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As opções de Hollande

Passadas as eleições municipais de ontem, o presidente francês François Hollande terá como tarefa limpar os escombros, fazer a contagem dos mortos ou dos que ainda estão soterrados na casa desmoronada e começar a reconstrução. Na verdade, se esse escrutínio municipal significou tamanha derrota é porque a direita progrediu nos dois últimos anos.

Gilles Lapouge , O Estado de S.Paulo

31 de março de 2014 | 02h07

Mas o mais grave é que uma parte dos eleitores socialistas abandonou o navio em perigo. Sem chegar a se "bandear para o inimigo" (isto é, votar na direita), uma quantidade enorme de socialistas não compareceu às urnas. Isso explica as porcentagens recordes de abstenção.

Quem são esses desiludidos com Hollande? Em geral, são os "socialistas de esquerda", os que ficaram revoltados com a lenta, mas implacável, deriva do governo Hollande para as práticas do "centro", ou mesmo da "direita". Enquanto Hollande, há dois anos, tinha um discurso quase populista ("Não gosto dos ricos", etc.), ele foi obrigado a se "direitizar" à medida que sua ação acumulava fracassos.

Adeus luta de classes e desconfiança dos patrões! Pressionado na garganta pela crise e o desemprego, Hollande "se amigou" com esses mesmos ricos, com esses patrões que outrora vilipendiava. Em janeiro de 2014, ele cometeu, aos olhos dos socialistas de esquerda, o pecado supremo. Propôs ao patronato um "pacto de responsabilidade" com o seguinte princípio: os encargos que estrangulam as empresas serão retirados e, com isso, essas empresas poderão, assim se espera, contratar novos assalariados.

Ministros de Hollande foram vistos então de braços dados com os patrões. Os socialistas não acreditavam no que viam. Eles prenderam a respiração de indignação, mas tiveram que se render às evidências. Hollande havia cometido o sacrilégio supremo: havia se tornado um "social-democrata".

Vergonha! Compreendem-se melhor agora as angústias de Hollande. A partir de hoje, ele vai se ver às voltas com um governo massacrado por esta eleição, um governo em cinzas. É fato que ele pode remanejar o governo, demitir seu premiê Jean-Marc Ayrault e nomear um novo, mudar alguns ministros. Mas, depois, por que caminho esse governo novo em folha deverá enveredar?

Na verdade, qualquer que seja o caminho escolhido por Hollande, ele estará ladeado por dois perigos mortais: à direita, a malta dos amigos do ex-presidente Sarkozy, de (Jean-François) Copé e de (François) Fillon mostrará os dentes por mais que Hollande volte a práticas mais socialistas, reencontre sua "alma de esquerda" e, por exemplo, ponha fim a esse flerte que começou com o patronato.

Mas ao lado esquerdo da estrada, a situação não será mais feliz: há outra malta, também rancorosa. São os socialistas "puros e duros", para os quais a "social-democracia" é um palavrão, que destruirão Hollande se ele se obstinar a crer que, para sair da crise econômica, deve se entender com os empresários e os meios de negócios.

Perigo mortal à direita e mortal à esquerda, é o que os Evangelhos chamam de "via estreita". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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