As múltiplas crises do Oriente Médio

Enquanto os EUA consolidam o acordo nuclear com o Irã, novos e velhos problemas se aprofundam em quase toda a região

ISHAAN THAROOR*, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2015 | 02h02

O governo de Barack Obama conseguiu um apoio crucial para o acordo com o Irã esta semana, depois de pelo menos 42 senadores endossarem o proposto pacto, anunciado em julho em Viena na reunião de cúpula entre o Irã e as potências mundiais. A Casa Branca provavelmente não terá de vetar projeto de lei no Congresso contra o acordo, significando que uma aprovação tranquila do documento é agora quase fato consumado.

Mas os desafios mais enfadonhos do Oriente Médio têm pouco a ver com a capacidade do Irã de fabricar uma arma nuclear. Há problemas muito maiores.

Síria. A atual crise de refugiados na Europa evidenciou o sofrimento de dezenas de milhares de refugiados sírios fugindo da guerra e da adversidade. Embora hoje muito se critique os sistemas desorganizados do continente nas área de asilo e imigração, menos se fala sobre as raízes desse fluxo.

A brutal guerra civil na Síria já dura mais de quatro anos, pelo menos 300 mil pessoas morreram e 11 milhões estão desalojadas - cerca da metade da população do país. Não obstante seu horror, a complexidade geopolítica do conflito provocou uma paralisia estratégica e uma apatia da sociedade em geral.

O apoio ao regime do presidente Bashar Assad por países como Rússia e Irã continua vigoroso, embora grande parte da comunidade internacional veja a oposição diversificada no país com apreensão.

Ao mesmo tempo, o regime Assad continua seu impiedoso bombardeio de centros urbanos e uma constelação de facções rebeldes, entre elas o bárbaro Estado Islâmico, também fazem parte com sua própria cota de atrocidades. O enviado da ONU à Síria reconheceu que os esforços diplomáticos por uma trégua estão "emperrados".

Estado Islâmico. A organização extremista controla áreas de território na Síria e no Iraque e lidera uma brutal campanha de pilhagem e matança, escravizando e assassinando minorias, destruindo regiões consideradas patrimônio mundial. Quase 13 meses de uma guerra aérea liderada pelos EUA contra os jihadistas não desalojaram o grupo dos seus redutos, mas provavelmente atingiram dezenas de civis iraquianos e sírios.

Além disso, o alcance do EI parece aumentar; seus agentes têm assumido a responsabilidade por ataques na Europa, tramado ataques em locais distantes como Austrália e Estados Unidos e têm ramificações notórias da Líbia ao Afeganistão.

Iêmen. Perdido em meio às manchetes dos jornais na semana passada, um fato alarmante: dezenas de soldados dos Emirados Árabes foram mortos no conflito do Iêmen, evidenciando a que ponto os Estados do Golfo ricos em petróleo se envolveram na miserável guerra civil iemenita.

Esta semana, o Qatar anunciou que irá mobilizar mil soldados para combater os rebeldes houthis do país, cujo apoio do Irã diminuiu. Liderada pela Arábia Saudita, a intervenção militar no Iêmen envolveu meses de bloqueios, bombardeios aéreos fulminantes e mais destruição do pouco que resta do falido Estado iemenita.

Turquia. Foi um verão sangrento na Turquia. A partir de julho, a frágil paz entre o Estado turco e o PKK, guerrilha separatista curda, desmoronou. Desde então, mais de 100 agentes de segurança turcos foram mortos em explosões de bombas e ataques direcionados, como também dezenas, talvez centenas, de combatentes do PKK morreram em ataques aéreos e operações.

Os críticos do presidente turco Recep Erdogan afirmam que o governo está deliberadamente estimulando o sentimento contra os curdos antes das novas eleições marcadas para novembro. Na eleição de junho, o HDP pró-curdo conquistou 14% dos votos e rompeu a maioria parlamentar do partido de Erdogan no poder.

Corrupção. Ainda durante o verão, em atos separados de protestos, dezenas de milhares de libaneses e iraquianos foram às ruas das capitais dos seus países realizando manifestações de protesto contra os governos.

Os dois países são considerados barris de pólvora sectária, mas os protestos ilustraram uma tensão diferente: a angústia dos cidadãos comuns frustrados com uma governança corrupta e elites políticas irresponsáveis.

Palestina. A solução de dois Estados - plano que prevê um Estado Palestino separado e viável, ao lado de Israel, na melhor das hipóteses, é uma perspectiva distante. A tem sido um princípio de fé para sucessivos governos americanos. O secretário de Estado americano John Kerry fez um esforço enorme para reiniciar o processo que estava paralisado, mas as conversas fracassaram no segundo trimestre de 2014.

Alguns membros do alto escalão do governo de direita do premiê Binyamin Netanyahu não escondem seu desprezo pela própria noção de soberania palestina.

Diversos governos ocidentais, cada vez mais exasperados com Netanyahu, realizaram votações parlamentares reconhecendo a Palestina como Estado independente. Movimentos encorajando os boicotes e desinvestimentos com relação a Israel estão crescendo também, particularmente na Europa.

Por outro lado, o presidente palestino Mahmoud Abbas lidera um aparato político disfuncional cada vez mais impopular e desconectado dos palestinos comuns. O grupo islamista Hamas mantém o controle de fato da Faixa de Gaza, paralisada por bloqueios e guerra.

Na ausência de recursos para os palestinos conquistarem direitos civis iguais sob a ocupação israelense, o espectro de mais violência e conflito se agiganta.

Egito. Há quatro anos, o Estado mais populoso do mundo árabe liderou a história mais inspiradora da região. Uma revolução pró-democracia derrubou uma ditadura enraizada. A primavera estava no ar. Esse florescer de otimismo no Oriente Médio decididamente murchou e em poucos lugares a Primavera Árabe foi tão vigorosa quanto no Egito.

Com um golpe em 2013 colocou no poder o ex-general Abdel Fatah al-Sissi, os frágeis ganhos democráticos foram totalmente revertidos. Os dissidentes foram encurralados e capturados. Jornalistas têm sido presos.

Alguns defensores do regime Sissi afirmam que esse é o preço da estabilidade no mundo árabe. Mas os fatos provam o contrário. O país enfrenta uma desesperada crise de segurança, particularmente na península do Sinai, onde o Estado Islâmico está agora estabelecendo um ponto de apoio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

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