As objeções chinesas a Obama

Pequim troca de comando e espera uma cooperação e uma divisão cada vez maior de poder com Washington na Ásia e no Pacífico

JANE, PERLEZ, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h05

Análise

Com a reeleição de Barack Obama e a iminente transferência de poder na China para uma nova geração de líderes, um dos maiores desafios a serem enfrentados pelo governo americano será encontrar um papel econômico e estratégico na Ásia que seja aceitável para seus aliados e não provoque o antagonismo dos chineses, é o que afirmam analistas. Na China, o governo acolheu bem a vitória de Obama, mas com as palavras afetuosas do presidente de saída, Hu Jintao, veio também um alerta para que os EUA sejam um parceiro que coopere mais à medida que a China, mesmo com a economia desacelerando, continue a crescer em termos de riqueza e poder.

O provável novo líder da China, Xi Jinping, cujo nome deve ser ratificado no final do 18.º Congresso do Partido Comunista iniciado ontem, fez referência a "um novo tipo de relação entre grandes países no século 21". O objetivo dos chineses, segundo analistas, é dividir cada vez mais o poder com os EUA nas próximas décadas, do mesmo modo que a Grã-Bretanha abriu a porta para os EUA, um país em ascensão, no fim do século 19 e início do 20.

A política de Obama para a Ásia, qualificada de "pivot", que significa o retorno de um poder aéreo e naval maior na região depois do fim das guerras no Iraque e no Afeganistão, não é vista como parceria pelos chineses, mas sim uma estratégia hostil para reprimir uma China emergente. "Embora todos na Ásia desejem a permanência dos EUA, eles querem que o país atue como poder estabilizador e não como um poder de primeira grandeza", disse Hugh White, professor de estudos estratégicos da Universidade Nacional da Austrália.

Aliados dos EUA, como Japão e Austrália, que mantêm uma relação econômica robusta com a China e, ao mesmo tempo, vínculos militares tradicionais com os americanos, não querem ser forçados a optar ente Pequim e Washington, segundo White.

A China continua a modernizar seu Exército, particularmente sua Marinha e Força Aérea, e o objetivo é substituir a ordem regional estabelecida após a 2.ª Guerra, com um domínio americano, por outra em que os chineses tenham, no mínimo, tanto poder quanto os EUA na Ásia e no Pacífico Ocidental.

As recentes medidas adotadas pelos EUA para expandir e aprofundar as relações com os vizinhos asiáticos da China - não só aumentando a presença militar, mas também firmando acordos de livre comércio que excluem a China - são vistas em Pequim como resistência ao desafio da China à liderança americana na Ásia.

No entanto, se os EUA, que terão uma nova secretária de Estado depois da saída de Hillary Clinton no próximo ano, terão capacidade e vontade para levar a cabo suas promessas na região, essa é uma questão em aberto. "Pivot é uma linda palavra, mas estamos perguntando, 'o que isso realmente significa?'", afirmou Fumiaki Kubo, professor de políticas públicas da Universidade de Tóquio. "Qual é o significado da política americana de segurança na Ásia?"

A preocupação imediata do Japão é se Obama vai se manter do seu lado na sua disputa territorial com a China, envolvendo as ilhas conhecidas como Senkaku, no Japão, e Diaoyu, na China. Washington tem afirmado sua neutralidade, argumentando que não interferirá em questões de soberania, mas tem deixado claro que o arquipélago está incluídas no tratado firmado entre EUA e Japão.

No Vietnã, que sempre foi circunspecto com relação a sua vizinha China, o governo Obama aperfeiçoou as relações econômicas com o governo comunista a ponto de criar elos mais fortes do que com os chineses (a China apoiou Hanói em sua guerra de independência, mas existe uma rivalidade que remonta a séculos com o Vietnã).

"Gostaria de ver uma presença maior dos EUA na Ásia", disse Nguyen Thy Nhan, diretor da área de pesquisa do mercado de ações da VietFund Management, companhia de investimentos de Ho Chi Mihn. "Isso permitirá um maior equilíbrio de poder na região".

Uma das possibilidades no segundo mandato de Obama é convencer o Vietnã a permitir que a Marinha americana use o porto estratégico de Cam Rahn Bay, o que seria uma afirmação relativamente barata da estratégia adotada para a Ásia, mesmo que não agrade a China. O secretário de Defesa, Leon Panetta, esteve no Porto de Cam Rahn Bay. Foi a primeira autoridade americana de alto escalão a visitar o local desde o fim da Guerra do Vietnã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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