'As mudanças na Coreia do Norte já começaram'

Para analista, abertura ao mundo exterior não levaria necessariamente ao colapso do regime norte-coreano

Entrevista com

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h06

A Coreia do Norte terá de realizar reformas econômicas se quiser evitar um colapso semelhante ao que se abateu sobre os países comunistas do leste europeu. A afirmação é de Rudiger Frank, professor de economia e sociedade do Leste da Ásia da Universidade de Viena, que se dedica ao estudo do país há mais de 20 anos.

Nascido na ex-Alemanha Oriental, Frank passou parte de sua infância na antiga União Soviética e, na década de 90, frequentou durante um semestre a Universidade Kim Il-sung, em Pyongyang.

Segundo ele, as mudanças já começaram e será impossível revertê-las. "O dinheiro agora é tão importante quanto em outros lugares e isso afetou de maneira profunda o comportamento das pessoas, suas expectativas de vida e seu sistema de valores", disse ao Estado em entrevista por telefone.

Conselheiro de vários governos europeus em temas relacionados à Coreia do Norte, Frank acredita que não há disposição de Pyongyang em abandonar seu programa nuclear nas circunstâncias atuais. "O lançamento de um satélite na próxima semana será crucial para o país desenvolver a capacidade de transportar armas atômicas, não apenas de produzi-las", observou. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a importância das celebrações do centenário de Kim Il-sung e qual seu propósito político?

Kim Il-sung é o fundador do Estado e do sistema. Até o calendário norte-coreano começa com o ano de seu nascimento. Agora, nós estamos no ano Juche 101. É difícil exagerar a importância ideológica desse aniversário. É uma grande celebração que tem sido preparada há muitos anos e os norte-coreanos esperam que algo realmente festivo ocorra. Com a morte de Kim Jong-il, em dezembro, e a chegada ao poder do novo líder, Kim Jong-un, a celebração ganhou implicações políticas mais amplas. Kim Jong-un é neto de Kim Il-sung e ele deliberadamente tenta parecer com seu avô no corte de cabelo, na maneira de se vestir e até em seu peso. O evento também vai sustentar a legitimidade de seu novo governo.

Por que eles decidiram manter o plano de lançar um satélite nesta semana, inviabilizando o acordo de ajuda alimentar que haviam fechado com os EUA?

Eu acredito que os norte-coreanos jamais pretenderam cancelar o lançamento do satélite. Para eles, isso faz parte de seu programa espacial, que é um elemento de sua soberania, na qual ninguém tem o direito de interferir. Quando eles anunciaram a moratória no lançamento de mísseis, eles se referiam a mísseis com funções militares e não pensavam que o foguete para lançamento do satélite seria incluído. O lançamento está sendo preparado há anos, de maneira independente das conversas com os Estados Unidos. É uma exibição para a própria população e é parte de seu ambicioso programa espacial.

É mesmo o lançamento de um satélite, como sustenta a Coreia do Norte, ou é uma maneira disfarçada de fazer um teste com mísseis?

Os programas espaciais dos Estados Unidos e da ex-União Soviética sempre foram utilizados para propósitos militares. Pense no GPS, que todos nós usamos em nossos carros. Isto é um sistema militar usado para guiar mísseis americanos. É muito difícil traçar uma linha entre o uso pacífico e o militar. O objetivo é lançar um satélite, o que pode ser checado posteriormente e permitir que tenhamos a confirmação de que, em princípio, foi um lançamento pacífico. Claro que pode ser usado para fins militares, mas isso é algo que nunca pode ser excluído de um programa espacial.

O que esse lançamento vai significar para o programa nuclear norte-coreano?

Terá um impacto na sua capacidade não apenas de produzir artefatos nucleares, mas de transportá-los e de usá-los como armas. Isto é bastante claro e é por isso que os americanos e o resto do mundo estão tão preocupados.

A Coreia do Norte tem alguma intenção de abandonar sua ambição nuclear?

Nas atuais circunstâncias é bastante improvável, porque as razões para iniciar o programa não mudaram. A mais óbvia delas é a autodefesa. A Coreia do Norte é o exemplo típico de um país pequeno que se sente ameaçado pelos grandes e sabe que nunca conseguirá equiparar-se a eles com armas convencionais. Além disso, o programa nuclear garante uma boa dose de atenção internacional, que pode ser traduzida em questões econômicas. Se a Coreia do Norte não tivesse armas nucleares, ela seria apenas uma ditadura bizarra para a qual não daríamos bola. Outra razão é relacionada à política doméstica. O regime norte-coreano não teve muito sucesso em melhorar a qualidade de vida de seu povo, mas eles têm de demonstrar que atingiram alguma coisa e o programa nuclear pode ser considerado uma conquista aos olhos dos norte-coreanos.

A ideia de que a sociedade norte-coreana está congelada no tempo é verdadeira ou há mudanças em curso no país?

Eu visitei a Coreia do Norte várias vezes nos últimos 20 anos e a sociedade está mudando substancialmente. Entre as mais importantes transformações está a "remonetização" do país. O dinheiro agora é tão importante quanto em outros lugares e isto afetou de maneira profunda o comportamento das pessoas, suas expectativas de vida e seu sistema de valores. Os líderes norte-coreanos estão reagindo a isso. Eles tentaram realizar reformas, tentaram impedir reformas, mas acho que é quase impossível barrar esse processo. A Coreia do Norte tem duas saídas: ou eles seguem o caminho chinês, de reformar o seu modelo socialista mantendo o monopólio do Partido dos Trabalhadores, ou seguem o modelo europeu, que basicamente significa a implosão e o colapso. É possível manter o monopólio do Partido dos Trabalhadores e da família Kim, como vimos na China, mas não é possível manter o atual sistema econômico. A China iniciou reformas em 1978 e o Partido Comunista da China ainda está no poder. Eles têm de introduzir mais elementos de mercado e ser mais abertos ao comércio e aos investimentos externos, o que já está sendo feito.

O regime pode sobreviver a uma sociedade mais aberta e informada, que saiba como é o mundo fora da Coreia do Norte?

Nós ainda não estamos lá. Mas, se olharmos para a ideologia norte-coreana, não seria um grande problema ser mais aberto. Ela não é uma típica ideologia socialista como tivemos na Europa do Leste. Na Coreia do Norte, o socialismo está intimamente relacionada ao nacionalismo e à ideia de independência do país, o que é uma combinação ideológica muito mais estável e resistente à entrada de informação do exterior. Eu não sei qual a disposição dos líderes da Coreia do Norte de enfrentar riscos, mas, da perspectiva analítica, a maior abertura ao mundo exterior não vai necessariamente levar ao colapso da Coreia do Norte. / C.T.

Rudiger Frank é professor de economia e sociedade do Leste da Ásia da Universidade de Viena e há mais de 20 anos se dedica ao estudo da Coreia do Norte. Foi conselheiro de vários governos europeus em temas relacionados ao país e frequentou durante um semestre a Universidade Kim Il-sung, em Pyongyang

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