As oportunidades perdidas na América Latina

Governo americano deveria tratar com mais respeito os países latino-americanos e adotar uma política externa positiva para a região

DAVID ROTHKOPF, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h12

Teria sido muito fácil. Ao visitar o Brasil, há alguns anos, o presidente Barack Obama devia ter feito o que fez quando esteve na Índia. Expressar seu apoio à candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Era muito importante para o Brasil. E ninguém, nenhum simples mortal, esperava que o presidente dos Estados Unidos realmente cumprisse a promessa durante seu mandato. E ele teria ganho muito sem praticamente nenhum custo.

Mas não. A equipe D da política externa, ou seja, os responsáveis pelas estratégias dos Estados Unidos para a América Latina, na época, com algumas notáveis exceções, considerou ser mais importante punir o Brasil pelo fato de o País ter tido a audácia de empreender uma política externa própria, trabalhando em parceria com os turcos para a retomada de um diálogo construtivo com o Irã.

Uma oportunidade foi desperdiçada em razão da mesquinhez e da falta de visão. No entanto, antes de acusar a equipe, é importante observar que integrantes do alto escalão do governo - mesmo com uma visão estratégica mais ampla - não fizeram muito para avançar nesse ponto.

E à oportunidade desperdiçada se acrescentou outro fato pior, pois como o governo americano considerava sua relação com a Turquia especial e o presidente mantinha uma ligação também especial com o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, a Turquia jamais foi punida, apesar da parceria com o Brasil por levar adiante a iniciativa iraniana. Naturalmente, Erdogan recompensou Obama pelo apoio, debilitando a democracia em seu país e apoiando algumas facções desprezíveis na Síria, apesar da oposição dos EUA.

E, para piorar a situação, na mesma viagem ao Brasil, enquanto Obama se reunia com a presidente Dilma Rousseff em seu gabinete em Brasília, a algumas quadras dali, funcionários do alto escalão se aproveitavam da hospitalidade brasileira para operar o comando central da Casa Branca e supervisionar as operações na Líbia.

Vizinho. No entanto, não foi a única oportunidade perdida pelos EUA na América Latina nos últimos quatro anos. Apesar dos esforços da ex-secretária de Estado Hillary Clinton para colocar o México na lista das prioridades políticas do país, pouca coisa valiosa se concretizou para aprimorar a relação nos campos econômico, social ou energético.

Os EUA têm sido de grande ajuda na guerra contra os cartéis, mas, por outro lado, no 20.º aniversário do Nafta (Acordo de Livre Comércio das Américas), quando o México vem mostrando um bom desempenho e os EUA deveriam estar empenhados em estreitar os vínculos com o vizinho, o principal tema de debate é a construção de um muro mais alto para dividir os dois países.

E, embora finalmente tenham sido aprovados os acordos comerciais iniciados pelo presidente George W. Bush com Colômbia, Peru e Panamá, os EUA não avançaram para a etapa seguinte da política comercial na região (por exemplo, criar um plano de ação com vistas a uma maior cooperação entre Mercosul e Nafta).

O que mais tem repercutido no Hemisfério Sul nos últimos quatro anos, porém, é a total falta de interesse dos EUA na região - além de discordar regularmente da esquerda latino-americana e de descartar tópicos que os latino-americanos desejam debater em reuniões multilaterais (políticas de combate à droga envolvendo a demanda nos EUA, fluxo de armas americanas para a região ou a adoção de uma política mais racional com Cuba).

O governo deveria ter visto a morte de Hugo Chávez como uma chance para restabelecer a relação com o grupo de líderes de esquerda da região. Afinal, não é tão secreto o desejo de Obama e daqueles que o cercam de restabelecer o vínculo entre EUA e Cuba no século 21, de criar um plano de ação para pôr fim ao embargo, que é um dos maiores fiascos na história da política externa americana. Isso renderia pontos ao governo. Algumas das autoridades de esquerda mais influentes na região, como o presidente equatoriano, Rafael Correa, mostram-se mais cooperativas em temas como uma colaboração no combate à droga e até mais abertos a um avanço em alguns temas comerciais.

