As negociações nucleares com Teerã

Usando sua dura retórica antiamericana, aiatolá Khamenei fez com que os iranianos entendessem sua linguagem

SCOTT, PETERSON, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 02h02

Horas depois de as conversações sobre a questão nuclear entre o Irã e seis potências mundiais se encerrarem sem que se tivesse chegado a uma conclusão dentro do prazo, na segunda-feira, sendo fixada, entretanto, sua extensão por mais seis meses, observou-se uma volta à combativa rotina de sempre.

No discurso que dirigiu a clérigos muçulmanos visitantes, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, dedicou apenas duas linhas às conversações. "Quanto à questão nuclear, os EUA e os países colonialistas europeus uniram-se e fizeram o possível para deixar a República Islâmica de joelhos, mas não conseguiram - e não conseguirão".

Uma nota triunfalista, talvez, sobre negociações que se arrastam há dois anos e meio entre o Irã e P5+1 (EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha), uma nota que soa desafinada para os que, no Ocidente, temem que a extensão das conversações os tornem vulneráveis aos elementos intransigentes de ambas as partes, contrários a um acordo abrangente.

Mas, segundo analistas, na realidade, isto faz parte de um esforço para ampliar o apoio oficial e público no Irã para continuar as conversações e preparar a população iraniana para o resultado, seja ele qual for. Durante todo o processo, Khamenei autorizou cada passo das negociações e, nos últimos meses, enquanto as conversações se aproximavam do prazo final de 24 de novembro, deu seu apoio pessoal aos diplomatas iranianos.

Na semana passada, surgiram mais sinais de que Khamenei estava obtendo apoio para um acordo. Em uma pressão orquestrada em todo o país pelos líderes da oração da sexta-feira, têm sido ouvidas vozes críticas às negociações. O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, que adotou a linha mais intransigente do P5+1 contra o Irã, disse que, no último dia, as conversações "aceleraram" e ele detectou "uma vontade (do Irã) de chegar a um acordo que não percebera no passado".

Queixas. Imediatamente após o anúncio da prorrogação até 30 de junho de 2015, o presidente iraniano, Hassan Rohani, procurou dar um caráter positivo ao acordo, que mantém o programa nuclear do Irã congelado e a maior parte das sanções extremamente rigorosas em vigor.

"Ninguém duvida, no mundo de hoje, que o Irã deve ter uma atividade nuclear e as sanções deveriam ser levantadas. Desta vez, nossa nação saiu vitoriosa", declarou Rohani à TV. "Nossa lógica é a da negociação e da interação com o mundo. Um acordo deverá acontecer mais cedo ou mais tarde", salientou, prevendo uma melhoria "do cinza para o crepúsculo e a plena luz do dia".

Funcionários americanos entenderam as palavras de Rohani como um sinal de que Khamenei continua abençoando as conversações. Além da questão nuclear, alguns analistas iranianos sugerem que mais de um ano de intensa ação diplomática entre EUA e Irã, no primeiro contato desde a revolução islâmica de 1979, poderá render uma mudança do estridente antiamericanismo oficial para um relacionamento mais funcional.

Ninguém usa a palavra "amizade", depois de 35 anos de hostilidades mútuas e de conflito aberto e camuflado, entre os EUA e o Irã, mas a mudança prática poderá ocorrer com um inimigo comum, os militantes sunitas do Estado Islâmico e um desejo comum de estabilidade regional.

Falando no fim de semana, Barack Obama indicou que o resultado poderá ser mais amplo, caso se chegue a um acordo nuclear. No entanto, Khamenei raramente deixa sua dura retórica antiamericana. Em seus discursos, frequentemente, ele apresenta listas de queixas históricas, desde o papel da CIA no golpe de 1953 no Irã ao vírus de computador Stuxnet, cuja finalidade era destruir o programa nuclear do país, o que significa, segundo ele, que não se pode confiar nos EUA.

Khamenei, porém, autorizou também o contato direto com os EUA, sempre que ele considerou servir aos interesses iranianos, como quando forneceu aos EUA alvos e informações secretas sobre o Taleban no Afeganistão, em 2001.

O general Hassan Firouzabadi, comandante das Forças Armadas, afirmou que as conversações "avançaram no sentido certo." Do mesmo modo, o comandante da linha dura da milícia ideológica Basij, do Irã, brigadeiro general Mohamed-Reza Naghdi, declarou que as conversações, até o momento, "respeitaram nossa dignidade".

No entanto, a dúvida da linha dura persiste, apesar do tom moderado dos últimos dias. Ainda que um possível acordo nuclear possa mudar as atitudes oficiais iranianas em relação aos EUA, os fiéis ainda gritam "Morte à América!" e "Morte a Israel!" todas as semanas nas orações da sexta-feira. Esta semana, os slogans ecoaram também no Parlamento, em Teerã. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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