodorkovski - ex-presidente da Yukos, maior empresa petrolífera russa, preso por sonegar impostos e roubar petróleo - demonstram insensibilidade para com os investidores e o Estado de direito.

Em terceiro lugar, futuros líderes são importantes. Na Geórgia, Shevardnadze permaneceu por um tempo excessivo no poder, alegando que a nova geração não tinha a experiência necessária. Yeltsin concedeu parte do poder aos novos líderes e as reformas favoreceram a prosperidade, mas ele recuou diante da repulsa popular pela corrupção e dos apelos para uma maior estabilidade e autoridade.

Putin ridicularizou as revoluções "coloridas" da Geórgia e da Ucrânia, mas enfrentará pressões semelhantes, principalmente de jovens líderes organizados. Sua maior esperança de atender às crescentes expectativas está em encorajar líderes de tendências democráticas e modernizar a governança.

Em quarto lugar, Putin poderá perder o Cáucaso Setentrional. Na Geórgia, Shevardnadze mostrou habilmente respeito pelas minorias, neutralizando ao mesmo tempo os líderes mais aguerridos. No entanto, ele se mostrou fraco demais para desestimular os ultranacionalistas da agressão destrutiva na Abkházia e da Ossétia do Sul.

Terrorismo. Putin enfrenta um problema mais assustador como o terrorismo e a revolta que se alastram pelo Cáucaso Setentrional. A região está fugindo do controle de Moscou. Putin deveria abrir o diálogo com as minorias locais, na maior parte muçulmanas, e se mostrar muito mais flexível e criativo. A brutalidade e os subornos inflamaram as paixões e desperdiçaram recursos. A Rússia poderia também melhorar as relações com a Geórgia para que o país vizinho ajude a conter as ameaças no Cáucaso Setentrional.

Putin é o líder mais popular da Rússia, numa cultura política que valoriza a mão forte, o nacionalismo e o status de grande potência independente. Mas a Rússia também está mudando. A sociedade civil, embora ainda fraca, está ganhando força. A insatisfação com a corrupção e a falta de escolhas eleitorais está crescendo.

A política do status quo é insuficientes, mas continua sendo a que Putin privilegia. Ele dissipa energias e desconcerta os vizinhos pressionando por uma união eurasiana que trará poucos benefícios. Os principais interesses e clientes da Rússia estão na Europa. Os russos a admiram e é para lá que muitos gostam de viajar ou mesmo de comprar imóveis.

Putin terá sucesso como presidente se efetivamente procurar solucionar os principais desafios da Rússia. No entanto, ele encontrará um eleitorado mais sofisticado e exigente. Quando Shevardnadze não pôde mais solucionar os problemas da Geórgia, foi afastado. Putin poderá correr o mesmo risco, a não ser que aprenda com Shevardnadze e os outros gigantes que se foram antes dele. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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