Como a esquerda tem muita influência em muitos países importantes da América Latina - como Venezuela, Brasil e Argentina, sem falar em Equador, Bolívia, Peru, Nicarágua, Cuba e Chile, onde a ex-presidente Michelle Bachelet prepara-se para um retorno - vale a pena o esforço.

Atraso. Como os EUA parecem muito satisfeitos em trabalhar com governos de esquerda de todas as partes do mundo (e outros que são autoritários ou piores, como o de Vladimir Putin), temos de perguntar porque o establishment político latino-americano tem tanta dificuldade para superar a década de 80? Ou de 60?

Segundo uma piada popular, existem duas facções na comunidade política latino-americana - a formada pelos que ainda vivem na década de 60 e aqueles que ainda vivem na de 80.

Como a resposta é difícil de ser encontrada, as consequências não podem ser mais óbvias. A ausência de um real foco na região, exceto reclamar a respeito das disputas comerciais ou polemizar por coisas banais com políticos iguais a Chávez (uma disputa compreensível, mas não uma base propícia para uma política regional) criou um vazio que indica que, quando alguma coisa dá errado, na realidade, isso é encarado como a política inteira dos EUA nas Américas.

Assim, adquire muito mais importância do que deveria um fiasco envolvendo o avião em que viajava o presidente da Bolívia, Evo Morales, proibido de decolar na Europa porque se acreditava que ele estaria levando Edward Snowden para um novo destino.

O fato irritou os colegas de Evo em toda a América Latina. O grande rufião do Norte os estava insultando novamente, violando ilegalmente sua soberania. E, depois, quando foi revelado que a Agência de Segurança Nacional americana havia interceptado ativamente comunicações de milhões de brasileiros, os EUA, na verdade, conseguiram lançar suas relações com países da região de volta ao século passado, no qual alguns políticos americanos parecem se sentir mais confortáveis.

Certamente, não ajudou o fato de ter sido revelado também que as interceptações se estenderam a México, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, entre outros. A comunidade de inteligência dos EUA estava se imiscuindo nos assuntos de todo mundo. Washington os trata de novo como cidadãos de segunda classe. E tem sido difícil nomear grandes iniciativas positivas que possam contrabalançar o incidente - como podemos ver no caso da China ou mesmo da Rússia - para que se consiga, pelo menos, manter as relações complexas, mas não tão abomináveis.

Às vezes, as pessoas acham que não prestar muita atenção à região tem a vantagem de não prejudicar ninguém. Não é verdade. Por que isso deixa a porta aberta para o inesperado e o incômodo de definir toda a relação e dá aos EUA pouca margem no sentido de neutralizar os problemas quando surgem.

É similar à posição do país quanto à guerra na Síria, onde a ausência de ação não significa que os EUA estão liberados de qualquer culpa. Às vezes, você tem um problema não porque deu ensejo a ele, mas porque sua negligência o exacerbou ou tornou-o possível.

Por essa razão, se a equipe de Obama não deseja ser responsável pelo declínio das relações entre EUA e América Latina ao seu mais baixo nível em anos, terá de pensar em iniciativas positivas, significativas e concretas, que até agora não foram adotadas. Um forte avanço na questão de Cuba, reconhecer o Brasil como parceiro de fato na comunidade das grandes potências, priorizar políticas de colaboração e não de divisão com o México e um novo plano de ação no campo comercial.

Promover políticas pioneiras em área ligadas à segurança de dados e uso da internet, na economia, manter uma cooperação na questão do clima e energia, todos esses são os elementos que devem ser parte de uma estratégia mais construtiva. No entanto, o mais importante será reconhecer que tais estratégias não são adotadas para uma região somente quando ela se sente negligenciada.

As iniciativas políticas mais eficazes e duradouras são aquelas que os EUA adotam com seus parceiros com base não só nas suas necessidades e programas, mas ouvindo o que os outros desejam e encontrando uma base comum. Em outras palavras, as melhores iniciativas têm como base o verdadeiro respeito mútuo que tem faltado do lado dos EUA há anos - ou, talvez, desde sempre. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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