As muitas praças da Paz Celestial em 1989

Poucos se dão conta de que a 'Primavera de Pequim' não se limitou a uma cidade, mas foi um movimento nacional que ganhou outras partes da China

Alexa Olesen, Foreign Policy/ O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2014 | 02h03

Há 25 anos, na Província de Hunan, um grupo de estudantes ouviu no rádio notícias sobre a repressão a manifestantes pró-democracia em Pequim, a mais de 1.500 quilômetros. Embora fosse tarde da noite, eles saíram às ruas batendo panelas e gritando: "Está havendo um massacre". Nos dias seguintes, operários se juntaram a eles. Entregaram panfletos e penduraram uma faixa diante do cinema da cidade com a contagem oficial de vítimas: "300 mortos, 7 mil feridos".

A cena dramática, captada no livro The Pro-Democracy Protests in China: Reports from the Provinces ("Os protestos pela democracia na China: relatos das províncias", em tradução livre), se repetiu em diferentes lugares da China, antes e depois do massacre da Praça da Paz Celestial, em 4 de junho de 1989. Manifestantes ganharam as ruas em várias cidades, pequenas e grandes. Algumas passeatas reuniram 400 mil pessoas, como em Guangzou e Xangai. Os participantes usavam braçadeiras negras, cantavam e depositavam flores para os mortos.

O livro The Tiananmen Papers, escrito por um chinês sob o pseudônimo de Zhang Liang, foi um dos poucos a catalogar os protestos com base em documentos do governo. Ele registra protestos em pelo menos 181 cidades, incluindo todas as capitais provinciais. Esses números apontam para algo que muitos esquecem: a "Primavera de Pequim" não se limitou a uma cidade. Foi um movimento nacional. As manifestações inspiradas em Tiananmen foram a coroação de semanas de protestos que vinham pipocando pela China. Alguns foram inspirados pelos eventos em Pequim. Outros, nitidamente locais, só coincidiram com os desdobramentos na capital. Muitos centraram em queixas universais, como corrupção e desigualdade. Outros foram provocados por reivindicações locais das quais os manifestantes em Pequim provavelmente nunca tinham ouvido falar.

O movimento prosperou antes dos celulares e da internet, mas estudantes de todo o país encontraram maneiras engenhosas de compartilhar informações. Eles criaram resumos de emissões da BBC e da Voz da América, mimeografavam tudo e pregavam em postes ou entregavam de mão em mão. Boa parte dos protestos, porém, está enterrada na história. Hoje, não há uma pesquisa abrangente sobre em quais cidades houve protestos, sua escala ou foco. "Ninguém na China conseguiu mapear isso", disse Jonathan Unger, professor na Australian National University. "Acho que ficará perdido na história." / Tradução de Celso Paciornik

*É ex-correspondente da 'AP' em Pequim

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